O SÁBIO SABE NÃO SABER TUDO E SABE QUE NÃO BASTA NUTRIR-SE APENAS DE CONHECIMENTOS, POIS O MAIOR CONHECIMENTO QUE POSSUI RESIDE NA SUA IGNORÂNCIA, E A SUA MAIOR SABEDORIA É SABER-SE SER HABITADO POR ELA”.
SABEDORIA
Prato multivariado que proporciona equilíbrio e bem-estar na medida certa. Nele estão presentes todos os ingredientes que a alma necessita, sem desperdício ou economia. Quem se nutre de sabedoria torna-se um sábio que sabe não saber tudo, mas que sabe doar o que sabe a tudo e a todos.
CUSTO
O preço que se paga para se tornar um sábio é o despojar-se de toda arrogância, pedantismo e vaidade, bem como o valioso reconhecimento de nossa ignorância.
TIRA-GOSTO
SER PLENO
SER PLENO
É SER TUDO?
SER PLENO
É SER VOCÊ MESMO
SER PLENO
É TER TUDO?
SER PLENO
É TER O NECESSÁRIO
SER PLENO
É SER EQUILIBRADO?
SER PLENO
É MODERAR OS SEUS DESEQUILÍBRIOS
SER PLENO
É SER SÁBIO?
SER PLENO
É SE PERMITIR NÃO SABER
SER PLENO
É SER PERFEITO?
SER PLENO
É SE APERFEIÇOAR
SER PLENO
É SER ACABADO?
SER PLENO
É CONTINUIDADE
SER PLENO
É ESTAR REPLETO?
SER PLENO
É MERGULHAR NO SEU VAZIO
SER PLENO
É SER INTEIRO?
SER PLENO
É LIDAR COM SEUS PEDAÇOS
SER PLENO
É SER ABSOLUTO?
SER PLENO
É RELATIVO, APESAR DE TUDO
INGREDIENTES
Porções equilibradas de todas as virtudes, "defeitos" e experiências que a vida tiver para lhe oferecer.
PREPARO
Abra sua agenda e reserve um tempo para vivenciar tudo de que sua alma necessita sem subestimar ou superestimar qualquer experiência que seja. Saiba que todas elas, por mais amargas que sejam, são fundamentais para tornar este prato nutritivo. Pegue na despensa todos os ingredientes da vida que você já não vive e misture tudo no caldeirão dela. Este prato só é passível de ser preparado numa panela bem ampla. Vasilhas pequenas não comportam todos os ingredientes que este prato requer. Não economize sentimentos, emoções e aventuras. Este prato não é uma boa sugestão para quem deseja economia ou possua alguma alergia aos substanciais alimentos que a vida oferece.
Não tente preparar este prato exclusivamente com porções de conhecimento, pois isso alteraria, significativamente, o sabor e o valor nutritivo dele.
Utilize, também, uma dose razoável de autoconhecimento para que você não corra o risco de jogar no caldeirão da vida alimentos estragados ou fora do prazo de validade, que, em invés de nutrir, intoxicam.
Seja prático, dando um toque todo seu na preparação deste alimento, que nunca deverá seguir normas rígidas para ser preparado e servido. Esteja atento, a cada momento, a todas as transformações ocorridas. Para isso, use uma pitada de paciência, lembrando que este prato é um péssimo pedido para os imediatistas.
Se utilizar todos os ingredientes da vida com moderação e equilíbrio, sentirá o gosto específico de cada um deles e o inédito sabor das combinações
Apure seu paladar e BOM APETITE!
SOBREMESA
A DEUSA DA SABEDORIA
Havia uma Deusa muito sábia que, pensando no desenvolvimento do ser humano, criou inúmeras sementes com o gene da "evolução" para que ele pudesse semeá-las e cultivá-las. Cada semente deveria ser plantada no solo de nossa alma, cultivada com carinho e dedicação, para que uma floresta de boas virtudes, potencialidades e recursos pudesse habitar a nossa vida. Alimentar-se dos frutos das árvores dessa rica floresta faria com que a alma estivesse sempre bem nutrida.
Todo ser humano receberia, ao nascer, sementes de todas as espécies, devendo cuidar delas e alimentar-se de seus frutos até o seu último dia de vida. Antes mesmo do nascimento, seria advertido de que todas seriam fundamentais ao seu desenvolvimento — devendo, portanto, cuidar de cada uma sem discriminação e com o mesmo apreço. Caso atribuísse atenção excessiva a apenas uma delas, correria riscos de desnutrição.
Certa de que seu projeto de evolução humana seria indispensável à saudável perpetuação da espécie, a Deusa da Sabedoria gerou infinitas sementes que carregavam o gene do amor, da paz, da fé, da felicidade, da saúde, da alegria, do conhecimento, do trabalho, da criatividade, do lazer, do prazer, da esperança, da humildade, da verdade — enfim, de todos os nutritivos recursos de que o homem precisaria para se tornar uma grandiosa obra. Ao gerá-las, ofertava cada semente a toda alma que se comprometesse com esse magnífico projeto de vida. Aquelas almas que não aceitassem ou não se comprometessem com este projeto, não eram convidadas e liberadas para habitar este espaço nomeado como "Espaço Humanitário".
A vida tornou-se uma bênção. Todo ser que chegava ao mundo semeava e cultivava com empenho cada árvore virtuosa e, com seus frutos, preparava as mais diversificadas e saborosas refeições para a alma. Com um cardápio enriquecedor, preparavam banquetes criativos que os mantinham fortes e nutridos.
Desde o nascimento, o ser humano já era uma potência que necessitava apenas ser desenvolvida. O tempo, aliado aos cuidados básicos com cada semente, transformava os brotos em uma floresta repleta de recursos.
Como toda natureza está sujeita a desvios, apareceu na natureza humana a primeira ameaça ao seu equilíbrio. Um ser nefasto, invejando o nirvana daquele paraíso, resolveu lançar sobre as almas uma semente difícil de ser reconhecida. Não era uma semente de um mal manifesto — afinal, todos já haviam sido advertidos sobre os perigos das ervas daninhas e, assim que uma delas brotava, uniam esforços para exterminá-la. Esta nova semente dissimulada potencializava o desejo de dedicar cuidados exclusivos a uma única espécie. Como o ser humano estava comprometido com a força virtuosa da dedicação, passava desapercebido o mal que estava fazendo às outras espécies, relegando-as a segundo plano e, futuramente, ao esquecimento. Este plano sutil dificilmente fracassaria, e foi exatamente o que aconteceu. Para a alegria do vilão, sua armadilha brotou com força em muitas almas ingênuas e desavisadas, que começaram a se dedicar, obsessivamente, a uma única semente. A entrega a uma única virtude fazia com que todos pensassem estar trilhando o caminho certo. A alma tomada pela obstinação não tinha discernimento para perceber a negligência com todo o resto ao seu redor.
A Deusa da Sabedoria chorou ao ver o caos infligido à sua obra e não sabia como resgatá-la de tamanha malícia. Os que se dedicavam à fé compulsiva perdiam a visão e saíam disseminando o fanatismo para as almas perdidas, crucificando-as em vez de libertá-las. Os que optavam por uma dieta baseada na verdade absoluta apropriaram-se dela, catequizando e impondo o seu desejo de dominação como única saída para a salvação. Aqueles que se fantasiavam de humildade pregavam de forma ardilosa a miséria e mendicância. Os que tinham fome de conhecimento devoravam livros, mas não conseguiam decifrar e ler a subjetividade. Aqueles que viviam o apego travestido de amor transformavam relações em posse. Os que viviam a euforia fantasiada de alegria, em vez de graça, inspiravam tédio. Quem se tornou obcecado pela saúde do corpo passou a cultivar a própria doença se tornando um hipocondríaco em potencial. A paz tornou-se vítima de vãs filosofias sustentadas apenas por teorias. O trabalho compulsivo transformou-se em fonte de estresse. O ser maquínico julgava-se um nobre operador da produção, sem identificar o seu labor doentio. E onde estava a esperança para o fim desse caos? Transformara-se em uma espera patológica que mascarava a passividade, a inércia, a indolência, a omissão e o desejo por nada fazer.
A vida tornou-se uma bênção. Todo ser que chegava ao mundo semeava e cultivava com empenho cada árvore virtuosa e, com seus frutos, preparava as mais diversificadas e saborosas refeições para a alma. Com um cardápio enriquecedor, preparavam banquetes criativos que os mantinham fortes e nutridos.
Desde o nascimento, o ser humano já era uma potência que necessitava apenas ser desenvolvida. O tempo, aliado aos cuidados básicos com cada semente, transformava os brotos em uma floresta repleta de recursos.
Como toda natureza está sujeita a desvios, apareceu na natureza humana a primeira ameaça ao seu equilíbrio. Um ser nefasto, invejando o nirvana daquele paraíso, resolveu lançar sobre as almas uma semente difícil de ser reconhecida. Não era uma semente de um mal manifesto — afinal, todos já haviam sido advertidos sobre os perigos das ervas daninhas e, assim que uma delas brotava, uniam esforços para exterminá-la. Esta nova semente dissimulada potencializava o desejo de dedicar cuidados exclusivos a uma única espécie. Como o ser humano estava comprometido com a força virtuosa da dedicação, passava desapercebido o mal que estava fazendo às outras espécies, relegando-as a segundo plano e, futuramente, ao esquecimento. Este plano sutil dificilmente fracassaria, e foi exatamente o que aconteceu. Para a alegria do vilão, sua armadilha brotou com força em muitas almas ingênuas e desavisadas, que começaram a se dedicar, obsessivamente, a uma única semente. A entrega a uma única virtude fazia com que todos pensassem estar trilhando o caminho certo. A alma tomada pela obstinação não tinha discernimento para perceber a negligência com todo o resto ao seu redor.
A Deusa da Sabedoria chorou ao ver o caos infligido à sua obra e não sabia como resgatá-la de tamanha malícia. Os que se dedicavam à fé compulsiva perdiam a visão e saíam disseminando o fanatismo para as almas perdidas, crucificando-as em vez de libertá-las. Os que optavam por uma dieta baseada na verdade absoluta apropriaram-se dela, catequizando e impondo o seu desejo de dominação como única saída para a salvação. Aqueles que se fantasiavam de humildade pregavam de forma ardilosa a miséria e mendicância. Os que tinham fome de conhecimento devoravam livros, mas não conseguiam decifrar e ler a subjetividade. Aqueles que viviam o apego travestido de amor transformavam relações em posse. Os que viviam a euforia fantasiada de alegria, em vez de graça, inspiravam tédio. Quem se tornou obcecado pela saúde do corpo passou a cultivar a própria doença se tornando um hipocondríaco em potencial. A paz tornou-se vítima de vãs filosofias sustentadas apenas por teorias. O trabalho compulsivo transformou-se em fonte de estresse. O ser maquínico julgava-se um nobre operador da produção, sem identificar o seu labor doentio. E onde estava a esperança para o fim desse caos? Transformara-se em uma espera patológica que mascarava a passividade, a inércia, a indolência, a omissão e o desejo por nada fazer.
A Deusa da Sabedoria assistia ao flagelo humano sem saber como ajudar. Viu florestas inteiras serem devastadas e transformadas em desertos. O humano se desertou. A alimentação foi ficando escassa e artificial. O alimentos outrora produzido pela própria alma passara a ser comprado em centros comerciais. Os cinemas, os teatros e todos os espaços de arte foram convertidos em farmácias. Todas as virtudes começaram a ser comercializadas. Quem não cultivava o equilíbrio podia adquiri-lo em enlatados com o rótulo de Spa. Quem não cultivava a alegria podia comprar um saco de risadas ou se viciar em conteúdos fúteis. Os que não tinham vocação para a fé pagavam o dízimo com a intenção de comprar o paraíso. A liberdade era vendida em cursos de voo livre para produzir a ilusão de ser um pássaro. As propagandas midiáticas intitulavam antidepressivos e ansiolíticos como a pílula da felicidade, da paz e da tranquilidade. Com o amor e os prazeres sexuais não foi diferente: o desejo precisava ser estimulado por pílulas, programas e telas. A beleza era comprada nas lojas e a juventude era adquirida através de caros procedimentos estéticos. Produzir seres humanos em laboratório seguindo os padrões vigentes parecia mais garantido do que o "ultrapassado" método natural. Os filhos eram gestados de acordo com a moda da estação. Pais frustrados e sem vocação para educar tratavam de terceirizar e institucionalizar os filhos desde cedo em nome de uma suposta boa educação. E assim, o ser humano deu a todas essas transformações o nome de progresso.
Carente de uma alimentação saudável e absorta em tanta artificialidade, a raça humana assistiu a proliferação de um câncer espiritual devastador. A Deusa da Sabedoria deu-se conta de que o dito progresso humano distorcera completamente o seu projeto original de evolução. Sua obra perdera a capacidade de discernir e se desenvolver. Ela sabia qual semente poderia salvar a humanidade do caos, mas não sabia como introduzi-la nesse novo universo. Com sua divina sapiência, gerou a si mesma e ofertou-se à Terra em forma de semente.
Eu ainda não sei dizer onde caiu a semente da sabedoria, mas posso garantir que ela existe em algum lugar e é a nossa única saída. Às vezes, tenho a impressão de que ela se encontra dentro de cada um de nós, em um refúgio escuro que necessita apenas de um pouco de luz para germinar e crescer. O Deus da Iluminação há de lançar seus raios sobre essa semente. Sei que uma nuvem escura impede a luz de penetrar na alma de alguns, mas já consigo ver muitos outros irradiando brilho — e isso me enche de esperança. Se houver uma nuvem escura sobre você, comece a soprá-la agora mesmo. Garanto que, por trás dela, uma luz poderosa o aguarda.