sábado, 8 de fevereiro de 2014

TOLERÂNCIA




“A INTOLERÂNCIA É UMA VIA PERIGOSA QUE ATROPELA OS RELACIONAMENTOS, DEIXANDO-OS COM A LAMENTÁVEL SEQUELA DA PARALISIA”



TOLERÂNCIA



         É um alimento cuja essência lhe proporcionará o refinado poder de aprimorar o seu paladar, distinguindo, admitindo e respeitando qualquer padrão cujo gosto pela vida seja diferente ou contrário ao seu.



CUSTO



         O preço máximo que poderá pagar é o de ser acusado de conformista, covarde e omisso. No entanto, quem investe na tolerância jamais aplica sua energia no conformismo, na covardia e na omissão, pois sabe que a mesma é um rentável investimento que, mesmo não oferecendo lucros imediatos, permite a longo prazo consolidar e firmar as bases de um sólido negócio chamado VIDA.
         Para quem está decidindo ou não investir na tolerância, lembre-se que desenvolvimento é um investimento baseado num processo, jamais,   numa ação relâmpago.



TIRA GOSTO


INTOLERANTE


NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
QUERO-TE PERFEITO,
TOLERANDO MINHAS IMPERFEIÇÕES

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
OS LIMITES QUE ME IMPÕE
INTOLERÁVEL FRUSTRAÇÃO.

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
TOLERÂNCIA PARA TODOS.
DESEJO TOLERÂNCIA SÓ PRA MIM

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
A SUA RAZÃO.
RAZÃO SÓ MINHA

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR.
DAÍ NÃO TOLERO,
BRIGO

NÃO TOLERO
TER QUE TOLERAR
A VIDA QUE NÃO TOLERO.
MORRO.

BRIGO,
MORRO,
FAZENDO JAZIR
A TOLERÂNCIA DO MEU EU INTOLERANTE.



INGREDIENTES



Essência da paciência e da empatia.



PREPARO



         Sabemos que cada região tem a sua culinária especial. Tomando, como exemplo, o estado de Minas Gerais e Bahia, encontraremos as mais diversas comidas típicas. Não há nada mais saboroso do que saborear em Minas, saído direto do fogão de lenha, o tão famoso frango caipira com quiabo. Como também é especialmente agradável saborear, na Bahia, o tão saboroso acarajé, preparado por uma baiana bem relaxada, vestida com lindos trajes na beira do mar.
         Será que dá para saborear em Minas, o saboroso acarajé baiano? Sem baiana e sem mar, como ficaria o sabor do acarajé? Será que o acarajé mineiro desce? Minas, com seu sabor caipira, conseguiria imitar o sabor relaxado do baiano? Confesso que prefiro saborear o acarajé baiano na beira do mar, preparado por uma baiana tipicamente vestida, tomando o máximo cuidado para não escolher o quente acarajé, que queimaria a minha boca com seu sabor extremamente apimentado. Mas, confesso também que já tive o prazer de experimentar o acarajé feito em Minas e desceu bem. Mesmo preparado por uma mineira e sem a presença do mar, eu soube apreciar as diferenças, ao invés de amaldiçoá-las. Apesar de saber, perfeitamente, que não era o nosso forte, ele continha na sua essência o precioso desejo de dar certo. Era diferente, mas desceu gostoso e matou a minha fome, porque aceitei, naquele momento, digerir bem os limites e as diferenças.
         O prato da tolerância é, de certa forma, uma imitação do original. Nunca o encontraremos na perfeita forma que gostaríamos. O que vai torná-lo especial e tão apreciado quanto o original é a essência utilizada. Para qualquer alimento que precisar provar, que fuja dos padrões estabelecidos como ideais para você, utilize a essência da paciência e da empatia. Estas essências dão ao alimento a ser digerido um tempero que abranda as limitações e diferenças de maneira a torna-lo  apreciado pelo seu paladar. Tome muito cuidado para não usar a essência da expectativa e do arrogo, pois elas com certeza darão um sabor tão apimentado que, além de desencadear em você o forte e deseducado desejo de cuspi-lo, poderá também engasgá-lo ou descer goela abaixo gerando fortes feridas e uma significativa gastrite em seu coração.



SOBREMESA



O CONFLITO DAS FLORES


         Num jardim povoado por inúmeras espécies de flores, havia uma que jamais conseguia desabrochar e florir. Estava sempre fechada e murcha. Trancada em si, não exalava seu perfume, negando a todos os habitantes daquele lindo jardim o prazer de inalar o seu aroma. Levando um estilo de vida que a diferenciava das demais flores, começou a incomodar a grande maioria delas.
— Se pudéssemos expulsá-la daqui... Não somos obrigadas a aceitar um ser tão egoísta, que jamais presenteou o nosso lar com a sua beleza e com o seu perfume. Diziam algumas flores, revoltadas com o caráter enclausurado daquela flor.
— Seu humor trancado incomoda a todos nós, mas quem sabe ela resolva desabrochar na próxima primavera. Diziam outras flores, um pouco mais otimistas, exalando esperança.
         Não havia revolta ou otimismo que fizesse aquela flor desabrochar. As estações se revezavam anos a fio e ela continuava da mesma forma. Certo dia, diante de uma lamentação generalizada, cujo algoz era aquela flor, o sábio Amor-perfeito resolveu intervir:
— Vocês precisam ser mais tolerantes com ela.
         Dona Rosa, sempre muito apreciada pela sua beleza e perfume, questionou:
— Você está querendo dizer que devemos concordar com este humor terrível que ela possui?
— Ser tolerante não pressupõe concordar com tudo, mas aprender a aceitar o jeito incomum de certas coisas que nos incomodam. Ponderou o Amor-perfeito.
— O correto é mudar ou combater tudo aquilo que nos incomoda. Afirmou o Girassol com firmeza.
— Nem sempre podemos mudar ou combater tudo aquilo que nos aborrece.
— Concordo plenamente com você, Amor-perfeito, e complemento um pouco mais isto que você acabou de falar. Mesmo que possamos combater algumas situações que nos aporrinham, nem sempre desejamos este combate. É prudente e preferível apostarmos primeiro em outras estratégias, como, por exemplo, na possibilidade de transformação ou na nossa capacidade de aprender a lidar com algumas situações que somos impotentes para mudar. Completou o Cravo.
— Seria dar tempo ao tempo para ver se as coisas mudam? Perguntou a orquídea exalando dúvida.
         Antes que obtivesse resposta, o vigoroso Girassol interveio com aspereza:
— As mudanças não acontecem por acaso. Precisamos fazer alguma coisa. Para mim, ser tolerante é burrice e covardia. A tolerância permite que a ruindade, que a injustiça e a chatice perdurem. Aceitar aquilo que precisa ser mudado é comodismo.
— Engano seu. Tolerância não significa passividade diante das coisas. Tolerar é perseverar na paciência agindo, concomitantemente, com sabedoria para produzir um efeito positivo naquilo que precisa ser mudado. Corrigiu sabiamente o Amor-perfeito.
         Naquele momento, todas as flores se entreolharam surpresas. O silêncio reinou por alguns minutos, abafando o zunido das reclamações, até que a Camélia resolveu perguntar:
— O que precisamos fazer para ser tolerante com esta flor que não tem sido nem um pouco tolerante conosco?
         Amor-perfeito, deixando-se levar pela brisa e tentando refrescar suas ideias, continuou:
— Realmente esta flor que desconhecemos tem sido muito intolerante com todos nós. Parece não aceitar o nosso perfume e a nossa beleza, pois jamais compartilhou suas virtudes conosco. O mais importante agora é não permitirmos a ela nos contaminar com sua energia, tentando germinar a semente da intolerância dentro de todos nós.
— Esta é uma boa dica! Exclamou a Camélia, interrompendo o Amor-perfeito que lhes assegurou dizendo:
— No entanto, existem outras dicas tão importantes quanto esta.
— Quais? Perguntaram dezenas de flores ao mesmo tempo.
         Satisfeito com o aroma de interesse que passou a exalar naquele jardim a partir daquele momento, Amor-perfeito continuou:
— Outra dica é não alimentarmos expectativas com relação a ela. Quanto mais expectativas tivermos, mais frustrados corremos o risco de ficar. A frustração é um terreno fértil para a intolerância. Devemos tomar cuidado com ela e aprendermos a administrá-la.
— Devo admitir que ando bem frustrada com esta flor. Já perdi a conta de quantas primaveras venho esperando ela desabrochar. Admitiu a Margarida.
         Amor-perfeito deu um sorriso para a graciosa Margarida e persistiu no seu discurso:
— Existe uma dica que é fundamental para quem deseja ser tolerante. Trata-se de sermos empáticos. E ter empatia não pressupõe ter simpatia por ela. Empatia e simpatia são duas coisas bem diferentes. Ser empático é tentar compreender os motivos que levam um ser agir de determinada forma.
         Foi interrompido pela Dália que interveio, questionando:
— Se até hoje não conseguimos descobrir os motivos que a levam a agir desta forma, como poderemos compreender estes motivos?
— Se você não descobriu os motivos, tente no mínimo compreender, que mesmo diante da incompreensibilidade, há sempre um motivo oculto, que faz um ser agir de uma forma ou de outra. Por mais mesquinho que seja este motivo, ele caracteriza a razão deste ser.
— Parece que existem razões que a própria razão desconhece. Completou o Crisântemo.
— É verdade, estamos longe de desvendarmos todos os mistérios e dilemas desta vida.
— Haja paciência! Exclamou o Girassol, espargindo ansiedade e impaciência.
         Amor-perfeito aproveitou a impaciência do amigo e remendou sua colocação:
— Talvez seja a paciência a dica mais importante. Precisamos exercitá-la, além do respeito pelos seres que nos incomodam. A ciência da paz nos incita a parar de guerrear. Na guerra, não há lugar para a tolerância. Há espaços apenas para um combate que fere e destrói ambos os lados. Se você não deseja se destruir pare de guerrear.
         O Girassol se surpreendeu, parecendo ter sido tocado em suas raízes pela última sentença do amigo. Pensativo, calou-se, dando mais espaços para a preleção do Amor-perfeito perdurar:
— Uma dica também importante é nos comprometermos a curar o nosso olhar. Precisamos fixá-lo na nossa beleza e na beleza de nosso jardim e não somente numa única flor que não consegue florir. Esta flor não é nosso jardim. O nosso jardim somos todos nós.
         Naquele momento, uma luz verde pareceu inundar o ambiente. Alguma coisa diferente parecia estar brotando no âmago de cada flor ali presente. Percebendo as nuanças de uma mudança, Amor-perfeito prosseguiu, proferindo:
— Consigo sentir agora a esperança em cada um de vocês. Era o que nos faltava. Precisamos substituir nossas expectativas pela esperança. Ela nos nutre e não habita apenas o aqui/agora. Ela reside no infinito, que abriga soluções para algum momento ou lugar dos quais não temos domínio e poder.
         Finalizada a prédica do Amor-perfeito, todas as flores reverenciaram-no com seu perfume. Adotaram dali para frente uma postura tolerante para com aquela misteriosa e mal humorada flor. Quanto a ela, continuou incomodando, no entanto, o posicionamento de todas as flores perante este incômodo mudou significativamente. Seguindo as orientações do Amor-perfeito, o incômodo pareceu ter diminuído num passe de mágica e o que restou dele passou a ser encarado como um adubo para o crescimento de cada flor ali existente.
         Aquela flor jamais se abriu. Um dia, sem que ninguém soubesse compreender os motivos, ela foi arrancada daquele jardim. Um beija-flor, que acompanhou tudo de perto, disse que ela foi replantada em outro lugar. Só não sabemos ainda se ela vai florir. O que você acha? Eu só sei que, fertilizada pela tolerância, a gente consegue ter, no mínimo, esperanças.

Que ela desabroche!

sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

FELICIDADE



“FELIZ AQUELE QUE MESMO TRANSITANDO EM SUAS TRISTEZAS, CONSEGUE EQUILIBRAR-SE, NEGANDO-SE CARREGAR UM PESO CAPAZ DE ABALAR OU DESTRUIR O ALICERCE DE SUA FELICIDADE”


FELICIDADE


Felicidade é um prato constituído por uma multivariedade de ingredientes saudáveis. Algumas pessoas demonstram grande dificuldade para prepará-lo, pois exigem ter em suas prateleiras todos os ingredientes que o hipermercado da vida tem para oferecer. No entanto, o grande segredo para uma boa nutrição não repousa na quantidade de elementos a serem utilizados, mas na sabedoria de aproveitar ao máximo as propriedades nutritivas de cada alimento que o indivíduo tiver acesso.



CUSTO



Felicidade tem um alto custo para os exigentes que acabam pagando o preço da indigesta frustração e desenvolvendo a falsa crença de que este prato é uma ilusão. E nada custa para quem sabe humildemente fazer combinações saudáveis.



TIRA GOSTO


REMEXENDO A FELICIDADE


REMEXI A FELICIDADE
ENCONTREI O AMOR ACARICIANDO
A ALEGRIA GARGALHANDO
A SAÚDE TONIFICANDO
A CRIATIVIDADE IDEALIZANDO
A VERDADE REVELANDO
A SOLIDARIEDADE DOANDO
O DINHEIRO FACILITANDO
O TRABALHO EXECUTANDO
A FÉ ILUMINAMDO
A CORAGEM ENFRENTANDO
A LIBERDADE DESAMARRANDO
O PRAZER GOZANDO
O TESÃO DESEJANDO
O MISTÉRIO DESAFIANDO
O RESPEITO REVERENCIANDO
O PERDÃO ACEITANDO
A HUMILDADE VALORIZANDO
A SIMPLICIDADE DESCOMPLICANDO
A TOLERÂNCIA SUPORTANDO
A CONFIANÇA DESARMANDO
O HUMOR BRINCANDO
A PACIÊNCIA ESPERANDO
O DIVINO ME ORIENTANDO
MEXA UM POUCO MAIS
E, NESTE REMELEXO
ENCONTREI VOCÊ
REPLETO DISTO TUDO
FINALMENTE EXCLAMANDO
MAIS PARA DENTRO DO QUE PARA FORA,
MEIO SEM JEITO
COM RECEIO NÃO SEI DE QUE,
COMO SE QUISESSE GUARDAR
OU MANTER ESCONDIDO
DUAS PALAVRAS MÁGICAS:
“TE AMO”!
ESTA MÁGICA
QUE ME TOCA
SEM TRUQUES,
FAZ MEU CORAÇÃO GRITAR
SEM QUERER GUARDAR
O QUE PRECISA COMPARTILHAR:
“QUE FELICIDADE!”


INGREDIENTES



Todos que você tiver acessível nas prateleiras de sua vida e que mais combinarem com o seu desejo e paladar no momento. Não tente e nem deseje preparar este prato com ingredientes acessíveis nas prateleiras de uma vida que não seja a sua. Aquilo que ainda não lhe foi dado pela vida poderá lhe causar intoxicação. Assim como nosso corpo, nem tudo nossa alma está preparada para digerir.


PREPARO



Acho que não existe alguém neste mundo que nunca tenha provado um mexido, um mexidinho ou um mexidão. Mexido pode ser uma mistura pequena, média ou grande. O sabor deste prato dependerá muito mais da forma como você irá prepará-lo e saboreá-lo do que dos ingredientes a serem utilizados. Se você possui a consciência de que poderia utilizar dez ingredientes, mas só possui cinco, não desista de preparar o mexido da felicidade em função desta limitação. Preparando-o com amor e estando atento a degustar com prazer o sabor de cada ingrediente utilizado, o seu mexido ficará, sem dúvida, uma delícia!
Satisfaça com aquilo que possui e lembre-se que, em cada momento de sua vida, os ingredientes acessíveis serão certamente diferentes. Daí, ao longo de sua jornada por este mundo, você terá oportunidade de preparar vários mexidos diferenciados. No final das contas, nunca saberá ao certo qual deles ficou mais gostoso, no entanto, jamais esquecerá que, além de deliciosos, mataram a sua fome.
Um alerta! Se não der para preparar um mexidão, contente-se com um mexidinho e bom apetite!


SOBREMESA


MEXIDO DE FELICIDADE


Em algum lugar que não sei bem onde, morava uma bruxa misteriosa e bondosa que trazia consigo a receita da felicidade. No nosso mundo, sempre ouvi muitas pessoas dizerem que a felicidade não existe, que o que existe são apenas momentos felizes. Esta maneira de pensar sempre me deixou confusa pois, na verdade, nunca consegui sentir a felicidade como um momento, sempre a senti muito forte vibrando dentro de mim. Foi assim que resolvi consultar a minha intuição para que ela pudesse me levar até a tão famosa bruxa que, com certeza, me ofertaria a tão desejada receita da felicidade. De posse dela, eu a eternizaria dentro de mim, sem deixá-la jamais correr o risco de se tornar um momento fugaz.
Fui atrás da tal bruxa. Para encontrá-la tive que escalar a dura realidade e adentrar em meus sonhos e fantasias. Sem saber como, me vi repentinamente defronte de uma mulher que não tinha cara de bruxa; tinha cara de criança, corpo de adolescente, jeito de adulto e sabedoria de quem já viveu muito. Com uma colher minúscula, ela mexia uma porção invisível dentro de um minúsculo tacho de cobre. Inspirava com prazer o aroma de seu preparado e experimentando-o, deleitava-se dizendo:
— Que delícia!
A expressão de felicidade que aparecia em seu rosto desencadeou em mim um enorme desejo de provar também a sua porção mágica, apesar de não conseguir enxergar nada dentro daquele tacho. Antes que eu lhe pedisse um pouquinho de seu preparado ou fizesse qualquer pergunta ou apresentação referente à minha pessoa, ela procurou certificar-se da minha presença afirmando com toda certeza:
— Aposto que veio à procura da receita da felicidade.
— Como sabes que vim aqui para isto? - perguntei.
— A sua expressão revela busca e revela dúvida também. Está confusa com alguma coisa?
— Achei o seu tacho pequeno demais para caber um sentimento tão grandioso quanto a felicidade. O mais intrigante é que não consigo ver nada dentro dele e você se delicia com algo que não consigo ver e sentir.
— A felicidade cabe em qualquer lugar, ela não tem tamanho. O seu cheiro e sabor escapa aos sentidos daqueles que não a prepararam. Sendo assim, a minha poção da felicidade só pode ser sentida por mim - afirmou convicta.
— Interessante! Como posso preparar a minha poção? - perguntei exalando curiosidade.
— Tem certeza que deseja ser feliz? – perguntou-me.
— É claro!  - respondi — Há alguém neste mundo que não deseja?
— Há pessoas que desejam apenas a alegria.
— Alegria e felicidade não seriam a mesma coisa?
— Alegria é só um ingrediente da felicidade. Felicidade é um preparado muito simples, porém complexo. Nem todo mundo está disposto a prepará-la. Muitos acham mais fácil comprar nos hipermercados da vida uma substância apetitosa já pronta, ao invés de se dar ao trabalho de preparar algo que leva vários ingredientes.
— Quais os ingredientes necessários para preparar a poção da felicidade?
— Adivinhe! – exclamou a bruxa.
— A única certeza que tenho é que não há espaço para a tristeza neste preparado. – falei convicta.
— Engano seu. Até mesmo da tristeza é possível se retirar um extrato para a felicidade.
Fiquei ainda mais confusa. Tristeza nunca combinou com felicidade em minha filosofia de vida e, naquele momento, aquele ser misterioso  afirmava que ela também poderia contribuir para com a poção do sentimento mais requisitado pelos homens. Vendo a minha expressão de perplexidade, a bruxa continuou:
— Nesta busca por um sentimento tão nobre quanto a felicidade, talvez fosse mais sensato deparar-se com uma fada e, no entanto, você deparou com uma bruxa. Às vezes, achamos que a tristeza nos apresentará a infelicidade e ela muitas vezes vem nos preparar para saborear a felicidade que nos aguarda. Outras vezes, achamos que a alegria é a base da felicidade e ela acaba nos jogando no terreno da infelicidade. Parece um paradoxo viver, mas na verdade o que realmente acontece é que não conhecemos bem a essência dos sentimentos. Todo sentimento tem um tempero. É necessário sabermos usar a dose certa que agrade o paladar ou tirar dele a essência capaz de dar sabor agradável à vida.
— Quer dizer que posso estar triste e estar feliz ao mesmo tempo? Perguntei.
— Não. Você pode estar triste e SER feliz. Estar é diferente de ser. A felicidade não é um estado, mas sim, uma estrutura, ou melhor dizendo, uma construção. Eu diria que ninguém está feliz, uma pessoa é feliz ou não dependendo da obra que realizou em sua própria vida.
— Então, não sou alegre. Eu estou alegre. Nossa, como é difícil diferenciar a alegria da felicidade.
— Sabe por que? – perguntou-me a bruxa rindo.
— Por que?
— Se eu lhe contar uma lenda sobre as travessuras de alguns sentimentos arteiros, você vai entender.
— Conte-me que já estou ficando curiosa.  – solicitei.
— Dizem que o criador realizou uma festa de fantasia onde todos os sentimentos foram convidados. Ninguém soube explicar o por que desta festa, soube-se apenas do resultado dela. Relatam que a alegria foi fantasiada de felicidade, a paixão de amor, a preocupação de interesse, a rebeldia de liberdade, a indiferença de paz e por aí vai. Eles ficaram tão parecidos com estes sentimentos que ficava difícil identificar quem era um e outro. O pior é que eles gostaram tanto de viver a fantasia de ser um sentimento mais nobre que até hoje vivem pregando peças nos mais desavisados.
— Acho que estes sentimentos já me pregaram muitas peças. Daqui para frente tenho que ficar mais vigilante. Mas quero ficar mais atenta à receita da felicidade. É possível você me ensina-la agora?  - perguntei.
— Você veio atrás de uma receita como todos que conseguiram chegar até aqui. Só que daqui você não sairá com receita alguma, mas lhe darei algo mais precioso do que esta receita que você julga existir.
— O que? – perguntei curiosa.
— Lhe darei o tacho para que você prepare a sua própria poção de felicidade.
A bruxa foi até a despensa e saiu de lá com um lindo tacho de cobre na mão. Entregou-o a mim, ordenando-me:
— Não me pergunte mais nada. Vá embora e prepare a sua poção com os ingredientes que desejar. Nunca se importe se alguém lhe disser que algum tempero é picante, azedo, amargo, doce ou salgado. O que importa é a combinação e o sabor final que ele dará ao seu paladar.
Não pude perguntar mais nada, pois sem que eu percebesse já estava de volta. Talvez você esteja se perguntando: De volta para onde? Voltei para este mundo onde as pessoas julgam a felicidade apenas como um momento fugaz. Assim que cheguei, parei para pensar como prepararia este alimento tão importante e cheguei a conclusão que já o ando preparando desde criança, pois olhei para o meu tacho e vi dentro dele um delicioso mexidão. Não sei se você o enxergaria ou sentiria o delicioso sabor dele. Só sei que meu mexido além de simples me alimenta e sempre me dá água na boca.

segunda-feira, 21 de outubro de 2013

LIBERDADE



“ASSUMIR A LIBERDADE É PRENDER-SE À DIFÍCIL RESPONSABILIDADE DE SER DONO DA PRÓPRIA VIDA”




LIBERDADE



Liberdade é um prato que lhe faz adquirir a mais desejável, porém temível e difícil conquista: “ser dono de si mesmo”.



CUSTO



Liberdade não é gratuita, custa direitos e deveres. Os direitos adquiridos possuem o valor de proporcionar-lhe a possibilidade de fazer tudo que desejar. Os deveres lhe concedem o alto preço da responsabilidade de assumir as consequências de todos os seus atos. “Ter direitos custa o dever de assumir riscos e consequências”.



TIRA GOSTO



BICHO HOMEM


PENSAR EM LIBERDADE
É APRISIONÁ-LA
NA GAIOLA DA MENTE
ACORRENTANDO COM A RAZÃO
A NOSSA RAZÃO DE SER


CONQUISTAR A LIBERDADE
PRESSUPÕE JÁ TÊ-LA PERDIDO
LIVRE É
SEM PRECISAR SER
LIVRE DE BATALHAS OU CONQUISTAS


NENHUM BICHO
SUA LIBERDADE QUESTIONA
SÓ O BICHO HOMEM
QUE DONO SE JULGA
DO QUE É INAPROPRIÁVEL


O BICHO HOMEM
FINGE QUE É DONO
AO OUTRO DÁ LIBERDADE
SÓ NÃO CONSEGUE DAR
LIBERDADE A SI MESMO


BICHO HOMEM
PROPRIETÁRIO APRISIONADO
ESCRAVO DE SEUS ESCRAVOS
SABE APRISIONAR
LIBERTAR JAMAIS


QUAL O SENTIDO DA LIBERDADE
PARA O BICHO HOMEM
QUE ESCRAVO DA INSENSIBILIDADE
NÃO SENTE MAIS
O SENTIDO DE SENTIR


BICHO HOMEM
ESPÉCIE QUE SE JULGA
ESPECIAL
ESPECIALMENTE CAPAZ
DO OUTRO SE APROPRIAR E SER APROPRIADO


BICHO HOMEM
APRISIONA OUTRAS ESPÉCIES
APRISIONA A SUA PRÓPRIA
ESTRANHO JEITO DE SER
SER HOMEM


QUE O BICHO HOMEM POSSA
DEIXAR DE SER HOMEM
E  TORNAR-SE BICHO
E COMO BICHO
LIBERTAR-SE



INGREDIENTES


MASSA: Coragem, segurança, independência e responsabilidade.
RECHEIO: Os mais variados direitos que possuir


PREPARO



         É parecido com o preparo de uma pizza. Primeiro prepare a massa, misturando bastante coragem, segurança, independência e responsabilidade. Amasse bem até sentir firmeza, ou seja, produza uma massa homogenia e consistente o suficiente para não agarrar nos dedos de suas mãos. Se estiver agarrando é porque não tem ainda a firmeza necessária para ir ao quente forno da vida. Talvez precise ser mais trabalhada, ou de uma quantidade maior de um dos ingredientes acima. No entanto, quando estiver firme e soltando de suas mãos, disponha-a no tabuleiro de seu ser e jogue por cima o delicioso recheio dos direitos. Unte o tabuleiro com seus deveres, para não agarrar e destruir tudo que foi construído até então. Seguidos todos estes passos, é só colocar para assar numa vida quente que jamais lhe deixará sentir a frieza do exílio e do aprisionamento.



SOBREMESA



CARTA DE ALFORRIA


         Num reino distante existia um rei e uma rainha que aguardavam ansiosos o nascimento de um filho. O feiticeiro da corte previu o nascimento de uma bela menina que foi aguardada com muita alegria por todos.
         No dia do nascimento, todas as personalidades dotadas de poder foram convidadas para presentear a nova princesa com os mais variados dotes que pudessem ofertar à vida da mesma a plena felicidade. Como todo conto de fadas existe uma bruxa má, a dita cuja não poderia deixar de habitar este conto e visitar a bela princesa bem no dia de seu nascimento oferecendo a ela a sua maldição. Pegou a criança no colo e rogou sobre a mesma toda a sua maldade:
— Terás o título de princesa, mas será uma verdadeira escrava!
         Perplexos com tamanha crueldade, expulsaram a maldita bruxa do aposento onde se encontravam todos os convidados. Como ela fora a primeira pessoa a presentear a princesa, os outros convidados trataram de desejar à mesma todas as honrarias e poderes que pudessem libertá-la de tamanho infortúnio.
— Serás sempre a mais linda moça do reino. Ninguém conseguirá ultrapassar a sua beleza. Dona de tanto encanto, jamais correrá o risco de se tornar uma escrava.
— Terás a pele branca e fina como seda, sendo, portanto, impossível confundi-la com uma escrava.
— Terás muitas posses,  serás dona de tudo, sendo, portanto, inadmissível ter um dono.
         O rei na condição de pai lhe ofertou um nome e uma grande pedra valiosa:
 — Dar-lhe-ei o nome de Libéria, que significa livre, para que carregue para sempre em sua identidade a marca da liberdade. Receba também este cristal, para que sua vida possa emanar a energia da prosperidade.
         Por último, apareceu uma respeitável fada que com muita ternura rogou-lhe uma preciosa oferta que, mesmo não sendo compreendida, foi ouvida e aceita por todos sem objeções:
— Ofereço-lhe a sua carta de alforria. Aos 21 anos, poderá desfrutá-la, deste que reconheça o senhor que lhe escravizará por todo este tempo, podendo finalmente se libertar dele.
         O tempo foi passando, a princesa foi crescendo e se transformando, dia após dia, na moça mais bela do reino. Uma complexa rede de artimanhas e defesas era a
 todo o momento montada para impedir que a maldição da bruxa se concretizasse. Todos os desejos da princesa eram satisfeitos imediatamente, não lhe era permitido viver nenhuma frustração. Ao seu lado, sempre existia alguém pronto a atendê-la; jamais experimentava a condição de estar só para não correr o risco de desejar e não ser prontamente atendida. Nunca lhe foi solicitado que desenvolvesse qualquer tarefa; por mais simples que fosse, havia sempre alguém que pudesse desenvolve-la por ela. Era apenas atendida, jamais vivera a experiência de atender alguém.
Sua pele era tão branca e fina que não podia ser tocada diretamente pelo sol. Quando saía para dar um passeio pelos arredores do castelo, havia sempre um guarda-sol a proteger sua pele de qualquer raio solar que pudesse agredi-la.
Enormes espelhos foram espalhados pelas paredes do castelo para que a princesa pudesse se distrair contemplando sua beleza, obstinando-se a buscar sempre a perfeição. Ela era o padrão e a referência de beleza para as outras moças do reino. Todas desejavam ser igual a ela, para que pudessem ter a chance de serem desejadas e apreciadas pelo tão esperado príncipe encantado. Sem perceber, Libéria foi se tornando escrava de sua beleza.
Uma princesa tão bela e perfeita deveria se casar com um príncipe belo e perfeito. Todos os sábios da corte foram convidados para ajudar a escolher um homem que conseguisse se encaixar dentro dos padrões de perfeição exigidos. O tempo foi passando e nenhum jovem conseguia satisfazer as exigências solicitadas. Um clima de ansiedade passou a reinar naquele império de desejos inalcançáveis e a jovem princesa foi ultrapassando a época julgada ideal para um casamento. Para que este problema pudesse ser resolvido sem gerar maiores conflitos, estabeleceu-se que, a partir daquela data, o ideal seria casar-se aos 21 anos. Este passou a ser mais um padrão criado a partir das necessidades da princesa e todas as jovens tratavam de segui-lo, sem questionamentos, para se aproximarem ao máximo do ideal estabelecido.
O tempo continuou passando e finalmente a princesa completou 21 anos. Mais uma vez não foi encontrado nenhum jovem que pudesse satisfazer os padrões de perfeição exigidos para uma princesa de tamanha categoria. Todos se reuniram novamente, tentando criar mais uma forma de solucionar este conflito antes que ele pudesse ser vivido e sentido pela princesa. Sem encontrar uma solução para o mesmo, resolveram consultar a respeitável fada que, no dia do nascimento da princesa, ofertou-lhe um presente incompreensível e misterioso: sua carta de alforria. Indagaram-na sobre a má sorte de Libéria.
— A maldição de se tornar uma escrava não recaiu sobre a nossa querida princesa; no entanto, precisamos libertá-la da má sorte de não ter encontrado ainda um casamento perfeito. A dita carta de alforria que você lhe ofertou em seu nascimento teria a finalidade de libertá-la deste infortúnio?
— Não. A carta de alforria que lhe ofertei a libertaria da escravidão que a bruxa lhe rogou. Respondeu a fada com firmeza.
— Como pode afirmar ser a princesa uma escrava? Perguntaram perplexos.
— Ela é tão escrava quanto cada um de vocês. Continuou a fada.
— Nós não somos escravos. Afirmaram.
— Vocês são escravos de sua cegueira, ou seja, de tudo que não conseguem enxergar.
         Sem quererem enxergar aquilo que os escravizava, mas sentindo-se responsáveis pela liberdade da princesa perguntaram ansiosamente:
— Diga-nos então o que podemos fazer para libertar pelo menos a nossa princesa, para que ela possa finalmente se casar.
— Deixe que ela se case primeiro com ela mesma. Proferiu a fada, com sabedoria.
         Todos se entreolharam confusos. Nunca ouviram falar que alguém pudesse casar consigo mesmo. Desesperados, sem encontrar saída para aquela situação conflituosa, apelaram para a sabedoria da tão respeitável fada, depositando sobre a mesma toda a esperança. Trataram rapidamente de providenciar o encontro da princesa com aquela entidade misteriosa e, ao mesmo tempo, fantástica, que a libertaria.
         Diante do espelho Libéria se enfeitava e contemplava sua beleza. Viu repentinamente a imagem da fada refletida ao lado da sua. Surpresa, perguntou:
— Quem é você?
— Eu sou sua fada madrinha.
— O que faz aqui?
— Eu vim finalmente entregar-lhe o presente que lhe ofereci há 21 anos.
— Obrigada! Pode deixá-lo sobre a mesa que tratarei de abri-lo e apreciá-lo. Agradeceu a princesa.
— Ao invés de abri-lo, terá primeiro que se abrir para ele e ao invés de apreciá-lo, terá de conquistá-lo. Ponderou a fada.
— Que tipo de presente é este? Recebi presentes durante toda a minha vida. Sempre segui o ritual de abri-los, apreciá-los e fazer uso deles. Isto é tudo que sei fazer com aquilo que me é oferecido. Explicou Libéria.
— Trago-lhe um presente diferente de tudo que já recebeu. Aliás, trago-lhe pela primeira vez a possibilidade de experimentar um sabor que desconhece.
— Que sabor desconheço? Perguntou Libéria
— Você desconhece o sabor das conquistas. Tudo lhe foi dado, você nunca precisou conquistar nada. Você tem tudo e ao mesmo tempo não tem nada. Tudo que possui foi conquistado graças ao suor de uma outra pessoa, que você nem mesmo se deu ao trabalho de saber quem. Além de suar para você, este outro também desejou para ti aquilo que você inocentemente julgou ter desejado. Na verdade, tudo que deseja é uma extensão do desejo do outro. Da vida você pouco conhece e é justamente o conhecimento da mesma que nos permite desejar ardentemente ou colocar limites aos nossos desejos.
         A princesa ficou muito assustada com tudo aquilo que a fada acabara de lhe dizer. Mesmo sem arredar o pé da frente do espelho, sentiu-se jogada num mundo completamente diferente. Num passe de mágica, a imagem que viu diante de si não era mais daquela princesa que por anos se contemplou cheia de vaidade. Viu a imagem de uma mulher feia, comodista, fútil, insegura e sem vitalidade. Pela primeira vez, experimentou o sabor do desespero e, tomada  pelo mesmo, jogou sobre o espelho o cristal presenteado pelo seu pai no dia de seu nascimento, simbolizando a prosperidade que tanto desejava à filha. O espelho se espatifou em pedacinhos,  ferindo as mãos da princesa. Imediatamente, vários servos se aproximaram assustados, recolhendo a princesa com a finalidade de providenciar os recursos necessários para tratar do seu primeiro ferimento. A fada se interpôs-se com firmeza, expulsando-os daquele aposento:
— Deixem Libéria tratar de si mesma.
— Eu não sei tratar de minhas feridas! Exclamou Libéria tomada de pânico.
— Aprenda! Desafiou a fada.
— Como aprender, se nunca me ensinaram? Questionou a princesa.
—Às vezes, é necessário ensinarmos a nós mesmas a melhor maneira de agir. Expôs a fada com sabedoria.
— E como se faz isto?
— Experimentando.
— O que devo experimentar agora? Perguntou Libéria ansiosa por uma resposta.
— Experimente o presente que estou lhe oferecendo. Respondeu a fada, cheia de entusiasmo.
— Que presente é este que está me oferecendo e que eu não consigo enxergar?
— Na verdade, já está começando a enxergar este presente, só não sei ainda se vai apreciá-lo e querer usufruí-lo.
— Não estou conseguindo entender nada. Seja mais clara e me fale que presente é este. Solicitou com imposição a princesa.
— Eu lhe trouxe a sua carta de alforria.
— Para que serve uma carta de alforria?
— Para liberta-la.
—Libertar-me... Como assim, não entendi.
         A fada contou à princesa toda a história de seu nascimento, história até então desconhecida. Libéria ficou indignada com o destino que lhe impuseram. Percebeu que não fora, até então, dona de sua própria vida e que em nenhum momento lhe foi permitido escrever nem uma linha sequer de seu destino. Decepcionada, perguntou à fada:
— Quer dizer que sou uma escrava vestida de princesa?
         Sem responder diretamente a sua pergunta, a fada lhe fez uma outra, que pudesse forçar a princesa a pensar sobre a sua condição.
— Você se sente livre?
— Nunca pensei e nem me dei conta disto. Pela primeira vez, você está me fazendo pensar sobre alguma coisa. Acho que me tornei escrava da minha alienação, dos desejos que todos tiveram de me fazer feliz, enfim, me tornei escrava de um grande vazio.
— Libertar deste vazio pressupõe assumir uma série de responsabilidades. Advertiu a fada madrinha.
— Sinto que não conseguirei voltar atrás depois desta tomada de consciência. Eu não sei ainda se eu era feliz ou infeliz absorta em tanta alienação. Eu só sei que o momento presente me solicita que eu seja eu, e a única coisa que sei a meu respeito é que sou Libéria. Como Libéria, eu carrego a liberdade em minha identidade e desejo experimenta-la.
— A sua tomada de consciência se transformou na valiosa carta de alforria que lhe presenteei. Agora você é finalmente livre para escolher ser escrava ou dona de si.
— Quer dizer que se é livre para escolher, inclusive ser escravo?
— Se é livre para escolher ser dono de si e escravo, se é livre para escolher pela vida e pela morte, se é livre para escolher ser feliz ou infeliz, enfim se é livre para SER. A liberdade não é uma forma ou condição de ser, a liberdade é, na verdade, um espaço de escolha. No entanto, só conseguimos ocupar este espaço quando tomamos consciência da sua existência. Elucidou a fada.
— Então, liberdade não é poder fazer tudo aquilo que se deseja? Perguntou Libéria.
— Você tem a liberdade de fazer até mesmo aquilo que não deseja. Na verdade, o ser humano tudo deseja, mas existem limites que restringem a satisfação destes desejos. Ser livre não pressupõe jamais não ter limites. Ser livre é poder administrá-los. A consciência destes limites nos permite usar a nossa liberdade com mais sabedoria.
— Talvez liberdade seja a conquista do poder de administrar a nossa própria vida. Concluiu Libéria.
— Administrar bem ou mal. Finalizou a fada, sorrindo.
         Libéria agradeceu muito o presente que sua fada madrinha lhe ofereceu. Apesar de doloroso, fora também o presente mais valioso que recebeu em sua vida. Quanto ao destino desta princesa, poucos souberam me informar. Fiquei sabendo apenas que não aceita mais babás ao seu lado, apanha sol todas as manhãs tomando os devidos cuidados com os raios ultravioletas, que chegaram a lhe causar, numa certa ocasião, uma terrível insolação por ter abusado e não reconhecido os limites saudáveis ao corpo. Aprendeu também a tratar de seus ferimentos sozinha, mesmo carregando algumas cicatrizes pelo corpo. Dizem que demorou muito a se casar, pois afirmava estar em lua de mel consigo mesma. Muitos acharam que estivesse ficando maluca, mas parecia não estar nem ai para qualquer comentário que fizessem a seu respeito. Quando. Finalmente, decidiu se casar, tudo indica que não escolheu um príncipe encantado. Escolheu um homem que parecia não ser perfeito, pois ela dizia ter casado bem as imperfeições dele com as suas, administrando-as da melhor maneira possível.
         Não conheci a Libéria desta história, mas conheci inúmeras Libérias ao longo de minha vida. Tem uma inclusive que nasceu e reside dentro de mim. Ela está agora me fazendo um pedido que deverá ser repassado a todos vocês:
— LIBERTE-SE!
         No entanto, se você é daqueles que possui muito medo da palavra liberdade, ela lhe sugere uma outra:

— ADMINESTRE-SE! 

terça-feira, 27 de agosto de 2013

GRATIDÃO


DEUS NÃO POSSUI DÍVIDAS E NEM CRÉDITOS.

AGRADEÇA AO INVÉS DE DIZER: — DEUS LHE PAGUE!”

GRATIDÃO


         Quem consegue ter à mesa este alimento, consegue diante da fartura ou mesmo da falta, sentir que a vida é bela e nutritiva.


CUSTO


         Você só tem a ganhar investindo na gratidão, pois mesmo diante dos maus investimentos você estará propenso a procurar a lucratividade em algum ponto do mesmo. Agindo assim, nunca se sentirá subtraído.


TIRA GOSTO


OBRIGADA


OBRIGADA

POR TER SIDO

GRATUITO

E NÃO SENDO OBRIGADO A NADA

REALIZOU A MAIOR OBRIGAÇÃO

NÃO OBRIGAR

ABRIGANDO

POR NADA


INGREDIENTES


Amanteigada aceitação

Mel da valorização

Pó da resignação


PREPARO


         Vocês já comeram a deliciosa banana caramelada? O preparo da gratidão é parecido. Agradecer o que a gente sempre desejou é fácil, o difícil é adquirir a capacidade de agradecer aquela experiência não requisitada pelo nosso ego, mas sem que a gente saiba, nutritiva para a nossa alma.

         Nesta vida há muitas experiências que precisam ser “descascadas” para melhor serem compreendidas. Comer banana com casca e tudo pode ser bem indigesto para quem possui uma digestão difícil. Sendo assim, descasque aquela experiência que você precisa digerir. Descubra que o interior de uma casca aparentemente dura pode conter um fruto extremamente nutritivo. Para que este fruto fique bem saboroso, passe sobre o mesmo a amanteigada aceitação, o mel da valorização, polvilhando ao final com o pó da resignação.

Leve ao forno quente de seu coração e bom apetite.


SOBREMESA


HONRANDO A VIDA


         Doído, porém sereno, diante da maior tragédia que um ser humano é algumas vezes obrigado a suportar, estava um iluminado pai perante a perda de seu único filho. Os amigos chegavam a todo o momento com a intenção de consola-lo. Nenhum deles conseguia colher palavras que pudessem justificar ou preencher o vazio que aquela perda tão significativa impunha àquele pai. No entanto, palavras faltavam apenas aos amigos. Dentro de seu peito doído saíram sábias citações que surpreenderam a todos.

— Tenho tanto a agradecer! Entoou o pai diante daquela perda.

         Ninguém entendeu como um homem pudesse ter naquele momento de tamanha lesão agradecimentos a fazer. O mais inconsolável dos amigos, revivendo projetivamente aquele momento doloroso, iniciou uma lamentação que denotava claramente a projeção da morte de sua querida esposa:

— Eu não posso aceitar isso! É horrível e inaceitável ele ter morrido!

         Inundado por lágrimas que faziam escorrer pelos seus olhos um sofrimento fácil de compreender, o enlutado pegou a mão fria do amigo, olhando-o no fundo de seus olhos  pronunciou a mais sabia experiência de vida que um ser humano é capaz de adquirir:

— Foi simplesmente maravilhoso ele ter vivido. Sinto agora mais do que nunca que o maior presente que ganhei nesta vida foi este meu único e querido filho.

— De que adianta este presente se ele lhe foi roubado? Deus não foi justo com você. Como pode ter tirado de um homem tão bondoso a sua única joia preciosa? Questionou o amigo roendo antigas revoltas e insatisfações dentro de seu ser.

— Deus não roubou o meu filho. Pelo contrário, ele me presenteou durante anos com sua magnífica presença. Eu não tenho como lamentar a dádiva e alegria de tê-lo vivido. Pior seria não ter tido a benção de tê-lo merecido.

— De que adianta esta gratidão se não pode vive-lo mais agora? Interrogou-lhe o amigo — A garantia de tê-lo para sempre é que mereceria gratidão.

— Aquele que expressa reconhecimento apenas fazendo barganhas é, na verdade,  um grande ingrato que só consegue regozijar-se se tiver a eterna garantia de que só irá receber e nada mais. A gratidão não pressupõe retribuição de cortesias. Este tipo de comportamento é típico de seres egoístas que jamais conseguem retribuir a alegria recebida e vivida. Assegurou-lhe aquele pai diante da revolta do amigo.

         Não havia palavras que pudessem rebater a revolta e inconformismo do amigo que sem delicadeza alguma ironizou com aspereza:

— E por acaso, você está alegre de ter perdido seu filho?

— Estou muito triste. É como se eu tivesse perdido uma parte do meu ser. É como se tivessem amputado um pedaço da minha vida. A angústia queima dilacerando o meu peito, mas tenho consciência de que preciso curar esta dor. Eu não posso deixar que ela aniquile este pleno ser que me habita. Eu não posso deixar que a dor faça comigo o que fez com você. Advertiu, pacientemente, o pai em confronto com a revolta do amigo.

— E o que você acha que a dor fez comigo? Perguntou o amigo querendo checar a imagem que estava passando para as pessoas.

— A sua dor deixou que a revolta, o rancor e o ódio tomassem mais força que o amor, a alegria e a gratidão que lhe habitava. Hoje você se transformou numa pessoa fraca, pois tem se deixado ser dominado por sentimentos pequenos que roubaram o encanto de seu passado, de seu presente e de toda a beleza que lhe aguarda no futuro.

         Em prantos o amigo começou a chorar a morte da mulher. Aquela visita era muito mais uma visita à sua dor do que à dor do amigo que acabara de perder o filho.

— Desculpe-me! Eu precisava estar aqui para ajuda-lo e não para falar de minha dor. Mas a minha dor é tanta que não consigo ser solidário com você neste momento tão difícil. Eu não posso aceitar não vive-la. Jamais irei me conformar com a perda de minha esposa.

— A sua dor não trará a sua querida esposa de volta e nem fará com que ela perceba o amor que nutre por ela. Pelo contrário, a energia negativa desta dor só a manterá cada vez mais distante de você. O negativo repele tudo aquilo que é saudável. Se continuar assim, daqui um tempo perderá todas as boas lembranças que possui dela por estar se nutrindo apenas de sentimentos venenosos que roubarão toda a sua vitalidade. Restarão para você apenas lembranças de infortúnios e com a mente limitada só será capaz de enxergar o mal.

— Me diga então o que você fez para se conformar. Suplicou-lhe o amigo inconformado.

— Aprendi a aceitar a vida tal qual ela é e não como a minha imaginação gostaria que ela fosse. Tente prestar atenção na palavra com – formar. Conformar é dar à vida a forma que lhe pertence. É como se ela fosse um quebra-cabeça onde as peças possuem formas especiais que se encaixam cada qual no seu espaço e não no espaço que gostaríamos que elas se encaixassem. Sua mulher é uma peça que pertence a uma parte de seu quebra-cabeça que já foi montada. Não adianta você querer monta-la novamente, pois este pedaço já está terminado. O quebra-cabeça da vida é um pouco diferente de nossos brinquedos. Depois que você consegue encaixar uma peça no seu lugar, ela jamais é descolada dali. Ela vira uma coisa chamada passado que ninguém consegue mudar. Aprenda a admirar a parte de seu quebra-cabeça que já foi montada e se comprometa a encaixar as peças que ainda estão soltas esperando você se prontificar a encaixa-las no lugar certo. Tentar encaixar uma peça num local errado só atrasa nosso processo de construção. Precisamos armar nosso quebra-cabeça e agradecer cada parte que foi montada. Não seria nada agradável partir desta vida com ele todo desajustado. Este quebra-cabeça é grande demais para alguns e menores para outros. Cada experiência, cada pessoa que cruza o nosso caminho é uma peça. Alguns precisam de muito tempo para ajustar no lugar certo tantas experiências e pessoas que lhe cabem. Outras precisam de um tempo menor. Espero que você saiba aproveitar bem o seu tempo. Aconselhou o pai enlutado.

— Pois saiba que a morte bagunçou o meu quebra-cabeça.

— Engano seu. A morte não destrói e nem anula aquilo que foi vivido. Tudo que você construiu continua intacto em suas lembranças. Você pode viver estas lembranças com saudade ou com revolta. A escolha é sua. A sabedoria reside na capacidade de agradecermos a alegria daquilo que foi. Pare de alimentar o pesar daquilo que não pôde ser. Solicitou com firmeza o amigo pai.

— A morte pode não ter me roubado o passado, mas me privou de meu presente e de meu futuro. Lamentou o amigo.

— A morte pode ter lhe privado do presente e do futuro que sua limitada imaginação impôs a você. Quanto a isto eu só tenho dois conselhos a lhe dar. O primeiro é que o futuro não existe e nem mesmo nos pertence. Daí, não tente viver algo que não é seu. O segundo conselho é tornar-se capaz de presentear-se com o presente. O passado é o quebra-cabeça formado e o presente é a peça que você se dispõe a encaixar agora. Que seja a peça da gratidão de estar VIVO e de ter a graça de ser VIVO.

         Naquele momento os dois se entreolharam e lá no fundo de seus olhos apareceu uma peça do quebra-cabeça que finalmente se encaixou no lugar certo. Surgiu dali um grande abraço que encaixou um corpo no outro externando uma empatia e afinidade muito especial que aquele momento de tanta dor presenteou aos dois.

domingo, 11 de agosto de 2013

SOLIDARIEDADE

“DAR E RECEBER SÃO AS DUAS FACES DA MOEDA MAIS PRECIOSA QUE GOVERNA A VIDA”
  
SOLIDARIEDADE 


Solidariedade é um caldo que nos fortalece nos momentos em que nos encontramos mais frágeis e nos permite desenvolver o sentimento de reciprocidade, interesse comum e responsabilidade para com a humanidade.


CUSTO


Por ser uma doação, custa apenas a nossa entrega.



TIRA GOSTO


BRAVA GENTE


A ENCHENTE CHEGOU
CARREGANDO TUDO
SÓ NÃO CARREGOU
O BRILHO DOS ESTRÁBICOS OLHARES
O DOCE SORRISO DESDENTADO
AS CÁLIDAS MÃOS
DAQUELA BRAVA GENTE
QUE IMERSAS NA ÁGUA SUJA
INFECTAVA O CORPO
LAVANDO A ALMA
QUE CRISTALINA DESLIZAVA
SOBRE A FORTE CORRENTEZA
ACOLHENDO COM BRAVURA
A FRÁGIL E IMPOTENTE
CONDIÇÃO DE SER HUMANO
QUE MESMO SEM TETO
ABRIGAVA COM O CORAÇÃO



INGREDIENTES


        
Uma grande quantidade de interesse comum.



PREPARO


        
         Você entenderá perfeitamente a maneira de preparar este caldo se compreender o conteúdo do refrão da música: “Bota água no feijão que chegou mais um, chegou mais um, chegou mais um...”
         Qualquer prato que você estiver preparando pode ser transformado no nutritivo banquete da solidariedade. Basta você transferi-lo para o grande caldeirão da responsabilidade e acrescentar o interesse comum,  para que ele possa se multiplicar e ser devidamente dividido com quem precisa dele se nutrir.
         O milagre da multiplicação não aconteceu apenas com o grande mestre Jesus, mas vem acontecendo todos os dias com aqueles sábios cozinheiros que aprenderam a transformar um prato comum no tão indispensável alimento solidário.



SOBREMESA



O ENDEREÇO DA RIQUEZA


         Ávido por conhecer o mundo, um homem tudo largou e partiu sem destino a qualquer lugar que pudesse ensina-lo algo. Cruzando montanhas e vales, atormentado pela sede e pela fome, bateu à porta de um suntuoso castelo solicitando um copo d’água e um prato de comida.
— Aqui nada temos para oferecer-lhe.  Disse, com arrogância, uma luxuosa mulher.
         O homem partiu carregando consigo o peso de um corpo sedento. Logo adiante, num humilde casebre, uma moça maltrapilha estendia algumas roupas íntimas no varal à frente da casa. Assustou-se com o pobre homem que, repentinamente, apareceu à sua frente, olhando-a cabisbaixo. Desalentado e frágil, não ousou pedir nada, mas uma voz suave ressoou como uma melodia em seus ouvidos:
— Você me parece tão abatido! Venha, lhe darei comida e água.
         Depois de muito comer e beber, satisfeito e revigorado, perguntou à humilde moça:
— Onde mora a riqueza?
— Por que queres saber?
— Por estar demasiadamente confuso. Encontrei a miséria num suntuoso castelo e a abundância num humilde casebre.
— Somente com os olhos jamais conseguiremos enxergar, compreender e perceber o que mora no coração. Advertiu a moça com sabedoria.
— Como assim? Perguntou o homem.
— A riqueza não habita os grandes castelos. A riqueza habita os grandes corações. Não há lugar para a miséria nas pessoas de grande coração. Finalizou a moça.
         O homem sorriu, agradeceu e partiu satisfeito, certo de ter feito uma grande descoberta.