domingo, 25 de novembro de 2012

DISCIPLINA


“PARA TORNAR-SE UM MESTRE, É NECESSÁRIO TORNAR-SE PRIMEIRO UM FIEL SEGUIDOR DE SI MESMO”



DISCIPLINA



É um mingau indispensável para quem deseja conquistar um objetivo. Contém ingredientes que organizam o seu mundo interno, requisito básico para a posterior organização do mundo que o rodeia. Com a vida organizada é muito mais fácil chegar onde se deseja.



CUSTO



         Você perde a posição de relaxado e pode até chegar a ser encarado como uma pessoa sistemática. Mas, na verdade, investir na disciplina não pressupõe impor-se nenhuma regra, mas oferecer-se instrumentos que possam torná-lo capaz de ser um sábio mestre e discípulo de si próprio. Sendo assim, você estará investindo seu tempo e energia numa ação relaxante, porém, comprometida com um ideal.


TIRA GOSTO



DISCÍPULO DE MIM


SOU DISCÍPULO
DO MESTRE QUE ME HABITA
ORIENTANDO-ME A FAZER POR MIM
O QUE A MIM FOI DESTINADO
OFERATAR AO DESTINO
A SABEDORIA DE CONSTRUÍ-LO
A MEU MODO


INGREDIENTES


 Pó de Discernimento
Leitoso Comprometimento


PREPARO



         Há de se tomar muito cuidado para não deixar o mingau da disciplina empelotar. Dissolva no leitoso comprometimento, o pó do discernimento daquilo que lhe é realmente importante e prioritário na vida. Jogue o conteúdo numa panela que seja do tamanho de suas metas e leve ao fogo da vida que tudo transforma. Vá mexendo continuamente e pacientemente sempre presente a cada transformação. Quando o mingau adquirir a consistência desejada e apreciada por você, sirva-se no profundo prato da realização e bom apetite.
Não abandone sua panela no fogo, dispersando-se ou dedicando-se a outra atividade que não seja a de preparar o seu mingau. Agindo assim, ele poderá empelotar ou queimar lhe trazendo o incômodo sabor da frustração.



SOBREMESA



HERANÇA


         Vivendo seus momentos finais, o mestre reuniu seus discípulos para pronunciar a maior herança que deixaria aos mesmos. Sem ter a mínima ideia do testamento do mestre e utilizando a sabedoria adquirida durante anos de convivência e doutrina, cada discípulo limitou-se a esperar pacientemente, sem ansiedade e sovinice, a herança que caberia a cada um deles:
— Deixo a todos vocês a posição de mestre. Sentenciou.
         Os discípulos se entreolharam surpresos. Estariam eles preparados para uma missão tão nobre? Na comunidade pequena onde viviam haveria espaços para tantos mestres? Quase todas as pessoas daquela comunidade eram fiéis seguidores daquele sábio homem que se despedia ali, naquele momento, deixando para todos, sem predileção e distinção a mesma posição. Como um número tão grande de pessoas poderia ocupar uma mesma posição?  Com tantos questionamentos, jamais conseguiriam adquirir a serenidade de um mestre. Preocupado, um deles perguntou confuso:
— Quem serão nossos discípulos?
— Seu discípulo será você mesmo. Respondeu o mestre.
— Como poderei ser discípulo da minha própria pessoa e como é possível ser discípulo e mestre ao mesmo tempo?
— Exercendo a disciplina. Afirmou o mestre com firmeza.
— Que disciplina devemos ter? Perguntou novamente o discípulo, repleto de dúvidas e desejando uma receita normativa.
— Ter disciplina não é simplesmente seguir uma norma, mas é, sobretudo, ser fiel seguidor de seus mais nobres objetivos. Seja um mestre ditando a si mesmo as metas que deverá seguir para realizar o seu sonho e seja seu discípulo sendo leal ao verdadeiro caminho que o levará ao encontro deste sonho. Lembre-se sempre que ser disciplinado não pressupõe estar preso a uma norma, mas sim, comprometido com seus objetivos e com seus sonhos. Nosso maior tesouro está adormecido em nossos sonhos. Ele precisa ser despertado para ser vivido.
         Os discípulos ouviram atentamente cada palavra pronunciada pelo mestre. Agradeceram-lhe pela transmissão de tamanha sabedoria. Cientes de que precisavam aprender a serem mestres consigo próprio para, depois, serem para com o outro, trataram de usar toda a disciplina necessária para assimilar e conquistar mais este importante saber. O mestre partiu, mas a sua sabedoria foi herdada por todos aqueles que se permitiram, antes de qualquer coisa, tornarem fiéis seguidores de si mesmo.














quarta-feira, 7 de novembro de 2012

GRATIDÃO


DEUS NÃO POSSUI DÍVIDAS E NEM CRÉDITOS.

AGRADEÇA AO INVÉS DE DIZER: — DEUS LHE PAGUE!”

GRATIDÃO


         Quem consegue ter à mesa este alimento, consegue diante da fartura ou mesmo da falta, sentir que a vida é bela e nutritiva.


CUSTO


         Você só tem a ganhar investindo na gratidão, pois mesmo diante dos maus investimentos você estará propenso a procurar a lucratividade em algum ponto do mesmo. Agindo assim, nunca se sentirá subtraído.


TIRA GOSTO


OBRIGADA


OBRIGADA

POR TER SIDO

GRATUITO

E NÃO SENDO OBRIGADO A NADA

REALIZOU A MAIOR OBRIGAÇÃO

NÃO OBRIGAR

ABRIGANDO

POR NADA


INGREDIENTES


Amanteigada aceitação

Mel da valorização

Pó da resignação


PREPARO


         Vocês já comeram a deliciosa banana caramelada? O preparo da gratidão é parecido. Agradecer o que a gente sempre desejou é fácil, o difícil é adquirir a capacidade de agradecer aquela experiência não requisitada pelo nosso ego, mas sem que a gente saiba, nutritiva para a nossa alma.

         Nesta vida há muitas experiências que precisam ser “descascadas” para melhor serem compreendidas. Comer banana com casca e tudo pode ser bem indigesto para quem possui uma digestão difícil. Sendo assim, descasque aquela experiência que você precisa digerir. Descubra que o interior de uma casca aparentemente dura pode conter um fruto extremamente nutritivo. Para que este fruto fique bem saboroso, passe sobre o mesmo a amanteigada aceitação, o mel da valorização, polvilhando ao final com o pó da resignação.

Leve ao forno quente de seu coração e bom apetite.


SOBREMESA


HONRANDO A VIDA


         Doído, porém sereno, diante da maior tragédia que um ser humano é algumas vezes obrigado a suportar, estava um iluminado pai perante a perda de seu único filho. Os amigos chegavam a todo o momento com a intenção de consola-lo. Nenhum deles conseguia colher palavras que pudessem justificar ou preencher o vazio que aquela perda tão significativa impunha àquele pai. No entanto, palavras faltavam apenas aos amigos. Dentro de seu peito doído saíram sábias citações que surpreenderam a todos.

— Tenho tanto a agradecer! Entoou o pai diante daquela perda.

         Ninguém entendeu como um homem pudesse ter naquele momento de tamanha lesão agradecimentos a fazer. O mais inconsolável dos amigos, revivendo projetivamente aquele momento doloroso, iniciou uma lamentação que denotava claramente a projeção da morte de sua querida esposa:

— Eu não posso aceitar isso! É horrível e inaceitável ele ter morrido!

         Inundado por lágrimas que faziam escorrer pelos seus olhos um sofrimento fácil de compreender, o enlutado pegou a mão fria do amigo, olhando-o no fundo de seus olhos  pronunciou a mais sabia experiência de vida que um ser humano é capaz de adquirir:

— Foi simplesmente maravilhoso ele ter vivido. Sinto agora mais do que nunca que o maior presente que ganhei nesta vida foi este meu único e querido filho.

— De que adianta este presente se ele lhe foi roubado? Deus não foi justo com você. Como pode ter tirado de um homem tão bondoso a sua única joia preciosa? Questionou o amigo roendo antigas revoltas e insatisfações dentro de seu ser.

— Deus não roubou o meu filho. Pelo contrário, ele me presenteou durante anos com sua magnífica presença. Eu não tenho como lamentar a dádiva e alegria de tê-lo vivido. Pior seria não ter tido a benção de tê-lo merecido.

— De que adianta esta gratidão se não pode vive-lo mais agora? Interrogou-lhe o amigo — A garantia de tê-lo para sempre é que mereceria gratidão.

— Aquele que expressa reconhecimento apenas fazendo barganhas é, na verdade,  um grande ingrato que só consegue regozijar-se se tiver a eterna garantia de que só irá receber e nada mais. A gratidão não pressupõe retribuição de cortesias. Este tipo de comportamento é típico de seres egoístas que jamais conseguem retribuir a alegria recebida e vivida. Assegurou-lhe aquele pai diante da revolta do amigo.

         Não havia palavras que pudessem rebater a revolta e inconformismo do amigo que sem delicadeza alguma ironizou com aspereza:

— E por acaso, você está alegre de ter perdido seu filho?

— Estou muito triste. É como se eu tivesse perdido uma parte do meu ser. É como se tivessem amputado um pedaço da minha vida. A angústia queima dilacerando o meu peito, mas tenho consciência de que preciso curar esta dor. Eu não posso deixar que ela aniquile este pleno ser que me habita. Eu não posso deixar que a dor faça comigo o que fez com você. Advertiu, pacientemente, o pai em confronto com a revolta do amigo.

— E o que você acha que a dor fez comigo? Perguntou o amigo querendo checar a imagem que estava passando para as pessoas.

— A sua dor deixou que a revolta, o rancor e o ódio tomassem mais força que o amor, a alegria e a gratidão que lhe habitava. Hoje você se transformou numa pessoa fraca, pois tem se deixado ser dominado por sentimentos pequenos que roubaram o encanto de seu passado, de seu presente e de toda a beleza que lhe aguarda no futuro.

         Em prantos o amigo começou a chorar a morte da mulher. Aquela visita era muito mais uma visita à sua dor do que à dor do amigo que acabara de perder o filho.

— Desculpe-me! Eu precisava estar aqui para ajuda-lo e não para falar de minha dor. Mas a minha dor é tanta que não consigo ser solidário com você neste momento tão difícil. Eu não posso aceitar não vive-la. Jamais irei me conformar com a perda de minha esposa.

— A sua dor não trará a sua querida esposa de volta e nem fará com que ela perceba o amor que nutre por ela. Pelo contrário, a energia negativa desta dor só a manterá cada vez mais distante de você. O negativo repele tudo aquilo que é saudável. Se continuar assim, daqui um tempo perderá todas as boas lembranças que possui dela por estar se nutrindo apenas de sentimentos venenosos que roubarão toda a sua vitalidade. Restarão para você apenas lembranças de infortúnios e com a mente limitada só será capaz de enxergar o mal.

— Me diga então o que você fez para se conformar. Suplicou-lhe o amigo inconformado.

— Aprendi a aceitar a vida tal qual ela é e não como a minha imaginação gostaria que ela fosse. Tente prestar atenção na palavra com – formar. Conformar é dar à vida a forma que lhe pertence. É como se ela fosse um quebra-cabeça onde as peças possuem formas especiais que se encaixam cada qual no seu espaço e não no espaço que gostaríamos que elas se encaixassem. Sua mulher é uma peça que pertence a uma parte de seu quebra-cabeça que já foi montada. Não adianta você querer monta-la novamente, pois este pedaço já está terminado. O quebra-cabeça da vida é um pouco diferente de nossos brinquedos. Depois que você consegue encaixar uma peça no seu lugar, ela jamais é descolada dali. Ela vira uma coisa chamada passado que ninguém consegue mudar. Aprenda a admirar a parte de seu quebra-cabeça que já foi montada e se comprometa a encaixar as peças que ainda estão soltas esperando você se prontificar a encaixa-las no lugar certo. Tentar encaixar uma peça num local errado só atrasa nosso processo de construção. Precisamos armar nosso quebra-cabeça e agradecer cada parte que foi montada. Não seria nada agradável partir desta vida com ele todo desajustado. Este quebra-cabeça é grande demais para alguns e menores para outros. Cada experiência, cada pessoa que cruza o nosso caminho é uma peça. Alguns precisam de muito tempo para ajustar no lugar certo tantas experiências e pessoas que lhe cabem. Outras precisam de um tempo menor. Espero que você saiba aproveitar bem o seu tempo. Aconselhou o pai enlutado.

— Pois saiba que a morte bagunçou o meu quebra-cabeça.

— Engano seu. A morte não destrói e nem anula aquilo que foi vivido. Tudo que você construiu continua intacto em suas lembranças. Você pode viver estas lembranças com saudade ou com revolta. A escolha é sua. A sabedoria reside na capacidade de agradecermos a alegria daquilo que foi. Pare de alimentar o pesar daquilo que não pôde ser. Solicitou com firmeza o amigo pai.

— A morte pode não ter me roubado o passado, mas me privou de meu presente e de meu futuro. Lamentou o amigo.

— A morte pode ter lhe privado do presente e do futuro que sua limitada imaginação impôs a você. Quanto a isto eu só tenho dois conselhos a lhe dar. O primeiro é que o futuro não existe e nem mesmo nos pertence. Daí, não tente viver algo que não é seu. O segundo conselho é tornar-se capaz de presentear-se com o presente. O passado é o quebra-cabeça formado e o presente é a peça que você se dispõe a encaixar agora. Que seja a peça da gratidão de estar VIVO e de ter a graça de ser VIVO.

         Naquele momento os dois se entreolharam e lá no fundo de seus olhos apareceu uma peça do quebra-cabeça que finalmente se encaixou no lugar certo. Surgiu dali um grande abraço que encaixou um corpo no outro externando uma empatia e afinidade muito especial que aquele momento de tanta dor presenteou aos dois.















































quarta-feira, 19 de setembro de 2012

ENERGIA DIVINA


 

SE EXISTE UMA PERGUNTA SEM RESPOSTA, ESTA PERGUNTA É CERTAMENTE:

— QUEM É DEUS?

QUEM EXIGE UMA RESPOSTA TORNAR-SE-A UM CÉTICO OU UM FANÁTICO

 

 
ENERGIA DIVINA


Trata-se de uma bebida de imenso valor energético. Ela é suave, não causa embriaguez e nem ressacas morais. Quem dela saborear encontrará forças para superar todos os obstáculos que a vida nos impõe. É importante tomar cuidado, pois existem várias falsificações no mercado cujo agente tóxico denominado fanatismo é capaz de deixar não só um indivíduo, mas também grandes massas de pessoas totalmente embriagadas, dopadas e com ressaca.

 

CUSTO



         Por se tratar de uma bebida que deverá ser preparada e enriquecida naturalmente pelo próprio indivíduo e por, concomitantemente, haver poderosos interesses de mercado no sentido de se apoderar da fórmula da mesma e de traficar falsificações, o preço que se paga ao preparar a própria bebida é o de competir com um comércio sujo que fará de tudo para destruir a sua imagem. Por ser mais fraco em termos de valor de mercado, você corre o risco de ser rotulado de herege. No entanto, por ser mais forte em termos de dignidade, você com certeza descobrirá que vale à pena pagar o preço.

 

TIRA GOSTO

 


DIVINA LUZ

 


ÉS A MINHA FONTE INSPIRADORA

ÉS A MINHA VERDADE MUTÁVEL

MUTÁVEL COMO A VIDA

MUTÁVEL COMO O UNIVERSO

MUTÁVEL COMO SI MESMO

 

ÉS A FORÇA QUE ME DETERMINA

ÉS A ENERGIA QUE ME IMPULSIONA

IMPULSIONA A REFLETIR

IMPULSIONA A QUESTIONAR

IMPULSIONA A AGIR

 


ÉS

SEM PRECISAR SER

SER SOBRENATURAL

SER SOBERANO

SER DIVINO

 

ÉS POR TODOS

ÉS POR TUDO

TUDO QUE EXISTIU

TUDO QUE EXISTE

TUDO QUE EXISTIRÁ

 

ÉS PRESENÇA

PASSADA

PRESENTE

FUTURA

ONIPRESENÇA

 

ÉS REPLETO

ÉS VAGO DEMAIS

DEMASIADAMENTE COMPLETO

ININTELIGÍVEL

À NOSSA VAGA INTELIGÊNCIA

 

ÉS PALAVRA

ÉS A FALTA DELA

SEM SIGNIFICADO

PORÉM SIGNIFICATIVO

EXPRESSIVAMENTE ACEPTIVO

 

ÉS SIMPLESMENTE

ÉS DEFINITIVAMENTE

DEFINITIVAMENTE SEM CONCEITO

DEFINITIVAMENTE SEM EXPLICAÇÃO

DEFINITIVAMENTE SEM SENTIDO

 

SEM SENTIDO

ÉS APENAS SENTIDO

O QUE FAZ SENTIDO

MUITO SENTIDO

SENTINDO

 

INGREDIENTES

 


Só fé e nada mais.

 


PREPARO
 

         Para preparar esta bebida você terá primeiro que colher a fruta preciosa da mesma. Esta fruta se encontra no quintal da vida. Caso você pense não possuir este quintal é porque está de certa forma morto. Sendo assim, será preciso ressuscitar, pois a vida é um quintal com infinitas árvores. Se estiver morto, tente descobrir quem lhe assassinou. Muitas pessoas são mortas ao ingerir crenças, dogmas, enfim por uma infinidade de valores, padrões doentios que servem muito mais ao outro do que a si mesmo. Ao descobrir seu assassino, mande-o para o inferno que o habita e apodere-se finalmente de seu paraíso. Ao entrar em seu paraíso, você descobrirá que ele não é nada mais, nada menos do que a sua própria vida. Neste momento você se lembrará de que todas as vezes que viveu o inferno foi por ter delegado sua própria vida a pessoas manipuladoras que julgavam poder direcioná-la ao seu bel prazer.

         Neste paraíso que eu chamo de quintal da vida existe bem na entrada uma árvore frondosa com os frutos da fé. Basta saboreá-los para que você possa encontrar em seguida a árvore cujo suco contém a tão valiosa energia divina, pois o sumo da fé é que lhe direcionará exatamente ao local onde você precisa estar. O mais interessante é que não existe uma regra rígida. O fruto que contém a energia divina pode estar em qualquer árvore e em qualquer lugar. Tudo vai depender muito do seu momento presente; da sua abertura e da sua necessidade atual. Assim que encontrar o fruto com a energia divina, esprema todo caldo que tiver dentro dele fazendo uma bebida bem apetitosa capaz de estimular todos os seus sentidos e sensações. Deleite-se com este inesquecível prazer sem jamais abrir mão da energia que sentirá fluir dentro de seu ser, agora mais forte e pleno.



SOBREMESA

 
 

O LAMPIÃO MÁGICO



          Era uma vez um certo lugar aonde as pessoas chegavam e ganhavam de presente um lindo lampião mágico. Dentro dele vivia uma luz capaz de iluminar todos os caminhos que levavam à felicidade. Tamanho era o poder deste lampião que muitos  chegavam a acreditar que Deus morava dentro dele, no entanto, havia também os que duvidavam simplesmente por alimentar a crença de que Deus habitava um paraíso muito distante onde poucos poderiam chegar. Aquelas pessoas que acreditavam na presença de Deus no lampião tratavam de cuidar bem do mesmo e manter a luz sempre acesa.  Encaravam-no como uma bússola da felicidade e tratavam de explorar todos os caminhos e direções que a vida lhes oferecia sempre com o lampião à mão. Aquelas que acreditavam na presença de Deus no paraíso, passavam uma vida inteira fazendo promessas, reparando culpas, trabalhando pelo futuro na esperança de um dia poderem desfrutar de um prazer que jamais se permitiam desfrutar no presente. Estas pessoas menosprezavam o seu lampião a ponto de deixa-lo largado em um canto qualquer deste mundo, pois o único mundo que lhes interessava estava sempre muito além.

O tempo, companheiro de todos, sempre vai passando devagarzinho sem que ninguém perceba. Andando sem fazer rumor e com muita sutileza, promove em algum momento o inesperado e surpreendente encontro com a eternidade. Diante de tal surpresa, muitas pessoas se sentem traídas pelo mesmo, inaugurando um conflito que as impedem abraçar a eternidade neste inesquecível encontro que pode ser triste ou alegre dependendo da descoberta que cada um faz. E foi assim aconteceu uma interessante conversa em algum lugar e em algum momento.

— Quem é você? Perguntou um homem.

— Eu sou a Eternidade.

— O que estou fazendo aqui?

— Você é quem deveria saber! Respondeu Eternidade.

— Por que eu é que tenho que saber o que estou fazendo aqui? Perguntou com ar petulante o recém chegado daquele lugar novo e desconhecido.

— Porque é você quem está aqui agora! Afirmou Eternidade.

— Onde estou?

— Você está aqui! Respondeu cheia de convicção a desconhecida Eternidade.

— É claro que estou aqui. Quero saber que lugar é este. Falou impacientemente o homem.

— Este lugar é o lugar que ocupa agora! Respondeu com serenidade a voz da Eternidade.

— Mas o que é que posso fazer neste lugar?

— O que você quiser!

— Mas eu não quero fazer nada! Respondeu o homem com muita raiva.

— Então não faça nada! Aconselhou Eternidade.

— Eu quero que me digam o que devo fazer!

— Então diga a si mesmo o que acha que deva fazer!

— Eu não sei o devo fazer e não estou acostumado a dizer nada a mim mesmo. Sei apenas dizer ao outro o que fazer. Sendo assim, me diga agora o que devo fazer! Ordenou com firmeza aquele novato homem que começava a se enfurecer com as vagas respostas da Eternidade.

— Epa, mais um! Provavelmente você não saiba o que queira fazer por nunca ter feito o que realmente quis – Pontuou Eternidade querendo esclarecer algo que lhe parecia bem comum de acontecer ali.

— E o que eu realmente quis e não fiz? Perguntou com sarcasmo o homem

— Isso só você sabe.

— Pois saiba que sempre quis dar ordens e sempre fiz isto muito bem.

— Talvez precise agora dar ordens a si mesmo. Ponderou Eternidade com sabedoria.

— Eu nunca fiz isto e nem pensei nunca nisto... Divagou pensativo o homem arrogante.

— Em que você pensava?

— Eu pensava fazer aquilo que aprendi ser correto fazer.

— O que é correto? Perguntou Eternidade com ar de questionamento.

— Correto é tudo aquilo que vem de Deus.

— Então você sabe que deva fazer aquilo que vem de Deus! Esclareceu Eternidade tentando ajudá-lo.

— Sei.

— E por que não faz? Questionou Eternidade.

— Sei que o correto é fazer o que vem de Deus, mas não sei o que fazer agora. Falou decepcionado aquele homem que se julgava tão certo de si.

— Talvez você não saiba o que vem de Deus. Inferiu Eternidade.

— Eu sei sim! O que vem de Deus é tudo que me falaram, é tudo que escutei a minha vida inteira.

— Então faça o que lhe falaram! Recomendou Eternidade.

— O que me falaram não faz mais sentido aqui neste lugar.

— Mas, por que perdeu o sentido logo agora?

— Porque eu não tenho o que fazer aqui para garantir meu lugar no paraíso. Respondeu o homem cheio de desilusão.

— Onde é o paraíso? Perguntou Eternidade

— É o lugar onde Deus mora.

— Onde Deus mora?  Voltou a perguntar tentando questiona-lo.

— Em algum lugar. Respondeu confuso.

— Mas, algum lugar é um lugar que não existe! Advertiu Eternidade.

— Como assim?  Perguntou o homem com uma expressão confusa.

— Ninguém pode ocupar algum lugar. Todos nós só ocupamos o lugar que estamos nele no momento. E é neste lugar que devemos construir o nosso paraíso. Orientou Eternidade àquela alma tão desavisada.

— Para que construir um paraíso se eu posso usufruir o paraíso de Deus? Ironizou o homem.

— Você já usufruiu em algum momento do paraíso de Deus? Retorquiu Eternidade.

— Não, mas me certificaram a vida inteira de que algum dia isto seria possível.

— Mas, algum dia é também um dia que não existe! Voltou adverti-lo aquela presença tão questionadora.

— Que dia existe então?  Perguntou o homem com um tom desafiador.

— Existe o agora para sempre. Respondeu Eternidade com toda segurança tentando clarear as ideias confusas daquele homem.

— Acho que estou começando a entender... Você está tentando me dizer que não existe algum lugar paradisíaco que eu possa viver algum dia?

— É isto mesmo. Viver é estar presente, o resto é pura fantasia.

— Quem me garante que você é portadora da verdade divina? A verdade que ouvi é totalmente diferente de tudo isto que você me diz agora e eu prefiro continuar acreditando naquilo que eu ouvi. A verdade de Deus é suprema. Contrapôs o homem desconfiado.

— Então continue acreditando naquilo que ouviu. Se isto lhe deixa mais seguro...

— Mas o problema é que não me sinto mais seguro. Desabafou o homem.

— Sinto muito por você pelo fato da verdade divina não ter tido o poder de lhe trazer segurança. Ressentiu Eternidade.

— Mas eles sempre me garantiram que tudo aquilo que eu ouvia me traria a segurança que todo ser humano busca.

— O que você ouviu foi dito por quem? Perguntou a voz Eterna.

— Por eles, ou seja, por inúmeras pessoas que cruzaram o meu caminho dizendo saber qual o caminho certo e garantido da vida.

— Então você não ouviu de Deus? Indignou-se Eternidade.

— Eu ouvi através deles o que Deus falava. Justificou o homem.

— Por que Deus só disse a eles e nunca a você?

— Eu é quem vou saber?

— Quem mais poderia? Censurou Eternidade.

— Só Deus. Respondeu o homem.

— Então pergunte pela primeira vez a Deus alguma coisa!

— O que eu devo perguntar?

— Tudo aquilo que deseja saber. Respondeu Eternidade

—E o que é importante saber? 

— É importante saber o que é importante para você.

— Mas eu não sei o que é importante para mim.

— Você não sabe o que é importante para você? Fitou-o perplexa aquela voz tão questionadora.

— Eu sei o que é importante para os outros. Aprendi através do outro o que era importante para mim e aprendi também a dizer a eles o que supostamente era importante para eles.

— Aqui não existe mais este outro que você tanto fala.

— E o que existe aqui?

— Existe o que você consegue enxergar e sentir.

— Eu não consigo enxergar e sentir nada. Falou o homem cheio de desânimo.

— Este nada é o que você conseguiu alcançar. Esclareceu com firmeza a voz da Eternidade.

— Não! Você está totalmente enganada! Eu consegui alcançar muitas coisas. Eu sou um homem vitorioso. Tenho títulos, bens, dinheiro, uma família, amigos e muito mais.

— Me mostre tudo isto que alcançou. Desafiou Eternidade.

— Eu não tenho como lhe mostrar isto agora. Ressentiu o homem.

— Se isto lhe pertencesse você deveria ter como me mostrar.

— Não sei como explicar, mas tudo ficou perdido em algum lugar.

— Onde? Perguntou Eternidade

— Sei lá. Talvez alguém tenha me roubado tudo isto.

— Quem faria isto?

— Você. Só pode ser você! Foi só me deparar com você e tudo perdeu o sentido. Quem é você?

— Eu já lhe disse, sou a Eternidade.

— Eternidade é um tempo que não existe. Expressou com escárnio tentando desqualificar Eternidade.

— Qual tempo existe mesmo? Perguntou Eternidade querendo checar o poder de assimilação daquele homem.

— Você acabou de me dizer que o agora é o único tempo que realmente existe, já que o passado passou e o futuro não chegou ainda. No entanto, tenho que admitir a minha dificuldade para entender isto na prática.

— Mas agora poderá entender perfeitamente,  pois  este  agora se eternizou para você.

— Eu não sei viver este agora. Sempre desprezei este momento.  Eu quero meu passado e um futuro brilhante para mim.

— Foi o que você sempre fez e o que não dá para fazer agora. — Ponderou Eternidade.

— E o que dá para fazer agora? Perguntou o homem cheio de curiosidade.

— Dá para fazer o que tiver vontade!

— Eu tenho vontade de viver o meu passado e o meu futuro. Afirmou o homem num tom de exigência.

— Eu já lhe disse que estes tempos não existem aqui.

— Eu não quero viver agora! Berrou o homem.

— Então, morra! Retrucou Eternidade.

— Eu não quero morrer.

— Deverá morrer para trazer de volta o que deseja.

— A morte trará de volta a vida? Perguntou o homem inundando-se de esperança.

— Não, pois não é bem a vida o que você deseja. A morte lhe trará de volta o que lhe matou em vida. Esclareceu Eternidade. É isto que deseja?

— Eu prefiro a morte a esta vida aqui.

— Então você optará pela morte e renegará novamente a vida?  Perguntou perplexa Eternidade.

— Mas eu nunca neguei a vida! Afirmou o homem.

— Como já lhe disse, vida só acontece no presente, o restante são lembranças ou fantasias. Você negou o seu presente deixando-o jogado em um canto qualquer do mundo.

— Que presente é este?

— Aquele que Deus oferece a todos. O seu lampião mágico. Elucidou Eternidade.

— Para que serve um lampião?

— Para iluminar o seu caminho.

— Eu não preciso de um lampião para iluminar o meu caminho, ele sempre foi muito claro.

— Engano seu. Você abandonou o seu lampião e a escuridão fez com que buscasse a segurança trilhando o caminho do outro. É preciso que encontre o seu lampião para conquistar finalmente a clareza que lhe falta agora.

Inesperadamente, foram interrompidos por um jovem que se aproximou carregando com reverência um lindo lampião. Com um ar de felicidade e prazer falou exultante:

— São tantas as belezas e os prazeres deste lugar! Mais um paraíso!

— Mais um paraíso? Interrogou-lhe surpreso o homem.

— Mais um paraíso dentre os muitos que já passei. Completou o jovem dono do lampião.

— O que você vai conseguir fazer aqui?

— Eu já estou fazendo tudo que tenho vontade.

— Você não se considera um egoísta fazendo tudo que possui vontade?

— Egoísta, como assim? Perguntou o jovem.

— Como fica os outros com você fazendo apenas as coisas que tem vontade?

— Os outros também podem fazer aquilo que possuem vontade. Afirmou o dono do lampião.

— E o que você tem vontade? Perguntou o homem.

— Tenho vontade de ser o que realmente sou.

— O que você é?

— Sou aquilo que descubro a cada momento.                         

— E o que você descobriu de você até agora? Perguntou o homem cheio de indignação.

— O grande prazer de me conhecer.

— E os desprazeres?

— Os desprazeres acontecem principalmente quando descuidamos do nosso lampião a ponto da nossa luz apagar nos obrigando a seguir a trilha do outro. Explicou o jovem.

— Isso já aconteceu contigo? Perguntou curioso identificando-se com a situação exposta pelo jovem.

— Algumas vezes.

— E o que você fez para encontrar seu lampião de novo?

— Tive que aceitar andar por algum tempo no escuro, mas levando comigo a clara meta de buscar a luz. Respondeu o jovem externando humildade.

— E como se faz isto?

— Tendo a coragem como parceira nesta busca.

— E onde podemos encontrar a coragem? Perguntou o homem.

— Apenas diante do medo.

— Você já teve medo?

—Algumas vezes.

—Pois eu nunca tive. Vangloriou-se o homem tentando, inutilmente, se sobressair sobre o jovem.

— Pois eu tive medo, enfrentei e conquistei a coragem que me permitiu encontrar meu lampião todas as vezes que o perdi.

— Quando é que se tem medo? Perguntou o homem temeroso pela resposta.

— Diante do desconhecido.

— E o que é o desconhecido?

— Talvez seja aquilo que lhe faltou conhecer.

— E o que me faltou conhecer? Perguntou o homem com ar irônico.

— Aquela presença discursada por muitos, mas praticada e vivida por poucos. Conjeturou o dono do lampião.

— Que presença?

— A presença de Deus dentro de si e não somente fora.

— Mas como você pode dizer isto?

— Digo isto porque vejo você sem o seu lampião. Finalizou o jovem.

Antes que a conversa pudesse ter continuidade, Eternidade solicitou que cada um retomasse  o seu caminho. Só Deus sabe o caminho que cada um deles tomou.

domingo, 26 de agosto de 2012

TRANSCENDÊNCIA



O ALÉM É O PRÓXIMO E SÁBIO PASSO PARA QUEM ALCANÇOU SEUS LIMITES OU DEPAROU-SE COM O TRISTE E LAMENTÁVEL FIM”




TRANSCENDÊNCIA



        Trata-se de um coquetel capaz de ascender a sua visão de mundo e da própria vida, fazendo-o enxergar além daquilo que usualmente está habituado a enxergar. Ampliando sua visão, você passará a perceber e sentir o novo, adentrando-se no além de tudo aquilo que já está cansado de viver e podendo, finalmente, alcançar a iluminação que lhe fará sentir eternamente vivo.



CUSTO

       

        Se paga o preço da cura da miopia que não lhe permitia enxergar o que parecia distante, mas que na verdade estava bem próximo querendo se exercer. Com isso, perde-se o álibi de fingir-se cego para facilitar e justificar aquilo que não deseja ver e viver.



TIRA GOSTO


ALÉM


QUIS SER UM POUCO MAIS DO QUE EU
TRANSFORMEI-ME NAQUILO QUE SEREI
MESMO ANTES DE SER
DOU-ME CONTA QUE SOU


SOU O VERBO
CONJUGADO EM TODOS OS TEMPOS
VERBO TRANSCENDER
QUE ME PERMITIU SER ANTES

ME VEJO ESCRITORA
ANTES DE SÊ-LA
E ASSIM CONSTRUO MEU LIVRO
PARA ABRIGAR A IDÉIA DE SÊ-LA


CRESCE A IDÉIA
CRESCE A POSSIBILIDADE
DE TRANSCENDER MEU PRESENTE
PRESENTEANDO-O COM O LIVRO DO FUTURO


NÃO PUS O PÉ NO FUTURO
TROUXE-O PARA O PRESENTE
FIZ O PRESENTE SE TRANSFORMAR
EM ALGO MAIS QUE ELE MESMO


NO LIVRO DO FUTURO
ESTÁ ESCRITO
VIVA SEU PRESENTE
MAS, TRANSCENDA-O


TRANSCENDER
CULTIVAR POSSIBILIDADES
O PRESENTE FICA MAIS PRESENTE
COM A POSSE DE NOVAS HABILIDADES


HABILIDADE DE IR ALÉM
ALÉM DO PASSADO, PRESENTE, FUTURO
CRIAR UM TEMPO A MAIS
SÓ PARA VOCÊ


HABILIDADE DE SER ALÉM
ALÉM DA FORMA PERFEITA E IMPERFEITA
CRIAR UMA FORMA
QUE SEJA SÓ SUA


HABILIDADE DE TER
ALÉM DE TUDO
CRIAR O NADA
NADA QUE LHE LIMITE


INGREDIENTES

                                                                                                            
Ilimitado desejo de ir além
Doses caprichadas de plenitude


PREPARO

       

Da mesma forma que se bate em um liquidificador os ingredientes de um coquetel de frutas, você deverá deixar que o seu coração bata bem forte todo o desejo que existe dentro de seu ser de ultrapassar todos os limites que a vida lhe impõe. Acrescente algumas doses de plenitude impedindo que seu coquetel coalhe. Se o seu coração não tiver força para bater todos os seus desejos, é melhor não tentar fazer este coquetel, pois o máximo que conseguirá preparar será um suco bem ralo com sabor de limites, adocicado com uma dose bem grande de frustração.
O coquetel da transcendência deverá ser tomado em taça de cristal para apurar ainda mais o sabor de ultrapassar os limites e não em copo de plástico como os habituais refrescos cujos frustrantes sabores se situam sempre aquém daquilo que desejamos no nosso mais íntimo ser.
O efeito do coquetel poderá lhe gerar temporariamente uma sensação de insegurança gerada pela perda de controle daquilo que precisa se exercer. Não se preocupe, pois nenhum mal poderá lhe acontecer. Pelo contrário, você estará conquistando a grande capacidade de se exercer sem controle.
Um brinde à sua infinita capacidade de SER e se “exerSER”.



SOBREMESA



A MISSÃO DA VELA


 Vou contar a história de uma vela de sete dias. Vivia junto com as outras velas sem saber ao certo a sua função. Fria e apagada, parecia mais a morte do que a vida. Vela para sentir-se viva precisa de luz. Sem luz, sentia-se triste, feia e inútil.
Certo dia sentiu uma mão trêmula a tocá-la. Observou bem e viu-se diante de uma mulher a chorar. Suas lágrimas  escorriam pelo rosto consumindo toda a expressão de felicidade e beleza que possuía. A vela enxergou no fundo dos olhos daquela mulher o desespero. Viu a última chama de vida de alguém se consumindo e percebeu que poderia ser uma chama de esperança para aquele frágil ser que ajoelhado rogava para a chama divina uma luz que pudesse iluminar as trevas de sua alma. A vela foi acesa pela tão apagada alma e passou a ter, partir daquele momento, a sublime e nobre missão de representar a esperança e a luz. No entanto, não sabia ainda as implicações desta missão para a sua própria vida. Sete dias foram suficientes para que pudesse aprender muita coisa.
No primeiro dia ficou fascinada com a sua luz. Sentia-se viva e irradiante. Perguntou a Deus porque se sentia tão bela e ele respondeu:
— Belo é aquele que vive e aprecia a sua luz.
Entendeu assim que não há razões para a beleza, ela está presente em tudo ou poderá não estar presente em nada. É necessário ter olhos iluminados para adquirir a capacidade de enxergá-la.
No segundo dia sentiu-se aquecida. Derretia-se de felicidade ao perceber que além de luz irradiava calor. Perguntou a Deus porque se sentia tão feliz e ele respondeu:
 — Você é feliz porque liquidou toda frieza que existia em si.
         Sentiu-se orgulhosa de ter conquistado a capacidade de ultrapassar a frieza que habitava o seu ser, no entanto, não sabia ao certo como foi adquirindo esta capacidade. Começou a ficar mais atenta a tudo que acontecia ao seu redor, percebendo no 3º dia uma pequena diferença. Começou a sentir-se pequena, bem menor do que era antes da sua primeira chama ser acesa. Perguntou a Deus porque se sentia assim e ele respondeu:
 — Você é pequena quando não consegue enxergar dentro de si. As aparências enganam!
         Nunca ninguém lhe havia ensinado a enxergar dentro dela mesma. Como haveria de aprender isto?  Quem haveria de ensiná-la? Sabia que se continuasse a olhar apenas para fora, haveria de chorar muito. Seria consumida por suas lágrimas, pela sua tristeza. Precisava arranjar uma saída, não queria acabar assim. Lembrou-se da sua missão. Percebeu que sua missão era o seu trabalho e que o mesmo poderia desviar a sua atenção para algo que valesse à pena e não gerasse tanto sofrimento. Concentrar a sua atenção na sua pequenez era optar pela miserabilidade. Determinada, optou por transformar as lágrimas em suor. O trabalho de construir uma esperança a fazia suar, suar, suar... Seu suor escorria fartamente pelo seu corpo quando, no 4º dia, fez uma nova pergunta  a Deus numa tentativa de avaliar o seu labor:
— De que vale o meu suor?
Imediatamente, Deus lhe respondeu:
 — Seu suor vale a esperança que constrói a tranquilidade e o sossego para uma alma aflita.
         Sentindo que seu suor valia à pena, continuou o seu trabalho. O tempo ia passando e o corpo daquela vela já não era o mesmo. Apesar de sua chama continuar forte, seu corpo foi ficando cada vez mais frágil e pequeno. Já no 5º dia foi tomada por uma inquietante consciência de que sua própria chama consumia seu corpo. Teve vontade de apagá-la. Talvez assim continuasse viva. Por medo da morte, pensou que certamente fosse mais seguro manter-se apagada. Suplicou a Deus que lhe desse um sopro. Confuso, Deus perguntou-lhe:
— De que lhe valeria meu sopro?
— O seu sopro me protegeria da morte. Apagada, eu não seria mais consumida pela minha chama. Respondeu confusa, aquela velinha, querendo se apegar a algo que lhe desse segurança. Tentando clarear as ideias da mesma, Deus salientou com sabedoria:
— Apagado está aquilo que já se encontra morto. Será que não percebe que sua luz é a sua vida?
— Mas, a minha luz não é eterna, ela se apagará assim que meu corpo definhar. Completou a velinha repleta de ansiedade e angústia.
— Você está sendo totalmente contraditória. Se tem medo de sua luz se apagar, porque suplica pelo meu sopro?  Questionou a voz divina.
— Porque apagando-a, eu teria condição de salvar pelo menos alguma coisa . Justificou a vela.
— Que coisa você julgaria salvar? Perguntou novamente o ser divino.
— O meu corpo. Respondeu prontamente a vela.
—  Como já lhe disse, um corpo apagado é um corpo sem luz. Um corpo sem luz é um corpo morto. Sem luminosidade, ele não enxergaria jamais a beleza. Sem a chama do seu calor, não sentiria a irradiante felicidade que você experimentou. Não seria capaz nem mesmo de sofrer, chorar. Seria inerte, desconheceria o suor de seu trabalho. Você deseja o impossível. Não há como salvar um corpo morto. Sem luz, um corpo não tem vida.
— Então não há nada que eu possa fazer? Perguntou a velinha num tom de desilusão que fazia pena.
— Há ainda muito que fazer. Respondeu Deus, acendendo a esperança na desiludida vela.
— O que posso fazer?
— Aprender a aceitar o que é finito e o que é eterno. Respondeu o Divino
— Finito é meu corpo. O que seria eterno?  A minha luz é que não pode ser, pois ela se apagaria juntamente com meu corpo. Conjeturou a vela, tentando compreender conceitos tão complexos.
 Tentando oferecer para a vela uma definição que pudesse tranquilizá-la, a sabedoria divina tentou esclarecer:
— Eternidade é permanência.
— Continuo não entendendo nada. Explique-me isto melhor! Solicitou ansiosamente a velinha que diminuía de tamanho, tornando-se cada vez mais pequenina a cada minuto que passava.
—  Permaneça e verá. Finalizou com firmeza a voz divina.
O medo da vela era bem maior do que a tranquilidade que a sabedoria divina tentava transmitir-lhe. Pensar em mais um dia de vida fazia a sua chama tremer. Queria parar no tempo ou voltar, se fosse possível. Não sabia quanto tempo de vida teria, sabia apenas que iniciava o seu sexto dia de luz. Desesperada, chegou ao cúmulo de amaldiçoar a sua chama luminosa. Lembrou-se da irradiante beleza e alegria dos seus primeiros dias de luz. Agora estava ali, irradiando tristeza e se consumindo cada vez mais nela. Iniciou um choro compulsivo, que transformou seu corpo num emaranhado de lágrimas. Difícil era identificar os limites do corpo e das gotas segregadas pelo seu humor deprimido. Tudo parecia uma coisa só. Chorando, sem controle e impotente para reverter o inevitável, permaneceu ali quietinha, aguardando o seu fim.
Já quase se apagando, no seu 7º dia de vida, sentindo sua chama trepidando,
conquistou, enfim,  o poder de permanecer. Sem lágrimas e sem corpo, se apossou apenas de uma chama que se sustentava no vazio. Neste momento, vazia de súplicas e lamentações, permaneceu. Envolvida por um silêncio confortante, foi surpreendida, repentinamente, por uma enorme chama que, além de luz, emanava uma linda oração:
OBRIGADA, SENHOR, POR TER ME REVELADO O SENTIDO DA VIDA.
OBRIGADA POR UMA SIMPLES VELA TER SIDO CAPAZ DE EMANAR A LUZ NECESSÁRIA PARA A MINHA MAIS RECENTE DESCOBERTA.
A CHAMA DESTA VELA ETERNIZOU-SE, TRANSFORMANDO-SE EM SABEDORIA.
DESCOBRÍ QUE VIVER É PERMANECER ACESO.
DESCOBRÍ QUE MORTO ESTÁ AQUELE QUE APAGOU A SUA LUZ PARA ECONOMIZAR O QUE É FINITO.
DESCOBRÍ QUE O TÃO TEMIDO INEVITÁVEL É, NA VERDADE, UM MOMENTO DE TRANSFORMAÇÃO.
DESCOBRÍ NA MINHA TRANSFORMAÇÃO A MINHA PERMANÊNCIA.
DESCOBRÍ NA MINHA PERMANÊNCIA A MINHA ETERNIDADE.
DESCOBRÍ NA MINHA ETERNIDADE A TUA LUZ.
DESCOBRÍ NA TUA LUZ A MINHA TRANSCENDÊNCIA.
     Findou-se a oração e o medo da vela. Daquele dia em diante, ela nunca mais temeu sua chama.