sexta-feira, 19 de julho de 2013

AMIZADE

AMIZADE
  

          A amizade é um delicioso chá que é, ao mesmo tempo, estimulante e tranquilizante. Tem o poder de aliviar aqueles sintomas indesejáveis da solidão e  faz com que nos sintamos inteiro, mesmo quando estamos juntando nossos cacos.



CUSTO

          
  Não se paga nada por uma amizade, apenas se ganha o prêmio de amar e ser amado. É bom estar atento, pois se estiver pagando alguma coisa é porque não se trata de uma amizade sincera. Existem pessoas ciumentas e possessivas que, no auge de suas paixões, não conseguem ser um amigo e não  permitem tê-lo por perto. Cuidado com elas, pois são capazes de fazer você pagar caro por uma amizade que não lhe custa nada; que lhe custa apenas o direito de ser feliz e de ter alguém que também te ama.



TIRA GOSTO

AMIGO DO INIMIGO


INIMIGO
AMIGO QUE NÃO PÔDE SER
NÃO SENDO
DEIXOU DE SER
ELE MESMO
BRIGANDO CONSIGO
BRIGANDO COMIGO
BRIGANDO CONTIGO
UMA BRIGA SÓ SUA


AMIGO
INIMIGO QUE NÃO PÔDE SER
NÃO SENDO
DEIXOU DE SER
RÉU
VÍTIMA DE SI
MINHA VÍTIMA
SUA VÍTIMA
UMA VÍTIMA NO MUNDO

VITIMADO
PELO RÉU QUE O HABITA
O INIMIGO APRISIONA O AMIGO
EM SUA NECROZADA FERIDA
QUE AMPUTA
COM O BISTURÍ DA VINGANÇA
UM PEDAÇO DE SI
LIMITANDO-SE

ESTIMADO
PELO SER QUE O HABITA
O AMIGO TRANSFORMA O INIMIGO
LIBERTANDO O RÉU
APAZIGUANDO A VÍTIMA
CURANDO A FERIDA
COM A INSTRUMENTAL SABEDORIA
QUE O ENGRANDECE

AO AMIGO
BASTA SER
AO INIMIGO
TRANSFORMAR-SE
NO INTERIM DA TRANSFORMAÇÃO
SÓ O AMIGO
FAR-SE-Á DO INIMIGO
UM AMIGO


INGREDIENTES

Cuia do Amor
Fluido da disponibilidade
A bombinha da abertura
Ervas da alegria, da solidariedade, da sinceridade, enfim, escolha a erva que melhor fizer a sua cabeça no momento em que estiver precisando dela.


PREPARO



         A forma de se preparar e tomar este chá é muito parecida com o preparo do chimarrão gaúcho. Se você for gaúcho, vai entender facilmente como se prepara o chá da amizade. Se não for e se nunca tiver ouvido falar ou experimentado um saboroso chimarrão, preste bastante atenção, que lhe explicarei com detalhes cada passo.
1º Passo: Você terá que adquirir primeiro a cuia do amor, pois este chá só é passível de ser preparado dentro da mesma. Mesmo que não tenha conhecimento, todos nós temos esta cuia em algum lugar do nosso ser. Ela é uma cabacinha em forma de coração que, após ser devidamente trabalhada se transforma em cuia do amor. Se você não a encontrou é porque a deixou jogada.  Procure em suas despensas, em seus armários, em suas gavetas, enfim faça uma faxina na vida que você há de encontrá-la. Às vezes precisamos arruma-la melhor, jogando fora aquilo que não nos serve mais ou que está nos entulhando. Aliviando e ampliando os nossos espaços, finalmente poderemos encontrar o que precisamos e o que realmente nos faça bem. Fique atento, pois tenho observado que as pessoas que possuem maior dificuldade para encontrar a sua cuia são justamente aquelas que estão com a vida entulhada de trabalho, preocupações, obrigações, enfim com coisas deste gênero.
2º Passo: Assim como é necessário esquentar a água para regar a erva mate do chimarrão, é também necessário esquentar o fluido da disponibilidade para regar o chá da amizade. Ele não deverá ser servido frio e nem fervente demais. O ponto da disponibilidade adequada é aquele que não queima as suas obrigações e nem congela os seus prazeres.
3º Passo: Coloque a erva que desejar dentro da cuia. Para o chimarrão, você utiliza a erva mate, mas para o chá da amizade você poderá utilizar a erva que mais fizer sua cabeça num dado momento. Se estiver precisando de alegria, use a erva da alegria, se estiver precisando de solidariedade, use a erva da solidariedade; se estiver precisando de aconchego, use a erva do aconchego; se estiver precisando da verdade, use a erva da verdade e por aí vai. Sendo assim, coloque a erva desejada até um pouco mais que a metade da cuia. Não exceda na quantidade, pois tudo em excesso enjoa, gera desperdício e atrapalha. Tampe a abertura da cuia, vire-a e deixe a erva deslocar para apenas um lado da mesma, sobrando um espaço do outro, onde serão inseridos o fluido da disponibilidade e a bombinha da abertura. Se este espaço não for criado dentro da cuia do amor, não haverá como a erva da amizade ser comungada posteriormente. Sem espaço para a disponibilidade e para a abertura, não há como saborear este chá.
4º Passo: Jogue cuidadosamente o fluido da disponibilidade no espaço reservado ao mesmo. Este fluido irá fluidificar a erva, que só poderá ser saboreada se a bombinha da abertura for inserida, servindo de canal para que, através dela, você possa ingerir o delicioso chá da amizade. Não há nada que flua sem abertura.
5º Passo: Considerado o mais importante. É o momento do compartilhar. O chá da amizade não foi feito para ser saboreado isoladamente, a menos que você deseje ser amigo apenas de si mesmo. Em alguns momentos da vida é válido este comportamento isolado de compartilhar apenas a nossa companhia. É também uma grande conquista aprender a ser um bom companheiro de si mesmo. No entanto, nunca devemos deixar de oferecer esta receita ao próximo num ritual de comunhão. Todos deverão compartilhar a mesma cuia, a mesma erva, a mesma bomba de abertura. Quem estiver fechado e for muito escrupuloso, jamais conseguirá provar deste chá. No entanto, aos receptivos, o chá estará oferecendo a tão indispensável amizade que inunda a nossa vida com sentimentos e experiências fundamentais ao nosso desenvolvimento.
Observações: Não há espaços para os egoístas neste ritual de comunhão. Todos deverão ter a sua vez de saborear todo chá que se encontra dentro da cuia. Não queira passar na frente do outro. É fundamental saber reconhecer a sua vez de receber e de doar.
A amizade é, na verdade, uma grande troca. Experimente o chá da troca com seu coração aberto, pois tudo de bom que tiver dentro dele será bombeado diretamente para a alma de seu amigo.
Precauções: Saiba que poderá dar uma grande complicação se usar a erva da paixão na cuia do amor com o intuito de preparar o chá da amizade. A erva da paixão exige algumas coisas que impedem o chá da amizade sair perfeito. Ela exige que o fluido da disponibilidade esteja fervendo em grau de exclusividade, podendo provocar algumas queimaduras. Com muita frequência, esta erva entope a bombinha da abertura, pois adora fechar os espaços impondo apenas a sua presença.



SOBREMESA



O AMIGO DA GUERREIRA E A GUERREIRA DO AMIGO



DEDICO ESTA ESTÓRIA AO AMIGO E AO GUERREIRO QUE TE HABITA


              Esta história aconteceu com dois seres que habitavam dois mundos totalmente diferentes. Ambos viviam felizes, cada qual no seu mundo, relacionando-se apenas com o conhecido, com o previsível e com o palpável. Todas as faltas e carências eram facilmente superadas, pois o conteúdo para superá-las, por mais escondido que estivesse, estava sempre acessível em algum lugar. Bastava procurar com um pouco mais de perseverança que o encontro com o desejado sempre acontecia. A grande particularidade  desse lugar estava no dote que cada ser recebeu de desejar apenas o possível; sendo assim, possuíam visão para as coisas do seu mundo e eram totalmente cegos para qualquer visão que pudesse ultrapassar os limites daquele suposto paraíso que viviam. Cada ser ali tinha o seu anjo que, serenamente, os conduzia mais cedo ou mais tarde para o tesouro previsivelmente sonhado. No entanto, dois anjinhos curiosos, sapecas e sapientes, cansados de tanta monotonia e previsibilidade, resolveram tramar uma arte que pudesse se transformar numa experiência, que  mexesse um pouquinho com a tamanha estabilidade que aqueles dois mundos ofereciam. Cada anjinho selecionou em seu mundo de guarda um ser bem especial e o dotou de um desejo encantado que ultrapassava os limites de tudo que pudesse ser desejado ali.                                                           
Munidos deste novo instrumento, os dois seres encantados pelo desejo supremo de ir além, lançaram a visão no horizonte e repentinamente descobriram que já não enxergavam como os seus outros irmãos.  Parecia que o mundo tinha ficado maior.  Com esta mudança de visão, algo dentro deles começou também a mudar. Um sentimento diferente começou a dominar o coração que, antes, batia calmo e sereno. O mundo de fora parecia ter ficado maior, mas o mundo de dentro, dos sentimentos, parecia ter ficado menor, pois uma sensação de aperto tomava conta do peito daqueles dois seres escolhidos. Foi assim que uma vontade súbita de caminhar em direção ao horizonte brotou dentro de cada um e num ímpeto de coragem, sentimento até então ignorado, se lançaram em direção ao mundo novo, imprevisível e desconhecido. Caminhavam incessantemente e nunca conseguiam cruzar a linha do horizonte. Neste processo interminável, um novo sentimento começou a tomar conta de cada um; sentimento vazio de difícil denominação. Foi numa tentativa de definir este sentimento que aconteceu, inesperadamente, o encontro dos dois seres encantados escolhidos pelos anjinhos rebeldes.
Caminhando sem saber para onde ir, finalmente se encontraram em um ambiente bucólico e acolhedor. Tocaram-se com um olhar profundo que ultrapassava os limites do visível. Mais uma vez, experimentaram aquela sensação antes vivenciada  em que os olhos refletiam um mundo amplo e infinito e o coração fazia um movimento inverso apertando-se e dilacerando-se diante de um sentimento novo e inexplicável. Mesmo sem saber se a comunicação era possível, atreveram-se a se comunicar e surpresos descobriram que falavam a mesma língua, apenas com um sotaque um pouco diferenciado. Antes de qualquer palavra, brotou um lindo sorriso que colheu lá no fundo de cada ser a primeira indagação. Juntos, com ternura, fizeram a primeira e idêntica pergunta ao outro:                                              
 — Quem é você?
— Na verdade posso dizer-lhe apenas o meu nome, pois estou no momento à procura do meu ser. Respondeu uma bela e serena alma feminina.
— Você não sabe quem você é? Perguntou surpresa a bela e serena alma masculina.
— Não totalmente. E você, sabe quem é?
         Perdido em pensamentos que pudessem exprimir exatamente a essência do seu ser, aquela alma masculina  limitou-se a responder com brandura:
— Talvez eu seja o Amigo.
— Este é o seu nome?
— Sim, este é o meu nome. Você gosta?
— Muito, no entanto, não sei como lhe explicar... Eu gosto sem saber na verdade do que se trata. O que é um Amigo?
— Amigo são tantas coisas... Eu poderia passar o dia inteirinho com você que, ainda assim, não conseguiria definir a dimensão deste ser tão perfeito e indispensável em nossas vidas. Mas, antes de falar mais um pouquinho sobre minha pessoa, eu gostaria de saber pelo menos o seu nome, já que você não se conhece ainda. Quem sabe eu seja a chave de sua descoberta?  Descobrir você pode ser uma surpreendente revelação. Exclamou num tom de brincadeira, dando uma gostosa gargalhada.
— Você me parece bem brincalhão. Isto me agrada.
— Esta é mais uma qualidade do Amigo, saber brincar e alegrar a quem se ama. Você ainda não me falou o seu nome. Acho que vim só para trazer-lhe alegria, me diga quem é.  Perguntou novamente, num tom firme, que denotava a exigência de uma resposta.
— Meu nome não é tão bonito quanto o seu.
— Me diga, pois já estou ficando curioso.
— Me chamo Manca Guerreira
— Engraçado... Gosto do seu nome, mas não sei também o que significa.
— Assim como você, eu poderia passar uma vida inteira ao seu lado que não conseguiria definir a dimensão deste ser tão audaz e indispensável que é o ser guerreiro em nossas vidas. Entretanto, eu tenho o meu lado Manca, que é de fácil definição.
— O que é ser Manca? Perguntou com curiosidade o ser Amigo.
— Manca é o lado que me limita, que me dificulta caminhar.
— Estranho!...Quando olho nos seus olhos vejo um longo caminho. Vejo as suas marcas neste caminho. Você me dá a sensação de ter caminhado muito, vejo muito mais garra do que dificuldades.
— Você brincou comigo, dizendo poder ser a chave da descoberta do meu ser e acabou, neste momento,  revelando mais uma informação importante a meu respeito. Através do meu olhar, você me viu caminhando incessantemente e viu também a manifestação genuína da garra que é o meu lado guerreiro, suplantando qualquer limite que quisesse impedir a minha caminhada. Talvez, mesmo mancando, eu tenha caminhado com a bravura de uma verdadeira guerreira.
         Foi interrompida pelo Amigo que salientou com a convicção de um sábio vidente:
— Eu não te vejo mancando, pelo contrário, eu te vejo caminhando com muita firmeza.
— Ser Amigo é ajudar o outro a se enxergar também? Perguntou Manca Guerreira àquele ser novo que parecia ter sempre um esclarecimento importante a fazer.
— Ser Amigo é isto e muito mais.
— Poxa vida!  Você parece ser grande demais!
— É justamente neste ponto que fico confuso. Na verdade, eu omiti uma parte do meu ser. Eu não me chamo apenas Amigo. O meu nome completo é Amigo Pequeno.
— Amigo Pequeno? Você deve estar brincando comigo. Por que você deseja brincar de ser pequeno?
— Eu não estou brincando, eu falo tão sério quanto você com relação à Manca que te limita.
— Mas eu não consigo ver limites em você. Vejo em teus olhos a grandeza do Amigo. Eu te vejo grande demais, do tamanho do infinito. Você não pode acreditar num limite que não existe, pois qualquer limite é menor do que o seu ser, sendo assim é fácil dominá-los. Falou a Guerreira, num sobressalto, com a intenção de encorajar o Amigo a enfrentar todos os obstáculos.
— Ser Guerreira é ter esta convicção e esta coragem?
— É isto e muito mais. Respondeu com firmeza a doce Guerreira.
— Você me passa a sensação de muita doçura e de muita força. Falou amavelmente a voz amiga
— E você me passa a sensação de acolhimento e confiança. Complementou suavemente a voz guerreira.
         Naquele momento, o mundo ao redor deixou de existir. O masculino e o feminino se fundiram em um só e um mundo novo passou a existir a partir daquele encontro. Os olhares que diziam muito mais do que as palavras, se cruzaram engravidando cada ser com o sublime desejo de ser um pouco mais do que eram há poucos minutos atrás. No deleite do prazer de sentir-se completo durante um momento que poderia ser fugaz e num desejo ardente de eternizá-lo, o grande Amigo Pequeno exclamou exultante:
— Acho que o Amigo precisa da Guerreira para desempenhar bem a sua missão de ser Amigo e poder sentir-se grande.
— Acho que a Guerreira precisa do Amigo para desempenhar bem a sua missão de ser Guerreira e poder se sentir firme. Concluiu com firmeza a Manca Guerreira.
Tudo parecia perfeito e completo, mas um evento novo, lá longe, no horizonte, anunciava o prelúdio de uma nova situação. O casal com um ar nostálgico, passou naquele momento a assistir o pôr do sol que traria a noite e, posteriormente, o nascimento de um novo dia. Com um desejo de eternizar aquele momento, o Amigo falou com ternura:
— Acho que estamos apaixonados. Talvez por isso não consigamos enxergar ainda os limites do outro. A paixão limita a nossa visão, escondendo o feio atrás da ilusão do belo que tanto necessitamos.
— Ou talvez estejamos amando. O amor amplia ainda mais a nossa visão, tornando-nos capazes de enxergar além dos limites, o potencial e a beleza que cada um carrega dentro de si.
— Precisamos descobrir tanto do outro e de nós mesmos. No entanto, o sol está se pondo e dentre em pouco precisaremos partir. Vivemos em mundos diferentes, somos diferentes. Você tem uma vida moldada com uma diretriz bem definida e elaborada. Tenho também o meu mundo. Precisamos partir, precisamos nos separar. Nada é impossível, mas é muito difícil ficarmos juntos. Você sabe disto – f alou com pesar o Amigo. No entanto, Guerreira com a sua audaciosa convicção de vitória, exclamou entusiasticamente:
— Impossíveis são os limites que criamos quando acreditamos sermos pequenos demais para viver uma vida grande.  O difícil é apenas um desafio. Venceremos este novo desafio. A Guerreira ganhou o Amigo que lhe dará as mãos em suas lutas. Lutar para esta Guerreira não é jamais deixar ser vencida pelas dificuldades, destruir-se e ao outro. Saber lutar é descobrir incessantemente novas estratégias, que nos permitam continuar caminhando. Quando se quer algo, a gente consegue, basta descobrir a arte de explorar os meios favoráveis e disponíveis que nos permitam conquistar os nossos objetivos.
— Você tem algo revigorante, que me faz um bem enorme. Gosto do seu carinho, do seu sorriso e da sua maneira de pensar sobre o mundo. Você tem um jeito especial, um sabor diferente que o meu paladar não conseguiu ainda decifrar. É de uma paz de espírito contagiante, queria te carregar no fundo do meu ser.
A guerreira olhou o Amigo no fundo dos olhos e continuou o seu discurso bélico:
— Amigo, você se transformou numa arma poderosa que tomará conta do meu coração. Você conseguiu cativar o coração da Guerreira, fazendo-o pulsar com mais amor. Agora a Guerreira sabe o que é um Amigo e não tem como abandonar nunca mais este saber. Nenhum Guerreiro jamais poderá firmar parceria com a ignorância, rompendo com a sabedoria adquirida em cada luta, em cada desafio. A sua presença me transforma em algo mais. Além de guerreira, acho que me transformei também numa grande amiga que você poderá contar sempre.
           Feliz por ter ajudado a transformar um outro ser em algo mais, o amigo continuou fazendo reflexões sobre a vida, desejando agora algum conselho de sua guerreira amiga:
— Minha querida Guerreira, pelo visto temos um grande desafio pela frente. A vida é fácil de ser vivida, mas o problema é que nós a tornamos difícil. Você acabou de me dizer que quando queremos algo, conseguimos, bastando escolher as estratégias corretas. Sei que isto é uma verdade, no entanto, não consigo ainda assimilar isto como um modelo de vida.
— Não tente assimilar nada antes de viver. Como Guerreira, te faço o convite inédito de viver comigo o desafio de caminhar sem saber ao certo o caminho, de pisar num terreno sem saber ao certo onde está a mina, de atirar sem saber ao certo onde está o alvo, acreditando muito mais na intuição e na experiência genuína que carrega dentro de si do que numa suposta certeza do que poderá vir a acontecer.
— Isto é arriscado!  Agindo assim, corremos o risco de nos perder, sermos bombardeados e liquidados pelos conflitos que poderão nos pegar de surpresa.
— Se você trouxer o Guerreiro dentro de ti, lutará e encontrará sempre uma saída inteligente nos momentos difíceis. O verdadeiro Guerreiro não perde tempo com fantasias, ele tem muitas armas e age apenas diante das circunstâncias reais, utilizando a arma mais adequada para o momento. Agindo assim, ele se estressa menos e sai quase sempre vitorioso.
— Quase sempre vitorioso... Isso quer dizer que a derrota também pode acontecer? Perguntou Amigo, um tanto receoso.
— Saber lidar com as derrotas é uma das maiores virtudes de um Guerreiro. Respondeu com solidez, a Manca Guerreira
— Deve ser difícil viver estes momentos. Indagou o Amigo num tom de reflexão.
— Talvez nestes momentos a gente viva e sinta o nosso lado Manco e Pequeno.
— E talvez seja nestes momentos que precisamos mais do Amigo. Concorda, guerreira?
— Sem dúvida! Agora que te conheço, posso confirmar isto com toda segurança. O Amigo dispõe de todas as armas que a Guerreira utiliza. E, por mais eficazes que sejam as nossas armas, nem sempre elas funcionam a nosso favor.
— Quais as armas que você utiliza? Perguntou curioso o Amigo.
— Muitas. A maior delas é o amor. Mas utilizo também a paz, a liberdade, a compaixão, o perdão, a alegria, o entusiasmo, a verdade e muitas outras.
— Eu não posso acreditar que, em algum momento, estas armas não tenham funcionado a seu favor. Indagou o Amigo.
— Na verdade, eu quase sempre saio vitoriosa, mas algumas vezes saí muito ferida e com uma sensação profunda de derrota.
— Nem sempre uma ferida é um sinal de derrota. Acredito que seja muito mais um sinal de luta. E, quando se tem um Amigo ao lado, ela cicatriza rapidamente.
— Estou começando a sentir que um Amigo é sempre um sábio que sabe utilizar o remédio certo para nossas feridas. Daí, você tem que convir que uma Guerreira precisa tê-lo sempre a seu lado.
— Você conseguiu dar um nó no meu peito, um nó meio engraçado daqueles que só aqueles Guerreiros bem experientes, com muito tempo de luta sabem dar. Quero só ver como vamos desatar estes nós, apesar de não desejar desatá-los.
— Quem disse que precisamos desatar alguma coisa?  Perguntou a Guerreira, enrugando a testa. Acho que precisamos, mais do que nunca, atar ainda mais as nossas virtudes e potencialidades.
— O sol está se pondo e precisamos partir. Relembrou o Amigo olhando o horizonte com pesar.
— Precisamos nos separar, mas não precisamos destruir o que construímos juntos.  Finalizou a Guerreira, querendo conter o último raio de sol que repousava sobre o horizonte.
E assim veio a noite. Milhares de estrelas brilharam no céu. Dentre elas, duas estrelas especiais comentavam uma grande travessura:
— E agora, o que vamos fazer com eles?
— É nisto que deu a nossa experiência de querer ampliar a visão de quem vivia num mundo que aparentemente parecia um paraíso.
— Mas, o paraíso não precisa ser necessariamente um lugar sem problemas e conflitos.
— Concordo com você. Seres com uma ampla visão talvez necessitem de muitos desafios para se sentirem no paraíso.
— O que me preocupa agora é a possibilidade deles sofrerem. Parece-me que desenvolveram muitos sentimentos.
— Quem tem sentimento apurado, necessita sentir e, provavelmente, prefira a dor ao vazio.
— Mas a nossa intenção não era gerar dor ou sofrimento. Para isto ampliamos bastante a visão deles, para que pudessem desenvolver a capacidade de ultrapassar este sentimento, enxergando o prazer e as conquistas advindas deste inesquecível encontro.
— Então, só depende deles agora. Acho que terão de ficar com os olhos bem abertos para que além da visão ampla, possam também enxergar diferente.
— A diferença faz a diferença. Uma amizade especial é um diferencial na vida de qualquer ser. Eles precisam um do outro e, infelizmente, precisam também da separação. Será que saberão administrar isto?
— Já estou curioso para saber que saída diferente eles irão adotar.
 Finalmente, uma das estrelinhas deu uma piscadinha e finalizou sorrindo:
— Na verdade, eles não estão saindo, eles estão entrando.  Entraram no mundo do outro e amaram o que encontraram. O que desejam, no fundo, é adentrar ainda mais. Sabem que muitos tesouros ainda se encontram lá. Olhe quantas portas existem entre eles!  Não importa qual seja a melhor entrada ou saída, o importante é que eles estão comprometidos com este novo desafio de seguir em frente. Entrar e sair são alternativas para emocionantes descobertas. Amanhã é um novo dia e a nossa estrela maior nasce novamente, trazendo muita luz e muitas perspectivas. Entra a luz e sai a escuridão. Eles hão de perceber isto!

E assim termina uma história que, na verdade, continua em algum lugar.

quinta-feira, 14 de março de 2013

DESENVOLVIMENTO PESSOAL


"SEM ENVOLVIMENTO NÃO HÁ DESENVOLVIMENTO”




        Este prato é de grande importância para quem deseja crescer. Ele proporciona, a quem o prepara e degusta, a deliciosa sensação de se sentir forte e grande, dando mais consistência àquilo que pensa e àquilo que faz.



CUSTO



        O preço que se paga é proporcional ao seu crescimento, ou seja, depois que você cresce, nem tudo que anteriormente lhe servia caberá em você.



TIRA GOSTO


PRINCÍPIOS


NÃO TENHO MEDO DE CRESCER
TEMO FICAR GRANDE DEMAIS
E NÃO ME ENCAIXAR MAIS
NO SEU MUNDO PEQUENO
NESTE ESTREITO ESPAÇO HABITADO POR VOCÊ

NÃO VOU COLABORAR JAMAIS
PARA QUE FIQUE PEQUENO
APESAR DE SABER
QUE CRESCER DEPENDE
APENAS DE VOCÊ MESMO

A CADA DIA
DESCUBRO EM MIM UMA NOVA PESSOA
NÃO CONSIGO FICAR CONFUSA
APENAS, SURPRESA
CONFUNDO APENAS VOCÊ


INFRINGÍ CÓDIGOS DE ÉTICA
PARA SER ÉTICA COMIGO MESMA
 E, POR EXISTIR PRINCÍPIOS
QUE SE APOIAM NUMA TOTAL FALTA DELES
TIVE POR PRINCÍPIOS SER EU MESMA



INGREDIENTES



Fermento da fé
Farinha da motivação
Leitoso desejo de mudar
Doce consciência da verdadeira essência interior
Ovos de curiosidade (obs: a gema é bem mais amarelinha do que do ovo da apatia)



MODO DE PREPARAR


        É como se prepara um bolo. A base é constituída por alguns ingredientes indispensáveis. Mistura-se o leitoso desejo de mudar com a doce consciência de sua verdadeira essência interior, fermento da fé e farinha da motivação. Dos ovos da curiosidade, separa-se a clara da gema, ou seja, o desejo de ampliar o conhecimento daquilo que está dentro e fora de você. Depois de solve-los, poderão ser finalmente incluídas na mistura acima. Tenha muita disposição para bater com suas próprias mãos todos estes ingredientes. Não pare e bata sempre na mesma direção, pois a consistência desta mistura é que vai determinar a qualidade do bolo. Sem disposição para bater a sua massa, seu bolo não irá crescer.
        Escolha uma fôrma bem aberta e unte com otimismo para não agarrar no fundo. Quanto mais aberta, mais amplo o seu bolo. Leve ao forno e verifique se as quentes chamas das experiências da vida estão acesas para aquecê-lo. Tenha paciência para esperar o seu bolo crescer; não fique abrindo o forno antes da hora, pois este procedimento esfria o calor das chamas produzidas pelas experiências vividas, fazendo seu bolo murchar ou endurecer .
        Você poderá recheá-lo por dentro e por fora com aquele recheio que mais enriquecer a sua receita e agradar o seu paladar. Tem gente que gosta da cobertura do amor e do recheio da paciência. Outros preferem a cobertura da liberdade e o recheio da tolerância. Eu sugiro a você escolher aquele recheio e cobertura que possa tornar o seu bolo mais nutritivo e saboroso. A escolha é sua!


SOBREMESA


A ÁRVORE E O BEIJA-FLOR


No alpendre de uma fazenda vivia uma bela árvore que apesar de exuberante andava se sentindo triste e insatisfeita. Sempre carregada de flores, atraía diariamente a presença de um gracioso beija-flor que acabou por se tornar o seu melhor amigo. Nos últimos tempos estava exalando tanta tristeza que seus galhos e folhas perderam o viço assumindo uma expressão deprimida que passou a preocupar o dócil beija-flor. Perplexo com a mudança repentina de sua melhor companheira, resolveu interrogá-la para descobrir o motivo de tamanha melancolia:
— O que está acontecendo com você, amiga? Você que era tão alegre e viçosa vem assumindo nos últimos tempos uma notável tristeza e desânimo.
— De fato estou triste. Tenho tido dificuldades de reconhecer-me. Confirmou a árvore.
— Qual o motivo de sua tristeza? Perguntou novamente o beija-flor com clara intenção de ajudá-la.
— Preciso mostrar a minha verdadeira face e não consigo. Ando desanimada. Preciso crescer mais e mais, tornar-me frondosa como tantas árvores que vejo diante de mim.
— Não queira ser como as outras árvores. Cada um é o que é. Você será mais feliz se contentar com seu tamanho. Aconselhou o amigo beija-flor tentando consolá-la.
— Talvez eu tenha me expressado mal. Na verdade eu não quero ser como as outras árvores, eu quero ser eu mesma como você mesmo disse. E... Antes que pudesse prosseguir com suas explicações foi interrompida pelo beija-flor que a indagou surpreso:
— Então qual o problema! Se você busca ser o que é realmente não deveria estar triste. Deveria estar alegre de ser como é. Aliás, perfeita para mim.
— Perfeita para você, mas imperfeita demais para mim. Meu grande problema é que de uns tempos para cá passei a ser o que não sou.
O beija-flor adotou uma expressão de reprovação perguntando novamente:
 Como assim? Não estou entendendo mais nada! Dá para explicar melhor?
— Me vejo pequena e sinto que posso ser muito maior do que estou sendo. Sinto que posso ser uma grande árvore, frondosa, capaz de abrigar não só você nos meus galhos, mas todos os pássaros que desejarem o meu acolhimento.
— Eu estou muito feliz com você deste tamanho. Afirmou o beija-flor.
— O fato de estar bom para você não significa que está também para mim. Eu quero ser muito mais, inclusive muito mais do que aquilo que parece ser bom para você. Pronunciou a árvore.
Incomodado com o pronunciamento de sua amiga, o gracioso beija-flor a censurou com aspereza:
— Você está sendo muito ambiciosa e invejosa!
— E você não está me entendendo. Eu não ambiciono e nem invejo o jeito de ser das outras árvores. Pelo contrário, eu até as admiro. Eu apenas quero ser melhor do que fui ontem. Quero ser melhor do que eu mesma e não melhor do que as outras árvores. Procuro sempre me comparar comigo mesma e tenho percebido que já faz algum tempo que não mudo. Caí na mesmice e isto tem me cansado. Mudar é o meu grande desafio. Mudar para melhor! Exclamou com mais entusiasmo a árvore tristonha.
— Então você já conseguiu realizar o seu desafio. Lembro-me de você ainda brotinho. Hoje, além de ter crescido, você se transformou também em meu descanso predileto. Seus galhos, mesmo pequenos, me acolhem e suas flores me sustentam. Acalentou o beija-flor tentando conformá-la.
— Ser tudo que fui e tudo que consegui ser até agora me deixa realmente feliz. Confirmou a árvore.
— Então se agarre nesta felicidade e se desapegue desta tristeza. Recomendou o amigo.
— Mas, se eu me desapegar desta tristeza que sinto agora eu estaria me desapegando de mim mesma.
— Você vai me enlouquecer! Não estou entendendo mais nada! Que benefício você pode ver na tristeza? Perguntou cheio de perplexidade o amigo beija-flor.
— A tristeza me trouxe um importante aviso de alerta. Se eu não ouvi-la agora, corro o risco de me transformar daqui para frente numa boba alegre. Advertiu a árvore com sensatez.
— Boba alegre?
— Sim. Boba alegre finge alegria. Eu não quero fingi-la; quero vivê-la plenamente. Se a alegria que sempre me habitou com toda a sua algazarra deixou a tristeza falar, é porque o recado que ela traz, com certeza, é importante.
— Qual o recado que a tristeza lhe traz? Perguntou o beija-flor.
— A tristeza me diz que eu posso ser mais do que estou sendo. Diz-me também que ando parada, estagnada. Ela tenta me mostrar, com esta dura verdade, a alegria que me aguarda mais à frente caso eu não me acomode. Sendo assim, eu preciso me expandir. Afirmou a árvore.
— E como você vai fazer isto?
— Eu não sei. Tenho me esforçado para conquistar esta expansão, mas não tenho conseguido o que realmente desejo. Não consigo entender o que me falta.
— Talvez não lhe falte nada. Talvez você ande querendo ter mais do que pode ter realmente. Finalizou o beija-flor voando em direção a árvore mais próxima que parecia não ter tantos conflitos existenciais.
A árvore permaneceu ali, sozinha e irritada com seu melhor amigo, que parecia não compreender seus anseios. Sabia que dificilmente qualquer ser compreenderia o que se passava no seu interior. Além de seu desejo de crescer, manifestava dentro de si um desejo pouco comum para uma árvore. Tinha também desejos de sair daquele lugar que vivia, mesmo consciente de que uma árvore não poderia sair andando por aí. Era como se estivesse plantada num lugar que não era o seu. Era como se suas raízes estivessem fincadas em um falso chão. Precisava encontrar o seu solo, mas a própria vida a havia colocado ali. Possuía uma energia que a movia para o crescimento, no entanto, não conseguia observar nenhum movimento de expansão acontecendo consigo já há algum tempo. Passou uma boa temporada vivendo este conflito e lamentando chorosa a sua condição de ser. Do choro somou-se a revolta consigo mesma, bombardeando-se com ataques depreciativos. Chegou a pensar que talvez fosse pequena de fato e que tudo que sentia e almejava não passasse de uma bela fantasia. Quando, sem perspectivas, começou finalmente a se preparar para aceitar uma condição que inicialmente julgava não ser a sua, passou por aquela região um violento tornado que tornou tudo muito diferente.
A fúria da natureza parecia querer mudar tudo de lugar. Assistiu um drama que tornou-se seu também. Em meio ao arrastão meteorológico, viu-se também sendo levada sem destino para algum lugar que não sabia onde. Consciente de que havia sido deslocada de seu local de origem, não entendia o fato de sentir suas raízes ainda presas ao chão. Era como se tivesse carregado seu solo consigo. Sem resistência para enfrentar a força avassaladora, permitiu-se ser conduzida acreditando nos desígnios da natureza. Cessado o furor de uma natureza que desconhecia, chocou-se repentinamente na encosta de um grande rio. O choque produziu um barulho estranho de algo rachando em torno de si. Crac!!!!!!!!!! Lembrou-se de uma história contada pelo seu grande amigo beija-flor ao retratar a mágica de seu nascimento:
— “Quando aquele ovo que me continha se rachou, eu pude me alongar e me sentir livre”.
Podia ouvi-lo apesar da sua ausência. Aquele choque sobre a encosta lhe provocava a mesma sensação que o seu amigo sentira no momento do nascimento. Era como se estivesse saindo de um ovo. A terra que outrora apertava suas raízes pareceu relaxar.
Suas raízes iniciaram um movimento de alongamento buscando, concomitantemente, fixar-se em um mundo novo aparentemente sem limites. Podia agora adentrar-se num universo completamente diferente de tudo que vivera. Desgalhada e desfolhada foi cumprimentada pelo belo rio que corria majestosamente à sua frente:
— Seja bem vinda à sua nova morada!
— Obrigada! Acho que estou meio tonta. Não consegui ainda entender o que se passou comigo. Agradeceu estressada.
— Ao invés de entender, procure sentir as diferenças. Aconselhou o rio com sabedoria.
Apesar de todo o estresse, sentia-se mais relaxada como se tivesse libertado de algo que aprisionara. Limitou-se a seguir os conselhos do rio sentindo cada diferença que a sua nova morada lhe proporcionava. Uma sensação de bonança apoderou-se de si. A cada dia suas raízes se fixavam cada vez mais naquele novo chão. Novas estações vieram e com elas novos galhos, ramos, folhas e flores foram brotando de seu corpo que pareceu ter passado por um processo de renascimento.
A tristeza e a insatisfação se dissiparam com a força do tornado que a tornou, dia após dia, cada vez mais forte, frondosa e alegre. Transformou-se, finalmente, naquilo que sempre julgou ser. Grandiosa, acolhia em seus galhos pássaros de inúmeras espécies. Estava feliz, pois não se sentia mais como no passado, limitada a algo inexplicável que a impedia de crescer. No entanto, a saudade de seu amigo beija-flor lhe impedia sentir-se totalmente realizada. O terrível tornado que acabou se tornando uma bênção em sua vida lhe separou da melhor companhia que possuía. Sentia falta de suas histórias e até mesmo da dificuldade que seu estimado amigo possuía para compreendê-la. Nenhum pássaro seria capaz de substituí-lo. Vivendo este sentimento, compreendeu o quanto é insubstituível cada ser que nos cativa.
Entorpecida pela nostalgia dos velhos tempos foi despertada pela chegada estranha de um velho beija-flor que, já cansado, soava um canto triste que tocou profundamente o seu coração. Ofereceu ao mesmo as boas vindas e o farto alimento que poderia extrair de suas flores que magicamente tornava a vida mais doce:
— Seja bem vindo a esta nova morada e fique nela quanto tempo desejar.
— Quanta hospitalidade! Exclamou o beija flor.
— A minha hospitalidade é fruto da grandeza que me foi concedida. Completou a árvore hospitaleira.
— Você me faz lembrar de uma grande amiga do passado que ainda se faz presente dentro de mim. Falou cheio de saudade aquele velho e cansado beija-flor.
— Ela era assim, grande como eu? Perguntou a árvore cheia de curiosidade.
— Ela tinha uma alma grandiosa, mas não conseguia crescer. Sofria com isto, pois não conseguia entender a paradoxal condição de seu ser - "Ser pequena sentindo-se tão grande". Eu era um dos poucos pássaros que buscava refúgio em seus galhos.
— Onde ela vive? Perguntou a árvore.
— Não sei se ela vive, só sei que viveu por um bom tempo dentro de um lindo vaso de cerâmica enfeitando a minha vida e o alpendre de uma suntuosa fazenda. Respondeu o beija-flor com pesar.
— Mas o que aconteceu com ela? Ela não vive mais lá?
Com os olhos lacrimejando, o velho beija-flor contou o suposto trágico fim de sua melhor amiga:
— Algum tempo atrás, um grande tornado passou por lá e levou a minha querida companheira. Ela levantou vôo como se fosse um pássaro. A mercê de um vaso de cerâmica, incapaz de se sustentar com a força do vento, foi levada para algum lugar que não se sabe onde. Se tivesse suas raízes presas ao chão, com certeza teria se salvado, pois era forte demais.
Naquele exato momento, uma emoção grandiosa tomou conta daquela árvore. Finalmente, além de poder compreender a razão de seu nanismo no passado, mediante as informações repassadas pelo novo inquilino, pôde também ter certeza de que aquele velho beija-flor era o seu jovem companheiro. Tomada de emoção, indagou o seu discurso fatídico:
— Como pode ter certeza de que ela não se salvou?
— A ausência dela me diz isto. Respondeu o velho amigo.
— Às vezes, a ausência nos provoca um vazio tão grande que a gente se perde dentro dele e não consegue perceber a presença daquilo que nos é mais valioso. Advertiu a árvore.
— Pode ser, mas o meu sonho é poder voltar naquela fazenda e encontrar, naquele alpendre, a minha querida amiga. Ah, se essa mágica acontecesse! Eu ficaria muito feliz! Exclamou o beija-flor fantasiando um reencontro.
— Esta mágica traria, ilusoriamente, a sua felicidade e, realisticamente, a ruína de sua amiga. Censurou a árvore com firmeza.
— Como assim? Perguntou o beija-flor surpreso com a intervenção daquela árvore que falava com segurança de uma vida que mal conhecia.
— Agora eu entendo porque sua amiga não crescia e entendo ainda mais o sofrimento dela. Assegurou-lhe a árvore.
— Como você pode entender se nem mesmo ela entendia? Retrucou o amigo.
— Ela sabia que vivia contida, mas não sabia que vivia dentro de um vaso. Replicou a árvore tentando explicar a sua passada condição.
— Como ela poderia não perceber o vaso que vivia?
— O vaso era seu mundo. Não tinha consciência de que existia um vasto mundo lá fora. Tinha consciência apenas do grandioso universo que existia dentro de si e da dificuldade de expandir-se conforme o potencial que possuía. Jamais conseguiria se tornar uma árvore como sou hoje restrita a um vaso que lhe demarcava um território tão limitado. Conjeturou a sábia árvore.
— Na verdade aquele vaso não era tão pequeno assim. Era apropriado para o seu tamanho. Uma árvore pequena não precisa de um grande vaso.
Percebeu que o amigo beija-flor continuava o mesmo. Parecia não conseguir enxergar o que para ela era óbvio. Irritada com a sua ignorância, repreendeu rispidamente:
— Como pode dizer que ela era pequena? Será que não consegue perceber que o vaso lhe impedia crescer conforme o seu verdadeiro potencial? Ela se libertou daquele vaso e acho que você precisa se libertar do seu.
— Eu não estou plantado em vaso algum. Sou um pássaro, sou livre e posso voar.
— Você é um pássaro que semeou a sua forma de pensar num vaso bem pequeno. Talvez um tornado possa um dia chegar, agitar sua cabeça e quebrar este vaso que limita a possibilidade de você enxergar.
— Eu não tenho problemas de visão. Eu enxergo muito bem. Certificou-se o pássaro.
— Então me diga, como você me vê? Quem acha que sou? Perguntou, ansiosamente, a árvore amiga.
— Na verdade eu te vejo como o sonho de minha velha amiga. Por eu estar muito preso a ela, talvez eu tenha mesmo um pouco de dificuldade para lhe perceber tal como você é. Mas, no fundo te acho bem convencida ao tentar explicar fatos que não lhe pertencem.
Impaciente, a bela árvore lhe ofereceu uma apresentação formal e se preparou para um grande abraço:
— Meu velho amigo, como pode dizer que esta história não me pertence. Eu a construí à custa de muito sofrimento. Olhe para o chão e verá ainda próximo às minhas raízes os fósseis da minha prisão.
O beija-flor dirigiu seu olhar para o chão e verificou que, ainda próximo à raiz daquela árvore, repousava pedaços de cerâmica idênticos à cerâmica do conhecido vaso que habitou por tanto tempo sua querida amiga. Emocionado e envergonhado soluçou algumas palavras tentando um reconhecimento:
— Eu não posso acreditar que você é você!
— Você nunca acreditou em quem eu era realmente. Só acreditava naquilo que podia ver. Não acreditava na minha essência, nos meus sonhos e nos meus sentimentos. Relembrou a árvore.
Decepcionado consigo mesmo, o beija-flor clamou ao divino:
— Oh, Deus! Qual o tamanho do vaso que me limita? Eu que pensava ser livre... O tornado passou e não rompeu o meu vaso. Talvez a realização do meu maior sonho possa romper a cerâmica da óbvia certeza que me habitou até este exato momento mantendo rígidos os meus pensamentos.
A árvore repleta de afeto e sabedoria aproveitou-se de uma brisa para abraçá-lo com seus galhos e felizes viveram o reencontro de tudo aquilo que pareceu um dia ter ficado perdido. Para que nunca mais se esquecessem da lição do tornado, o presságio de uma tempestade passou a ser sempre marcado pelo importante aviso do vento:
— Nunca se esqueçam de avaliar o tamanho do vaso ou do espaço onde foi semeado seus pensamentos, suas emoções, seus sonhos, enfim sua vida. Há um espaço infinito para tudo e para todos, mas nem sempre reconhecido e vivido

quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

CORAGEM



“A VIDA NÃO SE MANIFESTA PARA QUEM TEM MEDO DELA”


CORAGEM

         Coragem é um prato que todo mundo sabe que faz um grande bem para a alma. No entanto, todos têm receio de prová-lo, talvez por ser um pouco apimentado. Esta pimenta é como um combustível que queima como fogo, fazendo com que a pessoa se mova em direção ao que precisa enfrentar para conquistar seus objetivos e realizar todos os desejos que pulsam forte no seu coração. É na verdade um tônico para tudo que desejamos realizar.


CUSTO



         Se paga a pena da legítima defesa por ter matado o medo de fome desviando para a preciosa coragem todo o investimento que antes era reservado apenas para o esfomeado medo fortalecendo-o. Sendo assim, você será, com certeza, absolvido da prisão que o medo lhe condenou.



TIRA GOSTO


ALIANÇA


ONDE MORA O MEDO?
ELE MORA NAS ENCRUZILHADAS
CHEGUEI ATÉ UMA DELAS
E O ENCONTREI FORTE E DESTEMIDO

MEDO DESTEMIDO
MEDO SEM MEDO
MEDO CORAJOSO
ENCURRALA A TODOS SEM DÓ

O MEDO SABE O QUE QUER
QUER QUE AS PESSOAS NÃO SAIBAM
SABE MOSTRAR BEM OS PERIGOS DA VIDA
E DEIXA CLARO QUE A CORAGEM É UM DELES


O MEDO APRISIONA A ALMA
NÃO PERMITE A VIDA
NÃO PERMITE A MORTE
NÃO PERMITE A TRANSFORMAÇÃO

DIANTE DO MEDO ESTREMECI
EVITEI A VIDA
EVITEI A MORTE
EVITEI A TRANSFORMAÇÃO

OBSERVANDO A FORÇA DO MEDO
O ADMIREI ALIANDO-ME À SUA FORÇA
IDENTIFICANDO COM ELA, DESEJEI SER FORTE TAMBÉM
A FORÇA DE MEU DESEJO CRIOU A CORAGEM

A CORAGEM ALIOU-SE A MIM, LIBERTANDO-ME
PERMITINDO-ME VIVER
PERMITINDO-ME MORRER, SE NECESSÁRIO
TRANSFORMANDO-ME

EM MEU PROCESSO DE TRANSFORMAÇÃO
HÁ ESPAÇOS PARA O MEDO
HÁ ESPAÇOS PARA A CORAGEM
HÁ ESPAÇOS PARA MIM E PARA VOCÊ

QUERO-ME E QUERO-TE
VIVENDO, MORRENDO, VIVENDO
COMIGO, SE DER
SE DER BEM COMIGO


INGREDIENTES


Aceitação
Decisão
Otimismo sem medida (à vontade)
Determinação bem afiada
Confiança madura
Experiência de vida para o recheio


PREPARO



         Se você souber preparar uma boa linguiça, não terá dificuldade para preparar-se para a coragem. O mecanismo é o mesmo. Se não souber, prepare-se para aprender.
         Tripa de porco a gente poderia jogar fora. No entanto, a gente limpa, enche com muita carne boa, temperos e está pronta a linguiça para ser levada ao fogo e ingerida saborosamente.
         O medo é como uma tripa cheia de “merda” dentro dela. Usando um linguajar mais refinado, poderíamos dizer que os bolos fecais que o intestino retém em seu interior se associariam às fantasias e pensamentos negativos que o medo retém. Sendo assim, o primeiro passo é aceitar que suas tripas estão cheias de “merda” para, posteriormente, tomar a decisão de limpá-las, pois uma linguiça com restos fecais poderia causar um grande dano ao organismo. Desta forma, não tente se enganar. O primeiro passo é tomar consciência de seus pensamentos negativos e se propor, definitivamente, desapegar-se dos mesmos, pois fragmentos destes, ao invés de coragem, poderão gerar autodestruição. Deixe jorrar muito otimismo sobre os pensamentos e fantasias negativas, da mesma forma que se limpa as tripas deixando a água correr por dentro e por fora delas  eliminando qualquer resíduo fecal. Para a limpeza ser bem feita, se vira a tripa ao avesso, com a faca raspam-se as gosmas passando limão e fubá para retirar qualquer ranço. Saiba que o mesmo deverá ser feito com o medo. Assim que for virado ao avesso, lentamente ele irá se transformando em coragem. Sem medo não se prepara coragem, ela depende dele para existir. A coragem é o lado avesso do medo. Raspe o medo com uma afiada determinação, retirando as gosmas da covardia e passando bastante fé e confiança para eliminar os ranços de qualquer insegurança que estiver impregnado no mesmo. Feito isto, o medo se transformará em coragem podendo finalmente ser recheado com a experiência que você tanto deseja vivenciar.
         Quando estiver saboreando sua deliciosa linguiça, com certeza se lembrará do sábio ditado de ter feito das TRIPAS, CORAÇÃO.



SOBREMESA


              
UMA VIAGEM POR DIVERSOS SABORES

DEDICO ESTA ESTÓRIA ÀQUELE PEIXINHO QUE NADA NO FUNDO DO SEU CORAÇÃO


 Vou contar para você a história de um peixe um pouco diferente dos demais. Peixes vivem em água doce ou salgada. Este vivia num pequeno lago de águas amargas. Num passado remoto, o lago que vivia fora lindo e cristalino; porém, a instalação de uma indústria de produtos químicos em seus arredores, começou lentamente a poluí-lo, amargando definitivamente as águas do mesmo. Todos os seres que ali viviam foram ficando amargos como as águas do lago. Sentiam muita raiva de viver ali, mas não conseguiam sair dali por acreditarem que aquele era o único lugar do mundo capaz de abrigá-los. Mas, como toda regra tem uma exceção, havia lá o tal peixinho que pensava diferente e, por pensar diferente, ele acreditava em coisas totalmente diferentes de todos os habitantes do lago. O sabor amargo daquele lago nunca agradou o seu paladar, intensificando seu desejo de poder sair daquele lugar.
O sonho do peixinho era cantar, sonho este bem incomum para um peixe. Os outros peixes olhavam para ele com pena e descrédito. Alguns teciam comentários, numa tentativa de desestimulá-lo:
— Peixes não cantam e, se cantassem, você jamais seria capaz de cantar. És pequeno demais. Se acomode e faça como todos nós, sacuda seus sonhos no canal ribeirinho para que eles possam ir embora para sempre e não lhe perturbar mais.
 Outros diziam:
— Fique caladinho que é melhor! Aprenda a gostar daqui, pois este é o seu lugar. Somos tão miseráveis! Seja caridoso e pense numa forma de aliviar a nossa dor. O canto jamais poderá trazer benefícios e enriquecimento a você e ao nosso mundo.
         A única coisa que aquele peixinho não conseguia era ficar calado. Carregava consigo o dom de acreditar mais em seus sonhos do que no conformismo daqueles seres. Falava sempre com muita firmeza naquilo que acreditava:
— Eu não amo este lugar! Eu não me sinto seguro aqui! Quando eu conseguir amar e sentir-me seguro e feliz, estarei definitivamente livre da amargura que vocês sentem.
         Alguns o ironizavam, dizendo:
— Até parece que você não é amargo também. Você vive aqui e não há como ser diferente. Esta é a nossa característica.
O peixinho argumentava:
— Vocês estão enganados. Eu vivo nos meus sonhos e não sou amargo. Posso estar amargo, mas estar é diferente de ser. Serei aquilo que sonho! De agora em diante irei à busca da liberdade de vivê-los intensamente. Ao contrário de vocês, meus sonhos não me incomodam, eles me entusiasmam. Eu não tenho medo de ser feliz.
— Se você procura a segurança, saiba que a liberdade não oferece segurança para ninguém. Ela apenas impõe riscos que nenhum ser aqui teve a coragem de assumir. O nosso lago é seguro, pois nos protege dos riscos. Para se libertar do lago amargo, terás de passar pelo canal ribeirinho onde todos nós despejamos os nossos sonhos assim que eles começam a nos incomodar. O canal é estreito demais e, com certeza, você não resistiria. Haja coragem para enfrentá-lo!
— Prefiro a morte a me amarrar a esta falsa segurança que vocês pregam. É preciso arriscar para conquistar a felicidade.
Com muita raiva de tudo, porém determinado, o peixinho partiu sem querer ouvir mais nada. Sentiu que ensurdecer diante do pessimismo era a melhor maneira de seguir em frente. Partiu com sua raiva, fruto de sua amargura, acreditando poder deixá-la ao longo do caminho. Mas partiu também com sua coragem, acreditando aumenta-la cada vez mais durante sua trajetória. Aceitando os desafios, embrenhou-se no tão falado estreito canal que, realmente, o fez sentir-se apertado e comprimido. Teve medo, chorou muito, viveu a dor, menos o conformismo. Quanto mais doído se sentia, mais vontade ele tinha de sair dali. Apesar de sentir-se enfraquecido pela dor, carregava dentro de si a força de seu sonho e um possante otimismo. Esta força o impulsionava à frente. Precisava lutar, jamais se render. E foi assim, nadando e lutando incessantemente, confiando apenas em si e em Deus, que conseguiu finalmente desaguar-se num belo rio de águas cristalinas. Neste momento, foi como se tivesse acontecido uma explosão dentro dele mesmo. Era como se tivesse sendo parido para uma nova vida. Passado o aperto, pôde experimentar um sabor diferente que muito agradou o seu paladar. Sentiu-se grande, bem maior do que o peixinho do lago amargo. Pensou que havia encontrado o seu lugar definitivo, que finalmente deparara com a concretização de seu sonho.
Viveu ali por algum tempo revolucionando as águas daquele rio, ensinando para muitos peixes o que na verdade nunca fizera antes — cantar. Ficava confuso por saber algo que na verdade nunca lhe fora ensinado. Era como se aquela habilidade para cantar fosse inata. Descobriu que qualquer peixe poderia cantar, cantando. Certificou-se que seu sonho não era uma ilusão, mas uma realidade, que poderia ser vivida por todos os peixes que partilhassem deste mesmo sonho e que tivessem, antes de tudo, muita confiança em si mesmos.
E assim ele foi descendo rio abaixo ensinando aos peixes que se pode morrer pela boca, mas se pode também viver plenamente através dela. Teve que ser muito esperto para não ser fisgado por anzóis ou preso a redes e outras armadilhas. Viver experiências novas e desafiadoras lhe fazia sentir-se mais forte e seguro.
O tempo foi passando e à medida que nadava rio abaixo foi percebendo que, num determinado lugar e momento, as águas do rio foram ficando turvas e poluídas. O cenário foi mudando gradativamente, já não tinha diante de si um caminho cristalino, tudo parecia opaco. Ficou confuso com esta mudança repentina, pois pensara já ter conquistado uma condição segura, confortável e garantida de vida. Não sabia mais se esta nova característica do rio estava presente apenas naquele lugar ou se havia acontecido uma transformação repentina semelhante ao acontecido no antigo lago que vivera. Foi crescendo o desejo de se libertar daquele novo e incômodo acontecimento. Olhava para frente, olhava para trás e empacado não conseguia definir qual o melhor caminho. Apesar de não saber ainda o que fazer, sabia apenas que aquele já não era mais um lugar agradável para se viver. Como todos os peixes gostavam muito de seus ensinamentos e do seu jeito de ser diziam:
— Fique com a gente, você nos ensina tanto! Precisamos de você para ficarmos do tamanho de nossos sonhos. Olhe como as águas à sua frente estão turvas. Você não sabe o que vai encontrar. É mais seguro ficar aqui. Se nadar de volta contra a correnteza poderá encontrar o rio límpido outra vez.
Algumas vezes, receoso, com aquela significativa , resistiu seguir em frente e nadou contra a correnteza numa tentativa de encontrar as águas límpidas anteriormente vividas. No entanto, foi ficando muito cansado, cada vez mais cansado e sem esperanças de encontrar as águas cristalinas que buscava trilhando aquela direção. Parecia que todo rio tinha se transformado num rio de águas poluídas. Teve medo de ficar amargo novamente, pois o seu cansaço ora se transformava em raiva. Teve saudade da paz dos tempos cristalinos que, limpara toda a amargura que carregara no seu íntimo. Entretanto, foi percebendo que não dava para voltar. Tinha conquistado a sabedoria de que seguir em frente era sempre o melhor caminho. Num ímpeto de coragem, decidiu arriscar mais uma vez. Chegara à conclusão de que ali não era mais o seu lugar. Gritou finalmente para si mesmo e para todos seus companheiros:
 — Eu não quero ficar parado aqui e nem mesmo voltar atrásA ida é sempre mais interessante do que a volta, pois guarda com ela o mistério de tudo que se pode encontrar. A ida em busca dos meus sonhos me aguarda e me entusiasma. Este já foi o meu lugar, no entanto, já não é mais. Vocês não precisam de mim para ficarem do tamanho de seus sonhos, vocês precisam apenas da coragem de vivê-los.
Lançou-se nas águas turvas deixando que a correnteza lhe levasse por algum tempo. Deixando-se levar, sentiu-se mais leve e tranquilo mesmo sem enxergar com clareza o que estava à sua frente. Sentiu-se sozinho e com frequência se assustava ao confrontar-se com obstáculos que só eram percebidos ao se chegar bem próximo deles.  Mesmo um pouco inseguro, continuava convicto de que não dava para voltar atrás. Entregou-se à correnteza da vida sem, no entanto, render-se a ela.
O tempo passou como sempre e finalmente chegou o dia de novas e inesperadas mudanças. Repentinamente, começou a sentir um sabor estranho, diferente de todos já experimentados; não era amargo e não era doce, era salgado. Sem conseguir definir os limites de um ou de outro, foi lançado num mundo novo e cristalino onde parecia estar usando lentes azuis de aumento. Imerso numa imensidão azul, que lhe proporcionou uma sensação de leveza e relaxamento, foi possuído por um agradável e misterioso encantamento. Tudo era grande, até mesmo os obstáculos. Mas, as possibilidades eram enormes também. Montanhas e seres enormes habitavam aquele local. Sua morada ali poderia e deveria ser bem maior, pois já não era mais um peixinho pequeno e amargo. Transformou-se num ser abissal e confuso ficava a pensar consigo:
 — Será que não conseguia enxergar-me por ter vivido em ambientes turvos ou será que os grandes espaços é que são capazes de nos transformar em grandes seres?  
Sem obter respostas para as suas indagações continuava nadando. Tudo era novidade. Vendo diante de si inúmeras conchas, aproximou-se da maior delas perguntando:
— Quem são vocês?
— Somos ouvidos. Respondeu a concha com uma voz que parecia mais um eco.
— Para que servem os ouvidos?
— Para ouvir o canto dos golfinhos, das baleias e de todos os seres que sabem cantar e nos alegrar.
 Com um sorriso imenso nos lábios e certo de que a canção naquele mundo era bem vinda, o pequeno e grande peixinho pôs-se a cantar uma canção que expressava uma grande indagação:                                                                           

 SOU GRANDE
POR QUE?
ESPAÇO
PRA QUE?
DIGAM-ME POR QUE
ENSINEM-ME PRA QUE
E ASSIM...
SEREI

Quando terminou de cantar a grande concha lhe disse:
— Linda música! Acho que o mar adorou e acabou lhe dando rapidamente uma resposta.
— Qual? Perguntou o peixinho
— Você não ouviu? Perguntou a concha surpresa.
— Não, talvez ele tenha falado muito baixo.
— Ou talvez você não tenha ainda aprendido a escutar o mar. Continuou a concha.
— Pode ser, afinal sou muito novo por aqui. Tenho muito que aprender. Mas estou curioso, o que o mar respondeu?
— Ele disse que você é grande porque cresceu e cresceu porque foi corajoso o suficiente para abrigar a felicidade e a prosperidade que moram agora dentro do seu ser. Basta exerce-las, elas só habitam e são habitadas pelos grandes.
E assim termina a história de um peixinho que experimentou sabores bem diferentes de vida, todos eles importantes para apurar o seu paladar. Ao decidir correr o risco de ser ele mesmo, deixou de lado o rejeitado sabor amargo que passou a ser também um registro presente, porém apenas como lembrança de tudo que não se deveria ser. Hoje, quando olho para aquários, lagos, represas, rios e mares, fico a pensar onde mora o peixinho que habita o nosso ser.