sábado, 5 de abril de 2014

CRIATIVIDADE

“CRIE ATIVIDADE E LIBERTE-SE DO TÉDIO”



CRIATIVIDADE


            Criatividade é uma iguaria inédita, que você terá o prazer de preparar pela primeira vez. Se eu ensiná-lo, não estarei permitindo a você criar a sua própria receita. E tudo que é próprio da gente, nos faz sentir mais gente, grande gente. De gente grande nascem grandes ideias; das grandes ideias, grandes transformações; das grandes transformações, um mundo melhor para se viver.



CUSTO



            O preço maior a ser pago é o de ter que enfrentar a cara feia e críticas daquelas pessoas que não agradaram da sua receita. No entanto, o mais importante é agradar primeiro o seu paladar. Se isto acontecer, você só tem a lucrar pois,  além de satisfazer a si mesmo, estará também satisfazendo a todos que possuem um paladar semelhante ao seu.


TIRA GOSTO



MELHOR IDÉIA


INSPIRO
O DESEJO CÓSMICO,
EXPIRO
IDÉIAS NOVAS.
COMO PARTE INTEGRANTE
DESTE ORGANISMO CÓSMICO,
RESPIRO,
EVITO A ANÓXIA
QUE PARALIZA O POTENCIAL
DE UM UNIVERSO CHAMADO VIDA.
RESPIRO PROFUNDAMENTE,
OXIGENANDO COM ENERGIA CRIATIVA
TODO O MEU SER,
QUE, EM SEU ÚLTIMO SUSPIRO,
HÁ DE LANÇAR A IDÉIA
DE QUE VIVER
É A MELHOR DELAS.


INGREDIENTES


Muita confiança
Bastante ousadia


PREPARO



            Agora é com você. Eu bem que gostaria de provar da sua receita, pois adoro o sabor da confiança e da ousadia. Sei que estes ingredientes são estruturais para a composição de uma infinidade de pratos maravilhosos. Acho difícil esta mistura dar errada. Daí, boa sorte e bom apetite! Que o mundo possa provar de sua confiança e de sua ousadia.
            Esta receita eu não dito, eu apenas aguardo.



SOBREMESA



A DOR É SER SOLITÁRIO


            Houve uma época em que cada parte do ser humano vivia solitária a vagar pelo mundo, sem saber a sua razão de ser. O ser humano ainda não existia como um ser completo. Existiam apenas partes desintegradas e desconectadas, insatisfeitas com a sua insignificante condição existencial.
            Os olhos viviam olhando e admirando o mundo ao seu redor, mas mesmo enxergando tantos estímulos, viviam desestimulados com a sensação incômoda de inutilidade. Os ouvidos ouviam as mais belas melodias do cantarolar dos pássaros, do barulho das cachoeiras, do ruído do vento, enfim todos os mais diferenciados sons à sua volta. No entanto, mesmo envolto a tantos estímulos sonoros, sentia-se surdo por não conseguir dar significação a tudo que ouvia. O nariz inalava o aroma delicioso de todas as flores, inspirava os mais variados cheiros, mas ainda assim sentia-se incompleto e vazio. A boca experimentava o sabor de cada alimento que a natureza oferecia, beijava cada ser que a envolvia; no entanto, sentia fome de algo que não sabia o que. Os braços abraçavam todos os seres, mas sentiam-se soltos demais. As mãos tudo pegavam, mas não sabiam o que fazer com a matéria que apalpavam. Os órgãos sexuais, sempre estimulados, não sabiam o que fazer com tanto desejo preso e contido. As pernas caminhavam com dificuldade, sem saber que direção seguir. Os pés cheios de tropeços tentavam, em vão, pisar com firmeza no chão. O tronco, vazio de órgãos, sentia-se vazio sem ter o que abrigar. A cabeça vazia não pensava em nada. O cérebro pensava em tudo, mas, ainda assim, sentia-se um tolo, pois não encontrava razão para tanto pensamento. O coração, já cansado de tanto bater, encontrava mais razão para parar do que para continuar batendo. O pulmão se enchia de ar, mas vivia sufocado pela angústia da solidão. O pescoço girava para um lado e para outro parecendo uma piorra desgovernada. Os rins filtravam o tédio. O estômago vazio vivia roncando. O fígado, irritado com sua solidão, vivia se intoxicando. O pâncreas desenvolveu uma pancrealgia que o fazia doer por não saber a sua razão de ser. Os intestinos, sem ter o que prender ou soltar, se movimentavam num peristaltismo desgovernado. Enfim, cada órgão, que hoje trabalha harmonicamente, foi naquele momento contraindo a dor de ser desintegrado. Cada parte angustiada suplicava, em oração, seu lamento e seu pedido de socorro:
— A dor é ser solitário, desintegrado e desunido!
            Diante deste lamento doído nasceu a sentença “A DOR É SER” criando uma doença que urgia ser tratada. Ouvindo esta oração, Deus se viu diante de um problema que exigia uma rápida solução. Sabia que o melhor remédio para este problema só poderia ser oferecido pela sua valiosa assistente, chamada Criatividade. Sendo assim, o eco divino ordenou:
— Criatividade, vá ao mundo e crie uma atividade que faça sentido para aqueles seres.
            Atendendo a ordem divina, Criatividade chegou diante de cada parte como se estivesse diante de um grande quebra-cabeça e pensou:
— O que vou fazer com tudo isto? Cada um com um problema diferente...
            Pensativa, resolveu reverter a ordem do problema. Sabia que, para criar, precisava eliminar o pessimismo e pensar em soluções. Iluminada por esta nova ideia se corrigiu-se dizendo:
— Melhor afirmar — cada um com uma solução diferente! Com tantas soluções e diferenças, talvez seja interessante uni-los. O que vai dar esta união?
            Criatividade foi juntando as peças soltas pelo mundo sem saber ao certo no que daria os resultados daquela união. Sabia apenas que toda criação demandava ousadia. Suas obras sempre foram, a princípio, um grande mistério. Não foi diferente com esta. Sua ousadia resultou na formação de um grande mistério chamado homem.
Hoje, quando Deus olha para esta ousada obra de sua assistente Criatividade, fica às vezes confuso, sem saber se tudo isto resultou num grande problema ou numa grande solução para o mundo. Sabe apenas que, sendo filho da iluminada Criatividade, carrega com certeza seu gene da transformação.
            Se você for doutor e achar que esta obra anda meio adoentada, não cometa o erro de tentar tratar isoladamente o que sempre desejou funcionar junto para, enfim, conquistar o sentido de estar vivo. Seja, no mínimo, CRIATIVO.









quinta-feira, 6 de março de 2014

INFINITO

O INFINITO NÃO É APENAS UM PROFUNDO BURACO NEGRO QUE ABRIGA OS MISTÉRIOS, MAS TAMBÉM O ESPAÇO ILIMITADO DE LUZ ONDE RESIDE AS POSSIBILIDADES”



INFINITO



Trata-se de um prato complicado, pois parece nunca ficar pronto. Parece ser o mais complexo de todos, mas na verdade é o mais simples. Por ser simples, torna-se o mais complicado para aqueles cozinheiros que exigem terminar tudo que começam. É saboroso para os eu degustam processo e indigesto para os esfomeados de resultados.



CUSTO


Pagam-se o preço da frustração para aqueles que concentram a atenção apenas no produto final da receita; e o preço da satisfação para quem concentra a atenção na execução de cada fase, vivendo o inusitado prazer de descobrir a magia contida em cada gesto e em cada ingrediente que, combinados, produzem transformações constantes, interessantes e infinitas.



TIRA GOSTO



FINAL MENTE


QUANDO CHEGUEI AO FIM
FINALMENTE CONCLUÍ
QUE NADA TERMINA
TERMINANDO APENAS
A MINHA CRENÇA
NO TÉRMINO DAS COISAS.


QUANDO CHEGUEI AO FIM
ADENTREI-ME NUM NOVO COMEÇO
QUE DE COMEÇO NADA TINHA,
APENAS CONTINUIDADE,
ACENTUANDO CONTINUAMENTE
AS MINHAS INFINITAS INDAGAÇÕES.


QUANDO CHEGUEI AO FIM,
VI O FIM AGARRADO AO COMEÇO,
O COMEÇO AGARRADO AO FIM
E, SEM SABER QUEM ERA UM E OUTRO,
AGARREI-ME AO INFINITO
SOLTANDO-ME FINALMENTE.


QUANDO CHEGUEI AO FIM
DESCOBRI,
QUE O FINAL MENTE
RESTANDO,
CONTÍNUA MENTE,
INFINITA MENTE.



INGREDIENTES



Consciência de eternidade



MODO DE PREPARAR


       
        Despeje no caldeirão de sua existência, em meio o fluído da vida, uma porção de consciência de eternidade e vá mexendo, mexendo, mexendo, continuadamente. Vá observando as transformações que ocorrerão ao longo deste preparo e vá saboreando, ao longo de todo o processo, o sabor de cada transformação ocorrida. A grande magia desta porção é que durante o seu preparo ela estará sempre pronta para ser saboreada com prazer; e à medida que seu conteúdo vai sendo mexido,  adquirindo prontidão para ser um pouco mais aprimorada. Diante desta diversidade de sabores encontrados, você jamais conseguirá se apegar a um só, criando uma grande disposição para mexer e remexer incessantemente. Nesta ação constante, descobrirá que uma receita sempre dá origem à outra, evitando que seu o paladar viva o tédio de limitar-se apenas a um sabor.
        Mexer continuadamente evita que o caldo fluído da vida se empelote ou endureça agarrando no fundo da panela. A sua disposição para remexer permite que novos sabores possam ser originados a partir de um antigo. Isto aumenta a possibilidade de tornar-se uma pessoa cada vez mais nutrida por experiências saborosas. Prove todas elas e bom apetite!



SOBREMESA



A MATEMÁTICA DOS SENTIMENTOS


         Em algum lugar, na matriz da vida, viveu por nove meses, tempo relativamente curto, um ser formado graças à junção de outros dois que, separados estariam fadados à morte e juntos ao crescimento. Unidos, tornaram-se um só revertendo a exata operação matemática 1+ 1 = 2  para 1+ 1 = 1. Nesta relatividade matemática e num movimento constante de expansão e evolução, instaurou-se neste ser a consciência de conjunto. Ser um conjunto vazio, unitário, finito ou infinito? Eis a questão a ser vivida e compreendida pelo novo ser em desenvolvimento contínuo. Num primeiro momento, preferiu não pensar nisto. O ventre acolhedor onde vivia lhe parecia perfeito. Desta forma, qual a razão para quebrar a cabeça? A sensação de completude, a consciência de união e de expansão sempre presente, geravam o combustível para continuar a sua jornada por uma trilha chamada Vida, cujo princípio se baseava inicialmente num nirvana total, caracterizado por uma operação cuja adição de prazeres multiplicava o encanto de viver. No entanto, repentinamente, o mundo se transformou,  impondo a dolorosa operação de subtração. Foi jogado num universo novo onde experimentou pela primeira vez o sofrimento e a dor. Sentiu-se dividido. A dor chegou lhe arrancando algo que, ilusoriamente, pensava fazer parte de si: o mundo acolhedor que vivia.
         Sendo parido, a sensação de completude e plenitude dissipou-se. Teve um desejo enorme de resolver uma operação irreversível voltando ao tempo; no entanto, este parecia determinado a seguir sempre em frente. Começou a perceber, lentamente, que era parte de um mundo e não o contrário, ou seja, que não era o  mundo parte de si. O poder de sentir-se auto-suficiente se transformou em fragilidade. A suficiência deixou de ser um atributo seu, deveria, agora, busca-la em algum lugar deste novo mundo onde fora jogado sem a sua vontade. Percebeu que a sua vontade não era tudo, que as coisas aconteciam independente dela.
         Perdido, cheio de dor e fragilidade, foi caminhando por um bom tempo pela estrada chamada Vida, onde deparou na primeira encruzilhada, com uma entidade nova e interessante. Perguntou o seu nome e ela respondeu:
— Eu me chamo Ilusão.
Surpreso com a beleza da mesma, empreendeu, curioso, uma nova pergunta:
— Você está a serviço de quem?
— Estou a serviço de todos. Respondeu Ilusão.
— A meu serviço também?
— A serviço de todos que não aceitam esta estrada tortuosa chamada Vida tal qual ela é. Esclareceu Ilusão.
— Me explique melhor.
— Aos seres inconformados, poderei trazer de volta tudo que ficou perdido. Elucidou Ilusão.
         Ditas estas palavras, apareceu um outro ser em forma de luz, com um semblante confortador, que o pegou no colo e o embalou tranquilamente. Sem saber ao certo o que estava acontecendo, perguntou confuso:
— E você, quem é?
         Não obteve resposta alguma. Aquele ser se limitava serenamente a embalá-lo. A sensação de conforto experimentada naquele momento mágico lhe trouxe a lembrança do mundo perdido onde tudo parecia ser perfeito e completo. Ilusão, querendo lhe confortar ainda mais lhe disse:
— O ser que te embala se chama Esperança. Ela o confortará até você se encontrar com tudo que foi perdido e se sentir inteiro novamente.
— Quando eu resgatar o que perdi ela me deixará? Perguntou receoso.
— Ela não o deixará. Você é que não precisará mais dela, pois ao encontrar seu elo perdido será novamente auto-suficiente e não sentirá mais a dor da necessidade e do desejo. Garantiu-lhe a Ilusão.
— Seria maravilhoso, pois é muito difícil conviver com a Necessidade e com o Desejo. Eles estão sempre esfomeados, me solicitando coisas que nem sempre  tenho para lhes oferecer. Nesta cobrança incessante, acabei tendo que conhecer uma tal de Frustração. Não fui com a cara dela. Sinto-me mal perto dela, mas ela parece não se mancar e permanece presente, mesmo quando me esforço ao máximo para afastá-la.
Ilusão, rapidamente, lhe propôs uma solução para este desconforto:
— Se me levares sempre contigo, jamais terá que suportar a chata da Frustração. Nós duas não combinamos. Ela jamais se aproximará de você ao perceber a minha presença.
         Diante deste convite irrecusável de não ter mais que suportar a inconveniente Frustração, o frágil ser deu as mãos para Ilusão e continuou a sua caminhada. Quanto mais apertava a sua mão, mais protegido se sentia. A cada passo que dava, Ilusão lhe assegurava que na próxima encruzilhada encontraria tudo que fôra perdido. Sem perceber, o tempo passou rapidamente, quando inesperadamente deparou-se com um ser bem parecido consigo. Foi um encontro emocionante. Os dois se entreolharam. Que estranha sensação! Eram parecidos e diferentes ao mesmo tempo. Conseguiram, com reciprocidade, ver no outro o saudoso mundo perdido e tudo aquilo que não mais lhes pertencia parecia estar no outro. Perplexos se indagaram:
— Você tem o que preciso. Como posso resgatar tudo que vejo em você?
Satisfeita, Ilusão sussurrou-lhes ao ouvido:
— Prometi-lhes o resgate de tudo que foi perdido. Aqui está o elo perdido, a parte que lhes falta.  Apropriem-se dela e estarão definitivamente completos e em condições de viverem com a plena e eterna Felicidade. Partirei, mas deixarei com vocês a minha mais perfeita obra. Enquanto estiverem acompanhados por ela, jamais se sentirão frágeis ou tristes.
         Naquele momento foi concebida a união e a fusão daqueles dois seres que pareciam se completar. Juntos, pareciam ser um só todo indivisível. Iniciou-se neste momento a gestação de um conjunto unitário e a intrigante operação matemática 1 + 1 = 1, possibilitando à Ilusão parir, orgulhosamente, a maravilhosa obra que serviria de companhia para os mesmos. Ficaram surpresos e alucinados com o nascimento de uma nova obra que se exprimia através de uma onda de calor que parecia um fogo a queimar todas as insatisfações, cuja combustão se transformava em prazer. Querendo conhecê-la melhor, perguntaram rapidamente a sua identidade e obtiveram a seguinte resposta:
— Meu nome verdadeiro é Paixão, mas as pessoas gostam mesmo de me chamar de Amor. Amor passou a ser o apelido que encarnei e chego a me esquecer de quem sou realmente.
         Aquecidos pelo calor da Paixão, sentiam-se cada vez mais unidos e completos. Sem saber ao certo como identificar e nomear aquele novo ser que os acolhia, perguntaram:
— Como você gostaria de ser chamada?
— Depende apenas de vocês. Se me chamarem de Amor se sentir-se-ão mais seguros. Respondeu com astúcia, a Paixão.
— Assim seja! Você é o amor que nos acompanhará para sempre. Juntos, seremos uma fortaleza. Encontraremos a Felicidade e nada neste mundo poderá nos entristecer. Queremos apenas viver esta plenitude. Encontramos a parte perdida, não há nada que possa nos separar. Somos perfeitos um para o outro. Falaram, entusiasmados, os dois seres entorpecidos pela paixão.
         Viveram assim por um bom tempo, viciados um no outro. Qualquer separação, mínima que fosse, gerava um desconforto semelhante à síndrome de abstinência experimentada por usuários de drogas. Diante de qualquer desconforto, tratavam de se fundirem rapidamente e a dor desaparecia. Isto aumentava cada vez mais a dependência e a certeza de quanto um era necessário e a parte fundamental do outro. Eles se bastavam. O mundo ao redor já não era tão importante, pelo contrário, dependendo da situação, chegava a atrapalhar. Não havia espaço para outros integrantes num conjunto unitário. Foi assim que começaram a viver os seus primeiros conflitos. Alienados um no outro a dor desaparecia. “Dizem, inclusive, que os alienados sofrem menos, talvez por estarem fundidos numa coisa só”. Quando dirigiam a mínima atenção ao redor, a dor voltava. Quanto maior a atenção às coisas de fora, maior o sofrimento. Sendo assim, tornou-se necessário formar um pacto que pudesse evitar esta dor. Combinaram:
— Olharemos apenas um para o outro e seremos a única coisa que realmente dá sentido à vida. Nada poderá ser mais importante ou mais interessante do que nós mesmos. Nos bastamos!
Apesar de todos os esforços, apareceu um novo ser extremamente sedutor , chamada Curiosidade, que passou a ser uma verdadeira tentação. Curiosidade parecia saber pronunciar apenas uma palavra, mas de tanto repeti-la foi criando um novo vício. Parecia uma tentação renunciar aos apelos de Curiosidade que provocava incessantemente:
— Olhe!
         O desejo de olhar era bem maior que o pacto firmado. Sendo assim, mesmo às escondidas,  começaram a dirigir o olhar para outras coisas que não fossem eles mesmos. Começaram a comparar o mundo estabelecido por eles com aquele inusitado mundo novo. O sinal de igualdade se transformou em sinal de diferença. Tinha sempre um ser diferente para desencadear dentro deles uma desconfortável comparação. Diante da mesma, apareceu a Inferioridade que os atormentava dizendo:
— Ele é melhor; você vale menos!
Vivendo este drama e um desgastante complexo de inferioridade, surgiu repentinamente um casal que parecia se dar muito bem. O nome deles era Ciúme e Inveja.  Ciúme dizia com convicção que apenas aqueles que amavam seriam capazes de acolhê-lo em seu coração e que seria sempre uma injustiça qualquer um deles ser feliz sem que o outro pudesse estar por perto para compartilhar esta felicidade. Sendo assim, estabeleceram mais um pacto, impedindo que a Felicidade pudesse visita-los sem que o outro também estivesse presente para recebê-la. E a Inveja, parceira do Ciúme, sempre colaborava com o mesmo, tratando de depreciar e desejar o mal a todos aqueles que tinham tido a aparente sorte de estarem mais feliz do que eles. Acompanhados por estes dois parceiros inseparáveis, começaram a sentir um novo prazer na vida, que residia em contemplar a infelicidade do outro.  Diante deste novo prazer, surgiu um censor chamado Culpa, que os advertia severamente:
— Cuidado com o inferno!
O mundo pareceu repentinamente ter virado de cabeça para baixo. Por mais  esforços que faziam não conseguiam mais vivenciar a plenitude do passado e do tão sonhado paraíso. Acompanhados pela Culpa, sentiam-se mal e não sabiam como afasta-la. Ela se tornava cada vez mais forte, principalmente quando tentavam explorar terrenos proibidos pelo pacto proposto. Seduzidos pela Curiosidade e conscientes de que estavam a todo o momento quebrando-o começaram a pensar na possibilidade do parceiro estar fazendo o mesmo. Numa tentativa de controlar a situação, resolveram firmar um outro acordo, ainda mais rígido e forte:
— De hoje em diante não seremos apenas a parte que completa o outro, tornaremos, também, a sua mais valiosa propriedade privada.
Ter um dono e ser ao mesmo tempo dono de alguém trazia de volta a Ilusão, que lhes dizia enfaticamente:
— Aquilo que é nosso ninguém toma e ninguém tem direito de se apropriar!
         Ilusão era maravilhosa. Chegava sempre no momento certo, com uma solução mágica que afastava as dores e inseguranças. Tinha sempre um discurso perfeito, sabia como ninguém transformar pau em pedra. Estavam salvos, não perderiam mais aquela parte perdida no passado e reencontrada com tanta dificuldade. O controle passou a ser a maior arma que possuíam. Queriam saber de tudo que se passava na vida do outro, não por interesse, mas por mera fiscalização. Dizer, obsessivamente, para si mesmo — “Ele é meu e eu sou dele” — ajudava a manter o controle da situação. No entanto, viver assim trouxe uma visita indesejável chamada Estresse. Não há ninguém que consiga se manter relaxado tendo que controlar o tempo todo uma situação que parece não ter controle. Inicialmente, até suportavam bem o tal do Estresse, pois no fundo era por uma boa causa. A maior demanda era o controle. Sem perceberem, o Estresse foi lentamente lhes minando todas as energias e causando-lhes um novo problema. Já não sentiam tanto prazer ao ficarem juntos.  Nada parecia ter muita graça. O encanto foi substituído pelo enfado. Tornaram-se cansados de si, cansados do outro e da própria vida. Apesar de terem consciência desta nova situação, não deixavam de repisar para si mesmo:
— O Amor vai nos salvar novamente e repelir todas as nossas dores.
         No entanto, o amor parecia ter lhes abandonado.  Antes tivera a capacidade de abrandar-lhes  todas as dores, incutindo em cada um a sensação de plenitude; agora  já não fazia isto mais. Onde estaria o Amor? Antes que pudessem pensar definitivamente que o mesmo os tivesse desamparado, Ilusão apareceu com um discurso novo, que os confortou novamente:
— O Amor suporta tudo, até mesmo as piores dores. Continuem vivendo as dores do controle e se manterão unidos para sempre.
Seguiam os conselhos de Ilusão, mas chegava sempre o momento que este discurso parecia ficar vago e impreciso. Foi num momento destes que conheceram um novo ser chamado Dúvida. Dúvida não esclarecia nada, apenas fazia perguntas e mais perguntas. Quase enlouqueceram diante de tantas indagações. Eram perguntas sem respostas; respostas que geravam novas perguntas. Perderam-se no meio de tantas divagações. Queriam soluções e não a companhia de seres parecidos com a Dúvida, que só traziam insatisfações. Um deles era a Incerteza que parecia um gramofone repetindo sempre:
— Será?
Com tanto será começaram a se perguntar:
— Será que conseguiremos viver assim para sempre?
         Chegaram à conclusão que seria insuportável levar uma vida assim. Deveriam criar soluções e novas estratégias de combate. A vida parecia uma guerra, não poderiam ser combatidos e perder tudo que haviam conquistado. Perder equivaleria a se tornar um conjunto vazio e incompleto. Precisavam adicionar à vida algo novo, mas não sabiam ainda o quê. O desejo ardente de encontrar rapidamente uma solução fez com que se deparassem com uma tal de Ansiedade, que proferia sempre com muita pressa, uma única palavra:
— Rápido!
         Ordenados por Ansiedade, iniciaram uma corrida em alta velocidade pelas estradas da Vida. Nesta correria não prestavam atenção em coisa alguma. Tudo passava como um flash e com a mais intocável superficialidade. Aprofundar era perda de tempo. Sabiam que não podiam perder nada, nem tampouco o precioso tempo. Queriam segurá-lo, mas o tempo não parava. Sentindo-se incapacitados para lidar com o tempo presente, criaram, com a ajuda de uma nova especialista chamada Preocupação, uma ocupação nova. Ocupar-se apenas do futuro talvez enganasse a Frustração, que tentava assola-los no presente. Fixar no pensamento e deixar de agir tornou-se a mais nobre dedicação. De posse de bons pensamentos, conseguiam criar um futuro razoável e a posse de pensamentos negativos gerava um futuro nocivo. Era difícil manter o controle dos pensamentos, mas já estavam acostumados a controlar. Apesar das dificuldades e com excessivo esforço, conseguiam aprisionar os maus pensamentos no porão da mente. Frequentemente, tinham que enfrentar a rebelião dos mesmos, mas já estavam se acostumando com rebeliões e guerras, pois a vida tinha se tornado um grande combate. Sempre atentos a possíveis combates, adotaram uma postura defensiva permanente que gerou gradativamente uma paranoia mútua. Tudo começou a ser percebido como uma ameaça e, sem se darem conta, começaram a se sentir ameaçados um pelo outro. Diante de tantas fantasias ameaçadoras, iniciaram também maciços ataques contra aquele ser que era, anteriormente, o seu mais valioso tesouro. Encontraram através desta conduta bélica um aliado, que dizia sempre ser a mais forte arma para vencer uma guerra. Este aliado se chamava Raiva e tinha uma força tão grande quanto o suposto Amor, que julgavam ter conhecido um dia. Raiva enfatizava colérica:
— Se não quiseres perder é necessário vencer o outro com uma cara bem feia, ameaças, manipulações e punições constantes. As pessoas temem estas armas e recuam. Briguem por tudo que desejam!
         Para não perder a parte conquistada, passaram a adotar a estratégia da Raiva.  Perceberam que era um bom mecanismo de controle. Brigar passou a ser uma forma de comunhão. Aprenderam a comungar discórdias e desavenças. Conseguiam se manter juntos, mas começaram a ter uma sensação de estarem cada vez mais distantes. Viveram isto um bom tempo até que conheceram a Indiferença que, de certa forma, trouxe um certo alívio para tantos conflitos, pressões e controles. Indiferença falava com um ar desanimado:
— Não se ligue nisto! A grande solução na vida é não ligar para mais nada.
         Restava, agora, seguir os conselhos de Indiferença na esperança de afastar o sofrimento. De fato deixaram de sofrer, mas se tornaram seres completamente embotados. Não sentiam mais nada, nem desejos e nem mesmo a tão temida e insuportável frustração. Diante deste novo contexto, a Ilusão reapareceu, os abraçou para o resto de seus dias, emitindo um constante murmúrio:
— Agora vocês encontraram finalmente o paraíso. Nesta total ausência de dor, não há mais nada o que buscar. Eis a plenitude que tanto desejaram!
            O conjunto unitário se transformou em conjunto vazio, dando fim à trágica história de duas vidas completamente diferentes que se julgavam uma só; de dois seres inteiros, que se julgavam uma fração, principalmente uma fração do outro.
             Em algum lugar, um conselho formado por seres muito sábios, que não tiveram lugar nesta história, mas que tentaram  avaliar esta trágica opção de vida, comentavam entre si:
— Por que será que eles não quiseram a minha companhia? Perguntou o Amor.
— Em corações partidos não há espaço para você, que só cabe em corações que, mesmo machucados e doloridos, conseguem se manter inteiros. Respondeu a Felicidade.
— Com isso, você também não pôde se manifestar na vida deles. O máximo que conseguiram foi confundir a euforia com você, assim como confundiram a astuciosa paixão comigo. Ponderou o Amor.
— Foram tantas as guerras e os combates para preservar o que, na verdade, nunca conquistaram, que nunca consegui me aproximar deles. Lamentou a Paz.
— Tudo isso porque se apegaram a tudo que não deveriam se apegar nesta vida. Continuou o Desapego.
— A quê? Perguntaram todos numa só voz.
Sabedoria, como presidente deste conselho, concluiu:
— Não devemos nos apegar a uma única ideia nesta vida, principalmente quando ela nos limita. Na matemática, 1 é igual a 1 (1=1), mas na relativa matemática da vida 1 será sempre diferente de 1. Não há nenhum ser igual ao outro. Esta mesma exata ciência nos diz que meio mais meio é igual a um (1/2 + ½ = 1). No entanto, a ciência inexata da Vida afirma que a união de duas metades sempre gera duas metades, ou seja, duas meias pessoas. Pensar que poderemos concluir alguma coisa ou nos completar é uma maneira limitada de enxergar a vida. Estamos completamente engajados no infinito. O máximo que conseguiremos é eternamente acrescentar algo ao nosso ser ilimitado. A parte que nos completa é o próprio universo. Se somos parte de alguma coisa, somos parte dele. Como ele é infinito, infinitas serão as nossas possibilidades. Acho que o maior dilema do ser humano é, na verdade, a maior benção que recebeu.
— Qual? Perguntaram novamente.
— Ter sido incluído no conjunto infinito, cuja regra básica é o constante crescimento.

Terminada a reunião, cada um seguiu o seu caminho procurando uma alma que pudesse acolhê-los.

sábado, 8 de fevereiro de 2014

TOLERÂNCIA




“A INTOLERÂNCIA É UMA VIA PERIGOSA QUE ATROPELA OS RELACIONAMENTOS, DEIXANDO-OS COM A LAMENTÁVEL SEQUELA DA PARALISIA”



TOLERÂNCIA



         É um alimento cuja essência lhe proporcionará o refinado poder de aprimorar o seu paladar, distinguindo, admitindo e respeitando qualquer padrão cujo gosto pela vida seja diferente ou contrário ao seu.



CUSTO



         O preço máximo que poderá pagar é o de ser acusado de conformista, covarde e omisso. No entanto, quem investe na tolerância jamais aplica sua energia no conformismo, na covardia e na omissão, pois sabe que a mesma é um rentável investimento que, mesmo não oferecendo lucros imediatos, permite a longo prazo consolidar e firmar as bases de um sólido negócio chamado VIDA.
         Para quem está decidindo ou não investir na tolerância, lembre-se que desenvolvimento é um investimento baseado num processo, jamais,   numa ação relâmpago.



TIRA GOSTO


INTOLERANTE


NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
QUERO-TE PERFEITO,
TOLERANDO MINHAS IMPERFEIÇÕES

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
OS LIMITES QUE ME IMPÕE
INTOLERÁVEL FRUSTRAÇÃO.

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
TOLERÂNCIA PARA TODOS.
DESEJO TOLERÂNCIA SÓ PRA MIM

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
A SUA RAZÃO.
RAZÃO SÓ MINHA

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR.
DAÍ NÃO TOLERO,
BRIGO

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
A VIDA QUE NÃO TOLERO.
MORRO.

BRIGO,
MORRO,
FAZENDO JAZIR
A TOLERÂNCIA DO MEU EU INTOLERANTE.



INGREDIENTES



Essência da paciência e da empatia.



PREPARO



         Sabemos que cada região tem a sua culinária especial. Tomando, como exemplo, o estado de Minas Gerais e Bahia, encontraremos as mais diversas comidas típicas. Não há nada mais saboroso do que saborear em Minas, saído direto do fogão de lenha, o tão famoso frango caipira com quiabo. Como também é especialmente agradável saborear, na Bahia, o tão saboroso acarajé, preparado por uma baiana bem relaxada, vestida com lindos trajes na beira do mar.
         Será que dá para saborear em Minas, o saboroso acarajé baiano? Sem baiana e sem mar, como ficaria o sabor do acarajé? Será que o acarajé mineiro desce? Minas, com seu sabor caipira, conseguiria imitar o sabor relaxado do baiano? Confesso que prefiro saborear o acarajé baiano na beira do mar, preparado por uma baiana tipicamente vestida, tomando o máximo cuidado para não escolher o quente acarajé, que queimaria a minha boca com seu sabor extremamente apimentado. Mas, confesso também que já tive o prazer de experimentar o acarajé feito em Minas e desceu bem. Mesmo preparado por uma mineira e sem a presença do mar, eu soube apreciar as diferenças, ao invés de amaldiçoá-las. Apesar de saber, perfeitamente, que não era o nosso forte, ele continha na sua essência o precioso desejo de dar certo. Era diferente, mas desceu gostoso e matou a minha fome, porque aceitei, naquele momento, digerir bem os limites e as diferenças.
         O prato da tolerância é, de certa forma, uma imitação do original. Nunca o encontraremos na perfeita forma que gostaríamos. O que vai torná-lo especial e tão apreciado quanto o original é a essência utilizada. Para qualquer alimento que precisar provar, que fuja dos padrões estabelecidos como ideais para você, utilize a essência da paciência e da empatia. Estas essências dão ao alimento a ser digerido um tempero que abranda as limitações e diferenças de maneira a torna-lo  apreciado pelo seu paladar. Tome muito cuidado para não usar a essência da expectativa e do arrogo, pois elas com certeza darão um sabor tão apimentado que, além de desencadear em você o forte e deseducado desejo de cuspi-lo, poderá também engasgá-lo ou descer goela abaixo gerando fortes feridas e uma significativa gastrite em seu coração.



SOBREMESA



O CONFLITO DAS FLORES


         Num jardim povoado por inúmeras espécies de flores, havia uma que jamais conseguia desabrochar e florir. Estava sempre fechada e murcha. Trancada em si, não exalava seu perfume, negando a todos os habitantes daquele lindo jardim o prazer de inalar o seu aroma. Levando um estilo de vida que a diferenciava das demais flores, começou a incomodar a grande maioria delas.
— Se pudéssemos expulsá-la daqui... Não somos obrigadas a aceitar um ser tão egoísta, que jamais presenteou o nosso lar com a sua beleza e com o seu perfume. Diziam algumas flores, revoltadas com o caráter enclausurado daquela flor.
— Seu humor trancado incomoda a todos nós, mas quem sabe ela resolva desabrochar na próxima primavera. Diziam outras flores, um pouco mais otimistas, exalando esperança.
         Não havia revolta ou otimismo que fizesse aquela flor desabrochar. As estações se revezavam anos a fio e ela continuava da mesma forma. Certo dia, diante de uma lamentação generalizada, cujo algoz era aquela flor, o sábio Amor-perfeito resolveu intervir:
— Vocês precisam ser mais tolerantes com ela.
         Dona Rosa, sempre muito apreciada pela sua beleza e perfume, questionou:
— Você está querendo dizer que devemos concordar com este humor terrível que ela possui?
— Ser tolerante não pressupõe concordar com tudo, mas aprender a aceitar o jeito incomum de certas coisas que nos incomodam. Ponderou o Amor-perfeito.
— O correto é mudar ou combater tudo aquilo que nos incomoda. Afirmou o Girassol com firmeza.
— Nem sempre podemos mudar ou combater tudo aquilo que nos aborrece.
— Concordo plenamente com você, Amor-perfeito, e complemento um pouco mais isto que você acabou de falar. Mesmo que possamos combater algumas situações que nos aporrinham, nem sempre desejamos este combate. É prudente e preferível apostarmos primeiro em outras estratégias, como, por exemplo, na possibilidade de transformação ou na nossa capacidade de aprender a lidar com algumas situações que somos impotentes para mudar. Completou o Cravo.
— Seria dar tempo ao tempo para ver se as coisas mudam? Perguntou a orquídea exalando dúvida.
         Antes que obtivesse resposta, o vigoroso Girassol interveio com aspereza:
— As mudanças não acontecem por acaso. Precisamos fazer alguma coisa. Para mim, ser tolerante é burrice e covardia. A tolerância permite que a ruindade, que a injustiça e a chatice perdurem. Aceitar aquilo que precisa ser mudado é comodismo.
— Engano seu. Tolerância não significa passividade diante das coisas. Tolerar é perseverar na paciência agindo, concomitantemente, com sabedoria para produzir um efeito positivo naquilo que precisa ser mudado. Corrigiu sabiamente o Amor-perfeito.
         Naquele momento, todas as flores se entreolharam surpresas. O silêncio reinou por alguns minutos, abafando o zunido das reclamações, até que a Camélia resolveu perguntar:
— O que precisamos fazer para ser tolerante com esta flor que não tem sido nem um pouco tolerante conosco?
         Amor-perfeito, deixando-se levar pela brisa e tentando refrescar suas ideias, continuou:
— Realmente esta flor que desconhecemos tem sido muito intolerante com todos nós. Parece não aceitar o nosso perfume e a nossa beleza, pois jamais compartilhou suas virtudes conosco. O mais importante agora é não permitirmos a ela nos contaminar com sua energia, tentando germinar a semente da intolerância dentro de todos nós.
— Esta é uma boa dica! Exclamou a Camélia, interrompendo o Amor-perfeito que lhes assegurou dizendo:
— No entanto, existem outras dicas tão importantes quanto esta.
— Quais? Perguntaram dezenas de flores ao mesmo tempo.
         Satisfeito com o aroma de interesse que passou a exalar naquele jardim a partir daquele momento, Amor-perfeito continuou:
— Outra dica é não alimentarmos expectativas com relação a ela. Quanto mais expectativas tivermos, mais frustrados corremos o risco de ficar. A frustração é um terreno fértil para a intolerância. Devemos tomar cuidado com ela e aprendermos a administrá-la.
— Devo admitir que ando bem frustrada com esta flor. Já perdi a conta de quantas primaveras venho esperando ela desabrochar. Admitiu a Margarida.
         Amor-perfeito deu um sorriso para a graciosa Margarida e persistiu no seu discurso:
— Existe uma dica que é fundamental para quem deseja ser tolerante. Trata-se de sermos empáticos. E ter empatia não pressupõe ter simpatia por ela. Empatia e simpatia são duas coisas bem diferentes. Ser empático é tentar compreender os motivos que levam um ser agir de determinada forma.
         Foi interrompido pela Dália que interveio, questionando:
— Se até hoje não conseguimos descobrir os motivos que a levam a agir desta forma, como poderemos compreender estes motivos?
— Se você não descobriu os motivos, tente no mínimo compreender, que mesmo diante da incompreensibilidade, há sempre um motivo oculto, que faz um ser agir de uma forma ou de outra. Por mais mesquinho que seja este motivo, ele caracteriza a razão deste ser.
— Parece que existem razões que a própria razão desconhece. Completou o Crisântemo.
— É verdade, estamos longe de desvendarmos todos os mistérios e dilemas desta vida.
— Haja paciência! Exclamou o Girassol, espargindo ansiedade e impaciência.
         Amor-perfeito aproveitou a impaciência do amigo e remendou sua colocação:
— Talvez seja a paciência a dica mais importante. Precisamos exercitá-la, além do respeito pelos seres que nos incomodam. A ciência da paz nos incita a parar de guerrear. Na guerra, não há lugar para a tolerância. Há espaços apenas para um combate que fere e destrói ambos os lados. Se você não deseja se destruir pare de guerrear.
         O Girassol se surpreendeu, parecendo ter sido tocado em suas raízes pela última sentença do amigo. Pensativo, calou-se, dando mais espaços para a preleção do Amor-perfeito perdurar:
— Uma dica também importante é nos comprometermos a curar o nosso olhar. Precisamos fixá-lo na nossa beleza e na beleza de nosso jardim e não somente numa única flor que não consegue florir. Esta flor não é nosso jardim. O nosso jardim somos todos nós.
         Naquele momento, uma luz verde pareceu inundar o ambiente. Alguma coisa diferente parecia estar brotando no âmago de cada flor ali presente. Percebendo as nuanças de uma mudança, Amor-perfeito prosseguiu, proferindo:
— Consigo sentir agora a esperança em cada um de vocês. Era o que nos faltava. Precisamos substituir nossas expectativas pela esperança. Ela nos nutre e não habita apenas o aqui/agora. Ela reside no infinito, que abriga soluções para algum momento ou lugar dos quais não temos domínio e poder.
         Finalizada a prédica do Amor-perfeito, todas as flores reverenciaram-no com seu perfume. Adotaram dali para frente uma postura tolerante para com aquela misteriosa e mal humorada flor. Quanto a ela, continuou incomodando, no entanto, o posicionamento de todas as flores perante este incômodo mudou significativamente. Seguindo as orientações do Amor-perfeito, o incômodo pareceu ter diminuído num passe de mágica e o que restou dele passou a ser encarado como um adubo para o crescimento de cada flor ali existente.
         Aquela flor jamais se abriu. Um dia, sem que ninguém soubesse compreender os motivos, ela foi arrancada daquele jardim. Um beija-flor, que acompanhou tudo de perto, disse que ela foi replantada em outro lugar. Só não sabemos ainda se ela vai florir. O que você acha? Eu só sei que, fertilizada pela tolerância, a gente consegue ter, no mínimo, esperanças.

Que ela desabroche!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

FELICIDADE



“FELIZ AQUELE QUE MESMO TRANSITANDO EM SUAS TRISTEZAS, CONSEGUE EQUILIBRAR-SE, NEGANDO-SE CARREGAR UM PESO CAPAZ DE ABALAR OU DESTRUIR O ALICERCE DE SUA FELICIDADE”


FELICIDADE


Felicidade é um prato constituído por uma multivariedade de ingredientes saudáveis. Algumas pessoas demonstram grande dificuldade para prepará-lo, pois exigem ter em suas prateleiras todos os ingredientes que o hipermercado da vida tem para oferecer. No entanto, o grande segredo para uma boa nutrição não repousa na quantidade de elementos a serem utilizados, mas na sabedoria de aproveitar ao máximo as propriedades nutritivas de cada alimento que o indivíduo tiver acesso.



CUSTO



Felicidade tem um alto custo para os exigentes que acabam pagando o preço da indigesta frustração e desenvolvendo a falsa crença de que este prato é uma ilusão. E nada custa para quem sabe humildemente fazer combinações saudáveis.



TIRA GOSTO


REMEXENDO A FELICIDADE


REMEXI A FELICIDADE
ENCONTREI O AMOR ACARICIANDO
A ALEGRIA GARGALHANDO
A SAÚDE TONIFICANDO
A CRIATIVIDADE IDEALIZANDO
A VERDADE REVELANDO
A SOLIDARIEDADE DOANDO
O DINHEIRO FACILITANDO
O TRABALHO EXECUTANDO
A FÉ ILUMINAMDO
A CORAGEM ENFRENTANDO
A LIBERDADE DESAMARRANDO
O PRAZER GOZANDO
O TESÃO DESEJANDO
O MISTÉRIO DESAFIANDO
O RESPEITO REVERENCIANDO
O PERDÃO ACEITANDO
A HUMILDADE VALORIZANDO
A SIMPLICIDADE DESCOMPLICANDO
A TOLERÂNCIA SUPORTANDO
A CONFIANÇA DESARMANDO
O HUMOR BRINCANDO
A PACIÊNCIA ESPERANDO
O DIVINO ME ORIENTANDO
MEXA UM POUCO MAIS
E, NESTE REMELEXO
ENCONTREI VOCÊ
REPLETO DISTO TUDO
FINALMENTE EXCLAMANDO
MAIS PARA DENTRO DO QUE PARA FORA,
MEIO SEM JEITO
COM RECEIO NÃO SEI DE QUE,
COMO SE QUISESSE GUARDAR
OU MANTER ESCONDIDO
DUAS PALAVRAS MÁGICAS:
“TE AMO”!
ESTA MÁGICA
QUE ME TOCA
SEM TRUQUES,
FAZ MEU CORAÇÃO GRITAR
SEM QUERER GUARDAR
O QUE PRECISA COMPARTILHAR:
“QUE FELICIDADE!”


INGREDIENTES



Todos que você tiver acessível nas prateleiras de sua vida e que mais combinarem com o seu desejo e paladar no momento. Não tente e nem deseje preparar este prato com ingredientes acessíveis nas prateleiras de uma vida que não seja a sua. Aquilo que ainda não lhe foi dado pela vida poderá lhe causar intoxicação. Assim como nosso corpo, nem tudo nossa alma está preparada para digerir.


PREPARO



Acho que não existe alguém neste mundo que nunca tenha provado um mexido, um mexidinho ou um mexidão. Mexido pode ser uma mistura pequena, média ou grande. O sabor deste prato dependerá muito mais da forma como você irá prepará-lo e saboreá-lo do que dos ingredientes a serem utilizados. Se você possui a consciência de que poderia utilizar dez ingredientes, mas só possui cinco, não desista de preparar o mexido da felicidade em função desta limitação. Preparando-o com amor e estando atento a degustar com prazer o sabor de cada ingrediente utilizado, o seu mexido ficará, sem dúvida, uma delícia!
Satisfaça com aquilo que possui e lembre-se que, em cada momento de sua vida, os ingredientes acessíveis serão certamente diferentes. Daí, ao longo de sua jornada por este mundo, você terá oportunidade de preparar vários mexidos diferenciados. No final das contas, nunca saberá ao certo qual deles ficou mais gostoso, no entanto, jamais esquecerá que, além de deliciosos, mataram a sua fome.
Um alerta! Se não der para preparar um mexidão, contente-se com um mexidinho e bom apetite!


SOBREMESA


MEXIDO DE FELICIDADE


Em algum lugar que não sei bem onde, morava uma bruxa misteriosa e bondosa que trazia consigo a receita da felicidade. No nosso mundo, sempre ouvi muitas pessoas dizerem que a felicidade não existe, que o que existe são apenas momentos felizes. Esta maneira de pensar sempre me deixou confusa pois, na verdade, nunca consegui sentir a felicidade como um momento, sempre a senti muito forte vibrando dentro de mim. Foi assim que resolvi consultar a minha intuição para que ela pudesse me levar até a tão famosa bruxa que, com certeza, me ofertaria a tão desejada receita da felicidade. De posse dela, eu a eternizaria dentro de mim, sem deixá-la jamais correr o risco de se tornar um momento fugaz.
Fui atrás da tal bruxa. Para encontrá-la tive que escalar a dura realidade e adentrar em meus sonhos e fantasias. Sem saber como, me vi repentinamente defronte de uma mulher que não tinha cara de bruxa; tinha cara de criança, corpo de adolescente, jeito de adulto e sabedoria de quem já viveu muito. Com uma colher minúscula, ela mexia uma porção invisível dentro de um minúsculo tacho de cobre. Inspirava com prazer o aroma de seu preparado e experimentando-o, deleitava-se dizendo:
— Que delícia!
A expressão de felicidade que aparecia em seu rosto desencadeou em mim um enorme desejo de provar também a sua porção mágica, apesar de não conseguir enxergar nada dentro daquele tacho. Antes que eu lhe pedisse um pouquinho de seu preparado ou fizesse qualquer pergunta ou apresentação referente à minha pessoa, ela procurou certificar-se da minha presença afirmando com toda certeza:
— Aposto que veio à procura da receita da felicidade.
— Como sabes que vim aqui para isto? - perguntei.
— A sua expressão revela busca e revela dúvida também. Está confusa com alguma coisa?
— Achei o seu tacho pequeno demais para caber um sentimento tão grandioso quanto a felicidade. O mais intrigante é que não consigo ver nada dentro dele e você se delicia com algo que não consigo ver e sentir.
— A felicidade cabe em qualquer lugar, ela não tem tamanho. O seu cheiro e sabor escapa aos sentidos daqueles que não a prepararam. Sendo assim, a minha poção da felicidade só pode ser sentida por mim - afirmou convicta.
— Interessante! Como posso preparar a minha poção? - perguntei exalando curiosidade.
— Tem certeza que deseja ser feliz? – perguntou-me.
— É claro!  - respondi — Há alguém neste mundo que não deseja?
— Há pessoas que desejam apenas a alegria.
— Alegria e felicidade não seriam a mesma coisa?
— Alegria é só um ingrediente da felicidade. Felicidade é um preparado muito simples, porém complexo. Nem todo mundo está disposto a prepará-la. Muitos acham mais fácil comprar nos hipermercados da vida uma substância apetitosa já pronta, ao invés de se dar ao trabalho de preparar algo que leva vários ingredientes.
— Quais os ingredientes necessários para preparar a poção da felicidade?
— Adivinhe! – exclamou a bruxa.
— A única certeza que tenho é que não há espaço para a tristeza neste preparado. – falei convicta.
— Engano seu. Até mesmo da tristeza é possível se retirar um extrato para a felicidade.
Fiquei ainda mais confusa. Tristeza nunca combinou com felicidade em minha filosofia de vida e, naquele momento, aquele ser misterioso  afirmava que ela também poderia contribuir para com a poção do sentimento mais requisitado pelos homens. Vendo a minha expressão de perplexidade, a bruxa continuou:
— Nesta busca por um sentimento tão nobre quanto a felicidade, talvez fosse mais sensato deparar-se com uma fada e, no entanto, você deparou com uma bruxa. Às vezes, achamos que a tristeza nos apresentará a infelicidade e ela muitas vezes vem nos preparar para saborear a felicidade que nos aguarda. Outras vezes, achamos que a alegria é a base da felicidade e ela acaba nos jogando no terreno da infelicidade. Parece um paradoxo viver, mas na verdade o que realmente acontece é que não conhecemos bem a essência dos sentimentos. Todo sentimento tem um tempero. É necessário sabermos usar a dose certa que agrade o paladar ou tirar dele a essência capaz de dar sabor agradável à vida.
— Quer dizer que posso estar triste e estar feliz ao mesmo tempo? Perguntei.
— Não. Você pode estar triste e SER feliz. Estar é diferente de ser. A felicidade não é um estado, mas sim, uma estrutura, ou melhor dizendo, uma construção. Eu diria que ninguém está feliz, uma pessoa é feliz ou não dependendo da obra que realizou em sua própria vida.
— Então, não sou alegre. Eu estou alegre. Nossa, como é difícil diferenciar a alegria da felicidade.
— Sabe por que? – perguntou-me a bruxa rindo.
— Por que?
— Se eu lhe contar uma lenda sobre as travessuras de alguns sentimentos arteiros, você vai entender.
— Conte-me que já estou ficando curiosa.  – solicitei.
— Dizem que o criador realizou uma festa de fantasia onde todos os sentimentos foram convidados. Ninguém soube explicar o por que desta festa, soube-se apenas do resultado dela. Relatam que a alegria foi fantasiada de felicidade, a paixão de amor, a preocupação de interesse, a rebeldia de liberdade, a indiferença de paz e por aí vai. Eles ficaram tão parecidos com estes sentimentos que ficava difícil identificar quem era um e outro. O pior é que eles gostaram tanto de viver a fantasia de ser um sentimento mais nobre que até hoje vivem pregando peças nos mais desavisados.
— Acho que estes sentimentos já me pregaram muitas peças. Daqui para frente tenho que ficar mais vigilante. Mas quero ficar mais atenta à receita da felicidade. É possível você me ensina-la agora?  - perguntei.
— Você veio atrás de uma receita como todos que conseguiram chegar até aqui. Só que daqui você não sairá com receita alguma, mas lhe darei algo mais precioso do que esta receita que você julga existir.
— O que? – perguntei curiosa.
— Lhe darei o tacho para que você prepare a sua própria poção de felicidade.
A bruxa foi até a despensa e saiu de lá com um lindo tacho de cobre na mão. Entregou-o a mim, ordenando-me:
— Não me pergunte mais nada. Vá embora e prepare a sua poção com os ingredientes que desejar. Nunca se importe se alguém lhe disser que algum tempero é picante, azedo, amargo, doce ou salgado. O que importa é a combinação e o sabor final que ele dará ao seu paladar.
Não pude perguntar mais nada, pois sem que eu percebesse já estava de volta. Talvez você esteja se perguntando: De volta para onde? Voltei para este mundo onde as pessoas julgam a felicidade apenas como um momento fugaz. Assim que cheguei, parei para pensar como prepararia este alimento tão importante e cheguei a conclusão que já o ando preparando desde criança, pois olhei para o meu tacho e vi dentro dele um delicioso mexidão. Não sei se você o enxergaria ou sentiria o delicioso sabor dele. Só sei que meu mexido além de simples me alimenta e sempre me dá água na boca.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

LIBERDADE



“ASSUMIR A LIBERDADE É PRENDER-SE À DIFÍCIL RESPONSABILIDADE DE SER DONO DA PRÓPRIA VIDA”




LIBERDADE



Liberdade é um prato que lhe faz adquirir a mais desejável, porém temível e difícil conquista: “ser dono de si mesmo”.



CUSTO



Liberdade não é gratuita, custa direitos e deveres. Os direitos adquiridos possuem o valor de proporcionar-lhe a possibilidade de fazer tudo que desejar. Os deveres lhe concedem o alto preço da responsabilidade de assumir as consequências de todos os seus atos. “Ter direitos custa o dever de assumir riscos e consequências”.



TIRA GOSTO



BICHO HOMEM


PENSAR EM LIBERDADE
É APRISIONÁ-LA
NA GAIOLA DA MENTE
ACORRENTANDO COM A RAZÃO
A NOSSA RAZÃO DE SER


CONQUISTAR A LIBERDADE
PRESSUPÕE JÁ TÊ-LA PERDIDO
LIVRE É
SEM PRECISAR SER
LIVRE DE BATALHAS OU CONQUISTAS


NENHUM BICHO
SUA LIBERDADE QUESTIONA
SÓ O BICHO HOMEM
QUE DONO SE JULGA
DO QUE É INAPROPRIÁVEL


O BICHO HOMEM
FINGE QUE É DONO
AO OUTRO DÁ LIBERDADE
SÓ NÃO CONSEGUE DAR
LIBERDADE A SI MESMO


BICHO HOMEM
PROPRIETÁRIO APRISIONADO
ESCRAVO DE SEUS ESCRAVOS
SABE APRISIONAR
LIBERTAR JAMAIS


QUAL O SENTIDO DA LIBERDADE
PARA O BICHO HOMEM
QUE ESCRAVO DA INSENSIBILIDADE
NÃO SENTE MAIS
O SENTIDO DE SENTIR


BICHO HOMEM
ESPÉCIE QUE SE JULGA
ESPECIAL
ESPECIALMENTE CAPAZ
DO OUTRO SE APROPRIAR E SER APROPRIADO


BICHO HOMEM
APRISIONA OUTRAS ESPÉCIES
APRISIONA A SUA PRÓPRIA
ESTRANHO JEITO DE SER
SER HOMEM


QUE O BICHO HOMEM POSSA
DEIXAR DE SER HOMEM
E  TORNAR-SE BICHO
E COMO BICHO
LIBERTAR-SE



INGREDIENTES


MASSA: Coragem, segurança, independência e responsabilidade.
RECHEIO: Os mais variados direitos que possuir


PREPARO



         É parecido com o preparo de uma pizza. Primeiro prepare a massa, misturando bastante coragem, segurança, independência e responsabilidade. Amasse bem até sentir firmeza, ou seja, produza uma massa homogenia e consistente o suficiente para não agarrar nos dedos de suas mãos. Se estiver agarrando é porque não tem ainda a firmeza necessária para ir ao quente forno da vida. Talvez precise ser mais trabalhada, ou de uma quantidade maior de um dos ingredientes acima. No entanto, quando estiver firme e soltando de suas mãos, disponha-a no tabuleiro de seu ser e jogue por cima o delicioso recheio dos direitos. Unte o tabuleiro com seus deveres, para não agarrar e destruir tudo que foi construído até então. Seguidos todos estes passos, é só colocar para assar numa vida quente que jamais lhe deixará sentir a frieza do exílio e do aprisionamento.



SOBREMESA



CARTA DE ALFORRIA


         Num reino distante existia um rei e uma rainha que aguardavam ansiosos o nascimento de um filho. O feiticeiro da corte previu o nascimento de uma bela menina que foi aguardada com muita alegria por todos.
         No dia do nascimento, todas as personalidades dotadas de poder foram convidadas para presentear a nova princesa com os mais variados dotes que pudessem ofertar à vida da mesma a plena felicidade. Como todo conto de fadas existe uma bruxa má, a dita cuja não poderia deixar de habitar este conto e visitar a bela princesa bem no dia de seu nascimento oferecendo a ela a sua maldição. Pegou a criança no colo e rogou sobre a mesma toda a sua maldade:
— Terás o título de princesa, mas será uma verdadeira escrava!
         Perplexos com tamanha crueldade, expulsaram a maldita bruxa do aposento onde se encontravam todos os convidados. Como ela fora a primeira pessoa a presentear a princesa, os outros convidados trataram de desejar à mesma todas as honrarias e poderes que pudessem libertá-la de tamanho infortúnio.
— Serás sempre a mais linda moça do reino. Ninguém conseguirá ultrapassar a sua beleza. Dona de tanto encanto, jamais correrá o risco de se tornar uma escrava.
— Terás a pele branca e fina como seda, sendo, portanto, impossível confundi-la com uma escrava.
— Terás muitas posses,  serás dona de tudo, sendo, portanto, inadmissível ter um dono.
         O rei na condição de pai lhe ofertou um nome e uma grande pedra valiosa:
 — Dar-lhe-ei o nome de Libéria, que significa livre, para que carregue para sempre em sua identidade a marca da liberdade. Receba também este cristal, para que sua vida possa emanar a energia da prosperidade.
         Por último, apareceu uma respeitável fada que com muita ternura rogou-lhe uma preciosa oferta que, mesmo não sendo compreendida, foi ouvida e aceita por todos sem objeções:
— Ofereço-lhe a sua carta de alforria. Aos 21 anos, poderá desfrutá-la, deste que reconheça o senhor que lhe escravizará por todo este tempo, podendo finalmente se libertar dele.
         O tempo foi passando, a princesa foi crescendo e se transformando, dia após dia, na moça mais bela do reino. Uma complexa rede de artimanhas e defesas era a
 todo o momento montada para impedir que a maldição da bruxa se concretizasse. Todos os desejos da princesa eram satisfeitos imediatamente, não lhe era permitido viver nenhuma frustração. Ao seu lado, sempre existia alguém pronto a atendê-la; jamais experimentava a condição de estar só para não correr o risco de desejar e não ser prontamente atendida. Nunca lhe foi solicitado que desenvolvesse qualquer tarefa; por mais simples que fosse, havia sempre alguém que pudesse desenvolve-la por ela. Era apenas atendida, jamais vivera a experiência de atender alguém.
Sua pele era tão branca e fina que não podia ser tocada diretamente pelo sol. Quando saía para dar um passeio pelos arredores do castelo, havia sempre um guarda-sol a proteger sua pele de qualquer raio solar que pudesse agredi-la.
Enormes espelhos foram espalhados pelas paredes do castelo para que a princesa pudesse se distrair contemplando sua beleza, obstinando-se a buscar sempre a perfeição. Ela era o padrão e a referência de beleza para as outras moças do reino. Todas desejavam ser igual a ela, para que pudessem ter a chance de serem desejadas e apreciadas pelo tão esperado príncipe encantado. Sem perceber, Libéria foi se tornando escrava de sua beleza.
Uma princesa tão bela e perfeita deveria se casar com um príncipe belo e perfeito. Todos os sábios da corte foram convidados para ajudar a escolher um homem que conseguisse se encaixar dentro dos padrões de perfeição exigidos. O tempo foi passando e nenhum jovem conseguia satisfazer as exigências solicitadas. Um clima de ansiedade passou a reinar naquele império de desejos inalcançáveis e a jovem princesa foi ultrapassando a época julgada ideal para um casamento. Para que este problema pudesse ser resolvido sem gerar maiores conflitos, estabeleceu-se que, a partir daquela data, o ideal seria casar-se aos 21 anos. Este passou a ser mais um padrão criado a partir das necessidades da princesa e todas as jovens tratavam de segui-lo, sem questionamentos, para se aproximarem ao máximo do ideal estabelecido.
O tempo continuou passando e finalmente a princesa completou 21 anos. Mais uma vez não foi encontrado nenhum jovem que pudesse satisfazer os padrões de perfeição exigidos para uma princesa de tamanha categoria. Todos se reuniram novamente, tentando criar mais uma forma de solucionar este conflito antes que ele pudesse ser vivido e sentido pela princesa. Sem encontrar uma solução para o mesmo, resolveram consultar a respeitável fada que, no dia do nascimento da princesa, ofertou-lhe um presente incompreensível e misterioso: sua carta de alforria. Indagaram-na sobre a má sorte de Libéria.
— A maldição de se tornar uma escrava não recaiu sobre a nossa querida princesa; no entanto, precisamos libertá-la da má sorte de não ter encontrado ainda um casamento perfeito. A dita carta de alforria que você lhe ofertou em seu nascimento teria a finalidade de libertá-la deste infortúnio?
— Não. A carta de alforria que lhe ofertei a libertaria da escravidão que a bruxa lhe rogou. Respondeu a fada com firmeza.
— Como pode afirmar ser a princesa uma escrava? Perguntaram perplexos.
— Ela é tão escrava quanto cada um de vocês. Continuou a fada.
— Nós não somos escravos. Afirmaram.
— Vocês são escravos de sua cegueira, ou seja, de tudo que não conseguem enxergar.
         Sem quererem enxergar aquilo que os escravizava, mas sentindo-se responsáveis pela liberdade da princesa perguntaram ansiosamente:
— Diga-nos então o que podemos fazer para libertar pelo menos a nossa princesa, para que ela possa finalmente se casar.
— Deixe que ela se case primeiro com ela mesma. Proferiu a fada, com sabedoria.
         Todos se entreolharam confusos. Nunca ouviram falar que alguém pudesse casar consigo mesmo. Desesperados, sem encontrar saída para aquela situação conflituosa, apelaram para a sabedoria da tão respeitável fada, depositando sobre a mesma toda a esperança. Trataram rapidamente de providenciar o encontro da princesa com aquela entidade misteriosa e, ao mesmo tempo, fantástica, que a libertaria.
         Diante do espelho Libéria se enfeitava e contemplava sua beleza. Viu repentinamente a imagem da fada refletida ao lado da sua. Surpresa, perguntou:
— Quem é você?
— Eu sou sua fada madrinha.
— O que faz aqui?
— Eu vim finalmente entregar-lhe o presente que lhe ofereci há 21 anos.
— Obrigada! Pode deixá-lo sobre a mesa que tratarei de abri-lo e apreciá-lo. Agradeceu a princesa.
— Ao invés de abri-lo, terá primeiro que se abrir para ele e ao invés de apreciá-lo, terá de conquistá-lo. Ponderou a fada.
— Que tipo de presente é este? Recebi presentes durante toda a minha vida. Sempre segui o ritual de abri-los, apreciá-los e fazer uso deles. Isto é tudo que sei fazer com aquilo que me é oferecido. Explicou Libéria.
— Trago-lhe um presente diferente de tudo que já recebeu. Aliás, trago-lhe pela primeira vez a possibilidade de experimentar um sabor que desconhece.
— Que sabor desconheço? Perguntou Libéria
— Você desconhece o sabor das conquistas. Tudo lhe foi dado, você nunca precisou conquistar nada. Você tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada. Tudo que possui foi conquistado graças ao suor de uma outra pessoa, que você nem mesmo se deu ao trabalho de saber quem. Além de suar para você, este outro também desejou para ti aquilo que você inocentemente julgou ter desejado. Na verdade, tudo que deseja é uma extensão do desejo do outro. Da vida você pouco conhece e é justamente o conhecimento da mesma que nos permite desejar ardentemente ou colocar limites aos nossos desejos.
         A princesa ficou muito assustada com tudo aquilo que a fada acabara de lhe dizer. Mesmo sem arredar o pé da frente do espelho, sentiu-se jogada num mundo completamente diferente. Num passe de mágica, a imagem que viu diante de si não era mais daquela princesa que por anos se contemplou cheia de vaidade. Viu a imagem de uma mulher feia, comodista, fútil, insegura e sem vitalidade. Pela primeira vez, experimentou o sabor do desespero e, tomada  pelo mesmo, jogou sobre o espelho o cristal presenteado pelo seu pai no dia de seu nascimento, simbolizando a prosperidade que tanto desejava à filha. O espelho se espatifou em pedacinhos,  ferindo as mãos da princesa. Imediatamente, vários servos se aproximaram assustados, recolhendo a princesa com a finalidade de providenciar os recursos necessários para tratar do seu primeiro ferimento. A fada se interpôs-se com firmeza, expulsando-os daquele aposento:
— Deixem Libéria tratar de si mesma.
— Eu não sei tratar de minhas feridas! Exclamou Libéria tomada de pânico.
— Aprenda! Desafiou a fada.
— Como aprender, se nunca me ensinaram? Questionou a princesa.
—Às vezes, é necessário ensinarmos a nós mesmas a melhor maneira de agir. Expôs a fada com sabedoria.
— E como se faz isto?
— Experimentando.
— O que devo experimentar agora? Perguntou Libéria ansiosa por uma resposta.
— Experimente o presente que estou lhe oferecendo. Respondeu a fada, cheia de entusiasmo.
— Que presente é este que está me oferecendo e que eu não consigo enxergar?
— Na verdade, já está começando a enxergar este presente, só não sei ainda se vai apreciá-lo e querer usufruí-lo.
— Não estou conseguindo entender nada. Seja mais clara e me fale que presente é este. Solicitou com imposição a princesa.
— Eu lhe trouxe a sua carta de alforria.
— Para que serve uma carta de alforria?
— Para liberta-la.
—Libertar-me... Como assim, não entendi.
         A fada contou à princesa toda a história de seu nascimento, história até então desconhecida. Libéria ficou indignada com o destino que lhe impuseram. Percebeu que não fora, até então, dona de sua própria vida e que em nenhum momento lhe foi permitido escrever nem uma linha sequer de seu destino. Decepcionada, perguntou à fada:
— Quer dizer que sou uma escrava vestida de princesa?
         Sem responder diretamente a sua pergunta, a fada lhe fez uma outra, que pudesse forçar a princesa a pensar sobre a sua condição.
— Você se sente livre?
— Nunca pensei e nem me dei conta disto. Pela primeira vez, você está me fazendo pensar sobre alguma coisa. Acho que me tornei escrava da minha alienação, dos desejos que todos tiveram de me fazer feliz, enfim, me tornei escrava de um grande vazio.
— Libertar deste vazio pressupõe assumir uma série de responsabilidades. Advertiu a fada madrinha.
— Sinto que não conseguirei voltar atrás depois desta tomada de consciência. Eu não sei ainda se eu era feliz ou infeliz absorta em tanta alienação. Eu só sei que o momento presente me solicita que eu seja eu, e a única coisa que sei a meu respeito é que sou Libéria. Como Libéria, eu carrego a liberdade em minha identidade e desejo experimenta-la.
— A sua tomada de consciência se transformou na valiosa carta de alforria que lhe presenteei. Agora você é finalmente livre para escolher ser escrava ou dona de si.
— Quer dizer que se é livre para escolher, inclusive ser escravo?
— Se é livre para escolher ser dono de si e escravo, se é livre para escolher pela vida e pela morte, se é livre para escolher ser feliz ou infeliz, enfim se é livre para SER. A liberdade não é uma forma ou condição de ser, a liberdade é, na verdade, um espaço de escolha. No entanto, só conseguimos ocupar este espaço quando tomamos consciência da sua existência. Elucidou a fada.
— Então, liberdade não é poder fazer tudo aquilo que se deseja? Perguntou Libéria.
— Você tem a liberdade de fazer até mesmo aquilo que não deseja. Na verdade, o ser humano tudo deseja, mas existem limites que restringem a satisfação destes desejos. Ser livre não pressupõe jamais não ter limites. Ser livre é poder administrá-los. A consciência destes limites nos permite usar a nossa liberdade com mais sabedoria.
— Talvez liberdade seja a conquista do poder de administrar a nossa própria vida. Concluiu Libéria.
— Administrar bem ou mal. Finalizou a fada, sorrindo.
         Libéria agradeceu muito o presente que sua fada madrinha lhe ofereceu. Apesar de doloroso, fora também o presente mais valioso que recebeu em sua vida. Quanto ao destino desta princesa, poucos souberam me informar. Fiquei sabendo apenas que não aceita mais babás ao seu lado, apanha sol todas as manhãs tomando os devidos cuidados com os raios ultravioletas, que chegaram a lhe causar, numa certa ocasião, uma terrível insolação por ter abusado e não reconhecido os limites saudáveis ao corpo. Aprendeu também a tratar de seus ferimentos sozinha, mesmo carregando algumas cicatrizes pelo corpo. Dizem que demorou muito a se casar, pois afirmava estar em lua de mel consigo mesma. Muitos acharam que estivesse ficando maluca, mas parecia não estar nem ai para qualquer comentário que fizessem a seu respeito. Quando. Finalmente, decidiu se casar, tudo indica que não escolheu um príncipe encantado. Escolheu um homem que parecia não ser perfeito, pois ela dizia ter casado bem as imperfeições dele com as suas, administrando-as da melhor maneira possível.
         Não conheci a Libéria desta história, mas conheci inúmeras Libérias ao longo de minha vida. Tem uma inclusive que nasceu e reside dentro de mim. Ela está agora me fazendo um pedido que deverá ser repassado a todos vocês:
— LIBERTE-SE!
         No entanto, se você é daqueles que possui muito medo da palavra liberdade, ela lhe sugere uma outra:

— ADMINESTRE-SE!