segunda-feira, 23 de abril de 2012
RECEITA DA SEMANA
segunda-feira, 16 de abril de 2012
EQUILÍBRIO
segunda-feira, 9 de abril de 2012
PERDÃO
DIABÓLICO VENENO.
PERDÃO:
SAGRADA MEDICAÇÃO
QUE O NOSSO AMOR CONVALESCENTE IMPLOROU.
ENTRETANTO...
CUSPISTE VENENO
NA NOSSA FERIDA
QUE URGIA SER SUTURADA
COM A COMPREENSÃO
DE QUE NÃO SOMOS PERFEITOS,
JAMAIS DILACERADA
COM ACUSAÇÕES
ÀS NOSSAS IMPERFEIÇÕES.
GOLPE MORTAL:
SANGROU A ÚLTIMA GOTA
DO AMOR QUE CORRIA
PELAS VEIAS DO MEU SER,
NECROSANDO SENTIMENTOS VÍVIDOS,
JAMAIS RESSUSCITADOS,
SENTIDOS.
Você sabe como se prepara uma broa? A broa é preparada com o leite que azedou. O perdão também é preparado com a parte mais azeda e amarga dentro da gente: o ódio e a raiva. Assim como na broa, é necessário transformar essa parte tão indigesta em um alimento saudável. Combinando esse “leite azedo” — que ninguém teria o paladar ou o prazer de provar — com o fubá da compreensão, a farinha da tolerância, a doce paciência, os ovos do autoconhecimento, a amanteigada humildade e o fermento do crescimento pessoal, você conseguirá levar ao forno da vida um delicioso lanche que, depois de assado pelo calor da transformação, estará no ponto para ser servido e saboreado. Não deixe que o calor do seu forno seja esfriado pelo pela fria vaidade, arrogância e orgulho. Se isso acontecer, sua broa murchará e parecerá mais uma "sola de sapato" que os coléricos usam muito mais para pisar no outro do que para se nutrir. Quando o seu leite azedar, faça uma broa e fique numa boa. Prepare esse prato certo de que a pessoa que mais terá o prazer de se nutrir e saborear esse alimento será você mesmo, e não, necessariamente, aquele caustico ser que ajudou a azedar o seu leite. Saiba também que é muito bom podermos compartilhar com quem amamos o nosso doce sabor, pois não há quem aguente por muito tempo o nosso ranço azedo
SOBREMESA
Dolores vivia o desmoronamento do seu casamento. A traição do marido fora um golpe inimaginável, um território onde ela nunca pisara. No primeiro impacto, mergulhou no desespero e vivenciou, por um bom tempo, o peso de ser uma mulher atormentada. Consumida pelo ódio e pela intolerância, passou a provocar o marido com atitudes amesquinhadas, descobrindo em si a mediocridade. Absorta nesta amargura, passava os dias lamentando o seu vazio. O afastamento inevitável do marido trouxe-lhe uma nova revelação: o sabor da solidão. Tornou-se fonte de fofocas e, hostilizada, refugiou-se no manto da vitimização. Afastou-se do mundo, desfazendo suas redes de apoio, seus fios de afeto e sustentação. Fragilizada, lamentava a falta de força para se reerguer. Querendo "sair por cima", recusava a humildade de, simplesmente, "sair" e caminhar para fora do abismo. A lamentação virou o seu vício de linguagem. Até Deus entrou no tribunal de suas dores: amaldiçoava o castigo divinizado de uma punição que ela mesma alimentava. A punição era sua arma, mas, a cada disparo, era em si que o tiro acertava.
Dolores foi tornando tantas coisa dolorosas...e nenhuma delas lhe trouxe paz. Cega pela própria dor, não enxergava os ensinamentos da vida, até que a graça de um sonho veio resgatá-la.
Sonhou que habitava uma caverna escura chamada "Buraco da Lamentação". Sua cegueira só lhe deixava ver a sombra. Naquele isolamento, recebeu a visita de uma fada que lhe ofereceu um frasco de colírio sagrado: cada gota devolveria um pedaço da sua visão. Mas a cura exigia uma troca: para receber a luz de uma gota, Dolores teria de entregar um pedaço de suas trevas. Sedenta de cura, aceitou. Junto a um rio de águas correntes, a fada pediu-lhe que soltasse na correnteza o primeiro pedaço de sua raiva. Ao vê-lo ir embora, Dolores recebeu a primeira gota e o mundo se entreabriu em clareza. Encantada, entregou em seguida um pedaço do seu orgulho e recebeu mais luz. Em trocas sucessivas, lançou às águas a arrogância, a intolerância, a vaidade e a mágoa. Quanto mais desapegava da escuridão, mais o seu olhar se banhava de paz.
Decidiu, então, não guardar mais nada de sombrio. Lançou ao rio a totalidade do que a apequenava. As águas limpas levaram embora tudo que a cegava para o mundo. De olhos curados e alma leve, Dolores finalmente agradeceu e tornou-se uma pessoa grata.
Antes da fada partir, perguntou-lhe o nome do remédio. A fada entregou-lhe o frasco e sugeriu que se medicasse sem moderação. Ao ler o rótulo, Dolores despertou do sonho pronunciando o nome e a chave de sua libertação: "Perdão".
Ao acordar, deixou para trás tudo que não lhe cabia. De roupagem nova, se despindo de todas as distorções de si, fez uma "senhora descoberta": a beleza e a leveza de ser ela mesma. Deste remédio, Dolores nunca mais se separou. Afinal, como dizia a bula, é um bálsamo sem contraindicações que cura as dores despertando um novo recomeço.
segunda-feira, 2 de abril de 2012
SONHOS
A GESTAÇÃO DE UMA POSSIBILIDADE SÓ É PASSÍVEL DE ACONTECER NO VENTRE DE UM SONHADOR”
SONHOS
Refeição que traz o sabor dos nossos mais profundos desejos. Tem o poder de acalmar, preparar e sintonizar a alma com o ideal que se busca. As mentes bem nutridas por esse alimento jamais desistem; lutam. Aliado a outros ingredientes, ele desperta a força necessária para degustar projetos de vida."
O preço mais alto que se paga é o de ser ridicularizado por pessoas que dizem ter os pés no chão.
VIR A SER
Vigie para não passar do ponto e assista a maravilhosa transformação de seus sonhos. Uma simples massa se transformará numa realidade saborosa que poderá ser degustada por você e caso deseje, oferecida a todos aqueles que com os ditos pés no chão não puseram a mão na massa.
O SONHO DA SEMENTINHA
Lá estava ela, dentro de um túnel escuro, sem saber ao certo quem era. Carregava consigo o dom de ser uma flor, mas não conseguia se afirmar como tal. Contida em um sonho que jamais desabrochava, pôs-se a chorar, sendo repreendida por dona minhoca que, passando por ali, a censurou com aspereza:
— Que coisa incômoda é esta, tirando a tranquilidade do meu lar?
A doce e suposta flor, querendo se desculpar e desabafar sua dor, sussurrou baixinho no ouvido da dona minhoca:
— Desculpe-me, eu não queria tirar-lhe o sossego. Sou apenas uma linda flor que se sente acuada e presa.
Dona minhoca deu uma estridente gargalhada e pontuou com ironia:
— Vê se te enxerga! Será que além de incômoda és cega também? Você não passa de uma coisa qualquer. Flores não vivem aqui; vivem em jardins. Você não tem a forma, o aroma e a beleza de uma flor.
A sementinha, indignada com a descortesia da minhoca, perguntou:
— Como posso me enxergar neste mundo tão escuro e apertado? Não há espelhos por aqui.
— Eu posso ser o seu espelho, basta que você acredite naquilo que eu lhe disser. Neste mundo tão escuro é difícil a gente se perceber. Precisamos do outro para nos dizer quem somos.
— Mas você me disse que sou uma coisa qualquer, e eu não me sinto assim. Sei que sou uma flor ou carrego, no mínimo, o dom de sê-la.
— Se você quer acreditar na sua fantasia, vai acabar maluca um dia — repreendeu a minhoca, abanando a cabeça em sinal de reprovação e saindo logo em seguida, sem dar muita atenção àquela coisinha que se julgava uma flor.
A sementinha confusa permaneceu ali, quietinha, se questionando:
— Será que sou maluca? Será que não é flor o que percebo e sinto em mim?
Perdida em seus pensamentos, foi desperta por uma formiga que começou a tocá-la de uma forma diferente. Sem saber das intenções da visitante, protestou em voz alta:
— Ei, o que você está fazendo comigo? Para onde está me levando? Me largue!
A formiga, incomodada com tal protesto, ordenou com firmeza e sem educação:
— Cale a boca! De hoje em diante você será o meu alimento. Espero que preste, pelo menos, para isto.
— Mas eu não sou alimento de ninguém. Eu sou uma flor! Solte-me, por favor!
A formiga não deu a mínima e continuou sua caminhada carregando-a nas costas. Apertada e presa como sempre, só que desta vez sob as garras da formiga, a semente foi tomada por um medo intenso. Fechou os olhos, tentando negar e não ver esta nova condição de aprisionamento que a formiga lhe impusera.
Foi levada durante muito tempo para algum lugar desconhecido. Repentinamente, sem saber como, sentiu um certo alívio. Resolveu abrir os olhos e se deparou com uma grande surpresa: um mundo inédito e luminoso se descortinou. Mesmo querendo manter seus olhos abertos, a claridade lhe incomodava e ela os fechava involuntariamente. Numa tentativa de se adaptar à nova situação, vivendo o incômodo e o fascínio em concomitância, perguntou ansiosamente à formiga:
— Que lugar é este?
Sem querer perder seu tempo com explicações, a formiga continuou a sua caminhada sem dar nenhuma resposta à sementinha. No entanto, foi vencida pela insistência daquela florzinha contida numa semente, que lhe perguntava repetidamente:
— Por favor, me diga que lugar é este!
— Você precisa me deixar trabalhar sossegada! — repreendeu a formiga.
— E você precisa me responder que lugar é este! — insistiu a sementinha.
— Isto é um jardim deserto e abandonado — respondeu, finalmente, a formiga impaciente.
— Talvez aqui seja o meu lugar. Sou uma flor e preciso de um jardim. Pode me deixar aqui, por favor?
— Você quer ficar num lugar que nem mesmo existe? — ironizou a formiga.
— Como assim? Como pode existir um lugar que não existe? Se ele está aqui, é porque existe — ponderou a sementinha.
— Jardim deserto e abandonado é simplesmente um lugar que não existe para ninguém — completou a formiga.
Neste momento, a sementinha foi tomada por uma grande angústia. Aquelas palavras tocaram no seu mais íntimo ser. Identificou-se com aquele jardim, pois era também uma flor que não existia para ninguém. Precisava tanto de um jardim e ele estava ali, deserto. Talvez aquele jardim também precisasse de uma flor para viver o seu mais nobre sonho, e ela, florzinha ainda contida, estava bem ali, assim como ele, abandonada e deserta. Era necessário que um começasse a existir para o outro, fazendo desabrochar o sonho contido. Desesperada, suplicou à formiga:
— Me deixe aqui para que eu possa me exercer neste jardim!
A formiga não dava a mínima e continuava seu trabalho de carregar o seu precioso alimento. Este era um dos trabalhos mais importantes na comunidade das formigas. Quanto mais a sementinha se debatia em súplicas, mais apertada ia ficando nas garras daquela formiga ensurdecida. Repleta de inquietação, a sementinha começou a repetir incessantemente a mesma frase numa tentativa de vencer a formiga pelo cansaço:
— Você nunca para para me ouvir. Para que tanta pressa?
Vencida pela insistência, a formiga respondeu irritada:
— Como você é chata! Não vê que não posso parar? A minha vida é trabalhar e nada mais. Não tenho tempo para bate-papos.
— Poxa, viver só de trabalho deve ser muito ruim. Eu sonho com uma vida melhor, que não se limite a uma coisa só.
— Pois saiba que o meu trabalho é a minha vida e é ele que transformará você no meu alimento. Sendo assim, você não terá tempo para viver os seus sonhos. Aquiete-se e não perca tempo com eles.
— Sonhar não é perda de tempo. Sonhar é o tempo e o espaço que abriga uma vida ainda melhor — rebateu a sementinha com sabedoria.
A formiga foi ficando curiosa com aquele jeito esquisito de a semente pensar sobre a vida. Sem perceber, foi estendendo o assunto numa tentativa de desvendar a curiosidade acerca de um mundo totalmente desconhecido vivenciado por aquele ser.
— Só o trabalho tem o poder de melhorar a nossa vida — afirmou a formiga.
— Mas, sem o sonho, o trabalho perde o sentido. O trabalho existe para ajudar a realizar os nossos sonhos — completou a sementinha.
— Nunca sonhei. Não tenho tempo para isto. O meu lema é: “Trabalhar para sobreviver!”.
— Acho que somos muito diferentes. Enquanto você pensa em sobreviver, eu penso em viver plenamente.
— O que é viver plenamente? — perguntou a formiga cheia de curiosidade.
Aproveitando a curiosidade da formiga e querendo tirar proveito da situação, a sementinha falou com sabedoria:
— Eu não posso dizer-lhe o que vem a ser viver plenamente. Eu posso, apenas, mostrar-lhe. Para isto, você terá que me largar neste jardim que você julga não existir, para que o sonho de ser uma flor possa germinar e, finalmente, desabrochar uma vida plena.
A formiga, querendo se manter no controle e no poder, expressou o seu autoritarismo:
— Você depende de mim! Se eu levá-la, mato uma flor e um sonho.
— E eu não poderei matar a sua curiosidade. Você passaria o resto da sua vida pensando no que vem a ser uma vida plena — instigou a sementinha.
— Ah! Eu pensando? Nunca me imaginei assim. Não tenho tempo para pensar. Como já lhe disse, a minha vida é só trabalhar. Daqui a pouco nem me lembro mais que você existe.
— Mas isto é muito sério! O trabalho roubou suas lembranças? — perguntou a sementinha.
— Para que servem as lembranças?
— Para viver o prazer de recordar um sonho que pôde ser vivido. A recordação aumenta a nossa fé. Lembrando do nosso maravilhoso prazer de realização, acreditamos ainda mais na possibilidade de viver todos os outros sonhos que carregamos.
— Pois eu não carrego sonho algum, carrego apenas você nas minhas garras. Vamos parar com esta conversa, pois você está ficando pesada e eu cada vez mais cansada.
— Se você soubesse sonhar, se cansaria menos; e, cansando-se menos, tudo ao seu redor ficaria mais leve — falou com ternura a sementinha acuada, tentando estimular na formiga outra forma de ser.
— Como é que o sonho pode descansar alguém?
— Na verdade, não somos nós, apenas, que carregamos um sonho; o sonho também nos carrega. No colo do sonho a gente relaxa e acredita que tudo vai dar certo. Acreditando que tudo vai dar certo, a gente se sente mais segura e forte. Munida de força, tudo fica leve, fácil de levar.
Sentindo inveja da sabedoria da flor, a formiga tentou desmanchar toda a esperança que brilhava em seu semblante:
— Eu não deixarei você viver o seu sonho e acabarei, de uma vez por todas, com esta filosofia barata.
— Eu acredito que posso ser uma flor. A sua amargura jamais apagará a minha esperança. O meu sonho vai arrancar-me de suas garras e carregar-me em seu colo acolhedor.
— Você é muito ingênua! Como isto poderia acontecer? Você está bem presa ao meu desejo e decidi não libertar você — falou com escárnio a formiga autoritária.
— Não sei ainda como poderei me libertar de sua prepotência e autoritarismo, pois existem infinitas formas. Sei, apenas, que será escolhida aquela que melhor se adequar ao meu aprendizado e desenvolvimento.
O cansaço foi tomando conta da formiga. Exausta, tentou impor limites àquele diálogo que parecia fragilizá-la:
— Cale a boca agora mesmo! Cada vez que você intensifica seus sonhos, fica mais pesada. Tenho muito que caminhar e está ficando cada vez mais difícil carregá-la.
— Eu não vou me calar e você não irá conseguir me carregar, pois meus sonhos são leves para mim, no entanto, pesados demais para quem não consegue construir os seus.
— O meu trabalho é a minha única construção — rebateu a formiga com moralismo.
— O trabalho dignifica o ser, mas cuidado com ele, pois além de libertar tem, também, o poder de aprisionar e matar.
— Pare com esta sua tagarelice! Você já está me matando de cansaço com este seu discurso tolo.
— Não sou eu que estou lhe matando de cansaço. O que te mata é esta forma mecânica de trabalhar. Por que você não para e descansa um pouco?
Neste instante, a formiga olhou para o céu e percebeu que algumas nuvens negras anunciavam o presságio de uma tempestade. Tentou apressar ainda mais o passo e foi, novamente, interrompida pela sementinha:
— Você não vai aguentar. Relaxe!
— Não posso perder tempo. Tenho muito que fazer.
— Você não estará perdendo tempo; pelo contrário, estará ganhando tempo de relaxamento e descanso. Relaxar é um trabalho de renovação.
— Este tipo de trabalho não me interessa! — refutou, desprezando os conselhos da flor.
Imersa em sua teimosia e rigidez, a formiga continuou caminhando e apressando cada vez mais o seu passo. À medida que andava, foi, gradativamente, se tornando impossível carregar uma semente que parecia, inicialmente, tão leve. Sem entender o que estava acontecendo, foi obrigada a parar, pois o seu corpo foi perdendo os movimentos e mal podia respirar. Desabou sobre o chão, mas continuou apegada à semente, mantendo-a agarrada às suas garras.
— Você não irá me vencer! Eu não te solto por nada neste mundo. Mesmo que eu morra, continuará atrelada a mim — finalizou a formiga, irrompendo num sono profundo semelhante à morte.
Vencida pelo sono, sem a consciência de estar viva ou morta, a formiga sonhou pela primeira vez. Sonhou com a chuva caindo e penetrando pelos poros de uma terra seca e sedenta de água. Viu o sorriso da terra em cada gole de água que a chuva fartamente lhe oferecia, matando a sua sede e deixando-a macia e fofinha. Fertilizada pela umidade, viu aquela terra abraçando cada semente presente em seu seio. Assistiu à maravilhosa transformação das sementes. Presenciou o nascimento de um belo jardim.
Emocionou-se pela primeira vez! Nunca vira espetáculo mais belo e emocionante. Conquistou a bênção de enxergar e sentir plenamente. No entanto, o júbilo da transformação só não acontecia para uma semente presa nas garras de um ser horrível, que inerte a sufocava. Aquele ser transformou o seu sonho num pesadelo. Queria liquidá-lo, mas não sabia como. Incomodada, não se satisfazia em ser apenas uma espectadora de seu sonho; precisava entrar dentro dele e salvar a semente, mas não tinha como entrar no sonho. Naquele momento, fora-lhe concedido apenas o direito de assisti-lo. Sem poder viver ativamente aquele sonho, sentiu-se impotente e tristonha. Impotente para agir, identificou-se com a semente aprisionada. Identificando-se, foi desenvolvendo a empatia dentro de si.
De repente, surgiu uma esperança. Viu uma formiga trafegando, cabisbaixa, pelo cenário onírico, carregando algo com um apego desenfreado. Pensou que, talvez, ela pudesse salvar aquela semente. Tentou influenciá-la de todas as formas, mas ela parecia não ter ouvidos nem olhos. Não percebia nada ao seu redor e aparentava estar totalmente aprisionada em si mesma. Teve raiva e pena dela, mas nada podia fazer. Podia apenas assistir à tragédia daquela formiga que não percebia as coisas belas. A sua impotência fazia um desejo ardente de mudança ir crescendo dentro de si.
Foi então que começou a perceber que o seu desejo semeava a semente de um sonho. Passou, assim, a ter muitos sonhos. Viveu por um bom tempo o prazer de sonhar; precisava agora acordar para realizar tudo que havia construído em sonho. Quem haveria de acordá-la?
Acordou. Acordou como todos nós acordamos depois de uma noite bem dormida. Acordou relaxada e descansada. Sem saber quanto tempo dormira, foi despertada por uma voz suave que lhe ordenou com doçura:
— Levante, acho que já dormiu o suficiente.
— Quem é você? — perguntou a formiga.
— Eu sou a transformação de um sonho — respondeu uma bela flor que acolhia a formiga sobre suas pétalas, protegendo-a.
— Você quer me dizer com isto que és uma realidade?
— Isto mesmo, sou a flor que realizou o sonho de uma sementinha.
— Você é uma bela flor! — afirmou a formiga, admirando-a.
— Fico feliz de vê-la conseguindo me enxergar assim.
— Mas por quê? — perguntou a formiga, confusa.
— Por causa de uma longa história — respondeu a flor, olhando no fundo dos olhos da formiga.
— Que história?
— Você quer mesmo saber?
— Se você quiser me contar...
— É uma longa história. Você teria tempo para ouvi-la? — perguntou a flor, querendo checar a disponibilidade da formiga.
— Não sei como, mas aprendi, de alguma forma, que o tempo é a gente que faz. Sendo assim, sou toda ouvidos.
A bela flor deu um sorriso, exalando um perfume relaxante e tranquilizador. Com muita ternura, contou para a formiga uma história mais ou menos assim:
— Era uma vez uma sementinha que pensava ser uma formiga maldosa. Com medo de desabrochar, ela não se permitia sonhar, pois sabia que os sonhos fazem desabrochar o nosso mais íntimo ser. Para se proteger dos sonhos, criou uma armadura que a deixava dura, muito dura, difícil de rachar. O sentimento mais forte que carregava dentro de si era a inveja, pois o que mais temia era assistir à realização dos sonhos de qualquer ser que encontrasse em seu caminho. Tentava destruir todas as sementes que carregavam um sonho, aprisionando-as em suas garras. Fazia disto o seu trabalho e alimentava-se da tristeza do outro. Não percebia que, quanto mais se alimentava de tristezas, mais triste e amarga ficava.
Um dia, entretanto, encontrou e tentou aprisionar uma semente que acreditava ser uma flor. Ela acreditava tanto que ninguém conseguia abalar a sua fé. Ao contrário da formiga maldosa, ela se alimentava de esperança, otimismo e amor. Sabia que nenhuma garra malvada seria capaz de carregar por muito tempo estes sentimentos, e foi o que aconteceu. A formiga sucumbiu. No entanto, mesmo vencida, não largava a semente. Quando tudo parecia estar perdido, a bênção divina caiu sobre a semente boa e sobre a semente má em forma de chuva.
A água abençoada limpou os maus e fertilizou os bons sentimentos. À medida que este milagre acontecia, as garras da semente que se julgava uma formiga má foram relaxando, e um lindo broto nasceu da boa semente que nunca duvidou ser uma flor. Este broto foi crescendo lentamente e se transformando numa linda flor, que alimentava com seu néctar e ninava todos os dias uma sementinha que, em forma de formiga, precisava sonhar um sonho bom e, finalmente, acordar do pesadelo de não conseguir sonhar ser ela mesma